Como habitarás quando envelhecer?

Diante do isolamento imposto pela pandemia e da releitura comentada entre amigas da saga solitária da estirpe dos Buendía, em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, me volta à mente como nosso jeito de levar a vida e nossa rede de relações são vitais para envelhecer bem. É pelo lado financeiro, mas é também pelo suporte do convívio social que o envelhecimento nos leva a procurar por novas formas de viver.

Já tratei desta tendência em “Moradia compartilhada melhora qualidade de vida”, mas volto ao tema porque o déficit habitacional é assunto recorrente e ao optar por estudar a ciência do envelhecimento tenho notado grande desconhecimento e até preconceito sobre as opções habitacionais, principalmente quando cabe à família dar o voto de minerva. Ou até decidir sobre as práticas paliativistas, quando há necessidade de cuidados a um paciente incurável.

Há certo mal estar porque é difícil entender que é, de fato, melhor para todo mundo estar no lugar adequado.  Então é preciso destacar, reforçar, divulgar e até nos educar para a pluralidade do envelhecimento.

Não é porque o sujeito faz 60 anos – quando se convencionou estabelecer “idosa” a população – que vai começar a se identificar com as mesmas coisas. E, por isso, nem todo mundo vai querer morar do mesmo jeito.  E isso não depende de ter ou não filhos.

Já pensou quem vai cuidar de você se for necessário?

Essa mudança de costumes avança muito no discurso e até na construção das leis, mas demora à beça pra se incorporar na nossa vida. Ainda hoje falar em cuidados paliativos ou em asilo soa como algo cruel, como despejar a pessoa num depósito de velho.

A própria palavra asilo – inicialmente dirigidos à população carente que necessitava de abrigo, frutos da caridade cristã diante da ausência de políticas públicas – traz em sua gênese a ideia de isolamento e solidão e, por esse e outros motivos, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia indicou a substituição para ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos.

Apenas 6,6% das ILPIs são públicas

Hoje, o País já conta com 3.500 ILPIs, sendo a maioria privada. Apenas 6,6% são públicas, com predominância das municipais, o que corresponde a 218 instituições, número bem menor do que o de instituições religiosas vicentinas, aproximadamente 700. Os números são de artigo publicado na Revista de Estudos Populacionais.

A institucionalização do idoso é uma opção de moradia já bem conhecida por todos. E claro que há casos e casos.  “Tudo está relacionado ao grau de dependência do idoso. Seja física, cognitiva ou financeira”, diz Luisa Regina Pessôa, arquiteta aposentada da Fiocruz e à frente de um projeto num condomínio para sêniores em Búzios, no Rio de Janeiro.

Lá, oito amigos estão reunidos pela proximidade das casas e pela segurança de poderem contar um com o outro, mesmo antes do isolamento imposto pela pandemia. “Acho que essa modalidade pode ir se ajustando ao nosso envelhecimento e a cada grau de necessidade e independência”, avalia Luisa.

Um lar monitorado

Foi justamente pensando nas diferentes necessidades desse público que o empresário Leonardo Pisani idealizou ACASA, um serviço de hospedagem assistida que se propõe a melhorar a qualidade de vida dos idosos. Trata-se de um formato aos moldes de negócio do “assisted living”, adotada pelas grandes redes de lares de idosos dos Estados Unidos.

“Buscamos trazer para o Brasil o modelo de vida em uma comunidade de idosos, onde o hóspede pode trocar experiências, praticar diversas atividades e ter todo o suporte de uma equipe multidisciplinar especializada”, conta. Tudo sem perder a liberdade de tornar aquele cantinho no seu lar.

Embora só agora esses conceitos ganhem destaque, nem são assim tão novos. Em 1975, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, nascia um projeto pioneiro de um grupo de amigos liderado por Antonio Correa Leite, que idealizou um local onde as pessoas pudessem envelhecer com dignidade, tranquilidade e saúde, além de ter todos os benefícios de um condomínio fechado.

Já naquela época previu a necessidade de profissionais para atuar na área da saúde para atendimento aos moradores. Com o passar dos anos, o que era algo entre amigos se transformou em negócio, com a adesão de novos investidores, originando a Associação Residencial – A Agerip.

E quem não tem acesso?

É importante abrir um debate para que essas novas formas de morar se multipliquem para além daqueles que podem pagar, já que alternativas para diferentes condições de saúde e de capacidade funcional não faltam, mas poucos têm ou terão acesso a elas pelos altos custos.

São mínimas as políticas públicas habitacionais que asseguram moradia digna. O déficit habitacional brasileiro é de mais de oito milhões de moradias, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). E a situação piora diante das necessidades dos idosos.

Por isso, é urgente entender a transição demográfica pela qual o País atravessa debater soluções e cobrar dos futuros candidatos propostas voltadas aos problemas deste Brasil Sênior.

O primeiro passo é conhecer um pouco mais do que já existe disponível, abrir a nossa mente e nos despir de preconceitos para as novidades que possam surgir.

Vamos juntos?

#ILPIs

Residências coletivas, que atendem idosos com necessidade de cuidados prolongados. Podem ser governamentais ou não, mas o tratamento médico não é o elemento central do atendimento.

#Asilos

Lar destinado acolher idosos sem recursos financeiros, essencialmente de responsabilidade pública.  Atendimento inclui alimentação, higiene e saúde.

#Casas de Repouso

Destinada à prestação de serviços médicos, de enfermagem e demais serviços de apoio terapêutico. Instituições governamentais ou não governamentais. Regime de internato. Só podem ter médico como responsável técnico.

#Moradia assistida

É uma residência inclusiva, mas não é uma clínica, nem um local de tratamento, mas uma variação da tradicional casa de repouso. No local, as pessoas têm liberdade para fazer dele um lar. São residências adaptadas às necessidades especiais, individuais e coletivas dos atendidos por elas.

#Centro-Dia

O Centro-dia é um serviço social previsto na Política Nacional do Idoso que atende pessoas com 60 anos que necessitam de cuidados durante o dia e que à noite voltam para suas casas, mantendo assim os vínculos sociais e familiares. Podem ser públicas ou privadas.

#Coliving

É um nome chique para a tradicional República. Quem lembra? Isso porque nesse modelo as pessoas têm o seu próprio quarto, mas compartilham os outros ambientes da casa, como cozinha, sala e varanda. E todo mundo colabora.

A vida em comunidade e o compartilhamento de espaços comuns que caracterizam o coliving atraem cada vez mais idosos, que querem viver sob o lema da partilha de experiências. Pensando nisso, foi lançado a Coliiv, startup que funciona como uma espécie de Tinder da moradia para os maduros.

#Cohousing

São casas particulares agrupadas em torno de espaço compartilhado. Cada casa anexa ou unifamiliar possui acomodações tradicionais. As famílias têm renda independente e vida privada, mas os vizinhos planejam e gerenciam colaborativamente as atividades da comunidade e os espaços compartilhados.

A estrutura legal é tipicamente uma associação de proprietários ou uma cooperativa habitacional.

#Hospice

O hospice é um lugar destinado a pessoas portadoras de doenças letais, sobretudo no período em que a terapia de cura torna-se ineficaz e a terapia paliativa torna-se imprescindível. Pacientes que possuem doenças avançadas e incuráveis, em fase terminal ou não, bem como pacientes que necessitam de cuidados especializados no controle de sintomas ou de pequenas intervenções clínicas.

Traz o conceito e a filosofia de cuidados paliativos e envolve atendimento, inclusive para a família no pós-luto.

E então? Já pensou que estilo combina mais com você? Nada impede a gente de seguir o seu Antonio, da Agerip, e criar algo, não é mesmo?!

O futuro depende da diversidade no trabalho

Demorei um bocado a assistir Um Senhor Estagiário, filme com Anne Hathaway e Robert De Niro, apesar de tantas indicações. Realmente é uma delícia de comédia com toques de drama que pode ser inspiradora tanto para aposentados quanto para mulheres que assumem liderança. Para mim a inspiração veio na hora certa por vários motivos e me ajudou a encarar o trabalho de uma nova forma. Olhar esse essencial para o envelhecimento.

Foi daí que veio a pergunta que originou este texto: o que estamos fazendo para combater a velhofobia no mercado e dentro de nós mesmos?

Essas e outras questões foram respondidas durante o Maturi Fest 2020 – Festival Online de Trabalho e Empreendedorismo 50+, realizado entre 6 e 9 de julho, sob a batuta de Mórris Litvak, fundador da Maturi, negócio social que nasceu em 2015 como MaturiJobs, com o intuito de ajudar as pessoas maduras a terem a oportunidade de continuarem ativas e compartilhando suas experiências pelo tempo que quiserem.

O evento reuniu 60 palestrantes engajados na causa do envelhecimento ativo, contou com cerca de 7 mil inscritos e a cobertura completa pode ser conferida no site da Maturi. Vale a pena!

Trabalho ou emprego?

Recomendo independentemente da idade. Até porque, como se diz, a carapuça me serviu, embora ainda esteja aqui no limbo dos 40+. É que durante o distanciamento social muitos, como eu, assumiram novas tarefas da gestão não só da própria casa como a de algum familiar do grupo de risco. Confesso que inicialmente o sofrimento era desproporcional simplesmente porque não conseguia enxergar valor em determinado tipo de trabalho.

Isso porque fomos criados para ter emprego, carreira, num cenário onde quase sempre as relações de trabalho são balizadas pela troca do dinheiro. Não é que o dinheiro não importe!

Importa e muito. Principalmente quando você percebe aos 50 que vai viver por mais 50. Mas diante de uma crise socioeconômica como a que o mundo enfrenta para além da pandemia, é vital compreender o trabalho como ação que provoca transformação e não apenas obediência ao horário de expediente e ao líder.

O ato de se dispor a fazer algo pela sociedade ou por você mesmo tem valor mesmo não sendo remunerado. E isso precisa ficar claro, como no filme com De Niro, para quem já se aposentou ou não.

Estigma social

“A pergunta que deve ser feita é o que a vida espera de mim e não o contrário”, destaca a antropóloga Mirian Godenberg, autora dos livros A Bela Velhice e Coroa, corpo, envelhecimento e felicidade, para quem o prazer de aprender deve reger toda a sinfonia a vida inteira. “A pandemia nos revelou um lado perverso da sociedade ao trazer à tona o estigma social da velhice e isso precisa ser combatido nas mais amplas frentes com educação”, completa.

Nesse caminho, a tecnologia desempenha um papel fundamental  ao ampliar o acesso a conhecimento e facilitar os relacionamentos corporativos quando se passa enxergar as redes sociais como ferramentas de trabalho. Uma mudança que pode ser mais difícil se for feita atropeladamente.

No ritmo de cada um

“É importante não se comparar ao outro e encontrar o próprio ritmo”, diz o epidemiologista Alexandre Kalache, uma referência internacional quando o assunto é envelhecimento e longevidade. “Movam-se mais devagar e parem de reclamar que o mundo está envelhecendo. Envelhecer é bom desde que o processo seja sustentado pelos quatro pilares do envelhecimento ativo: saúde, conhecimento, participação e segurança”, diz o especialista para quem a vida precisa deixar de ser uma prova de cem metros para se transformar numa maratona.

E como em toda prova de resistência, o planejamento faz a diferença. Mas se organizar para envelhecer ativamente requer coragem para seguir os sentimentos, como destaca o consultor Alexandre Pellaes, palestrante, pesquisador e mestre em Psicologia do Trabalho.

“Embora esteja na moda, nem tudo é só sobre a mente, por isso não gosto do termo mindset. Prefiro feelset”, afirma.  Nesse sentido, diz ele, mais vale um ano de terapia que um ano de MBA porque o autoconhecimento é extremamente importante na hora de ouvir o coração e decidir o caminho a seguir. E não se trata aqui do besteirol literário de autoajuda que pulula por aí.

Diversidade que se completa

A pandemia  reforçou a necessidade de reflexão sobre o idadismo e o preconceito. Mas quando se trata do futuro, outras doenças que não têm sido devidamente tratadas, caso dos vários tipos de demência e até da diabetes, entre outras, além da velhofobia arraigada na sociedade, devem ser levadas em conta, assim como a velocidade do envelhecimento da população e sua pluralidade.

Em um contexto em que  mais da metade das empresas brasileiras têm dificuldades para preencher vagas em áreas como tecnologia da informação, matemática e negócios, este é um grande momento para refletirmos sobre a responsabilidade social do futuro do trabalho.

Atualmente, o país conta com mais de 13 milhões de desempregados, conforme os últimos dados divulgados pelo IBGE. Desse total, quantos estão sem empregos e foram para informalidade por falta de oportunidades e desenvolvimento? Quantos possuem talento nas áreas que mais sofrem pela ausência de profissionais, porém não têm capacitação ou uma chance simplesmente por serem considerados “velhos” ?

A resposta não é simples, mas Kalache joga um facho de luz na escuridão ao apostar que a saída diante de um mundo fortemente conectado é a confiança e o apoio intergeracional.  “Dependemos dos mais velhos para nos guiar e dos mais jovens para nos fortalecer, embora exista o medo e a discriminação. Só podemos vencer essa crise e outras crises que virão, com decência e confiança uns nos outros, senão todos afundaremos”.

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Faltam campanhas que falem com essa parcela da população e ensinem, inclusive, ao profissional da saúde dialogar sobre temas como a disparada do HIV entre os 60+

Por aqui enfrentamos com todos os cuidados mais este “fim de mundo”. E espero sinceramente estar viva para acompanhar o próximo. Mas não é tão simples assim com a comunidade do entorno. Dentro da própria família, muitos insistem em zanzar por aí como se a Covid-19 não pudesse lhes atingir. Hoje cedo mesmo tive um entrevero com um tio 80+, que decidiu visitar os meus pais porque “isso daí é só coisa de outros países”, como ele esbraveja.  É o tipo de atitude que joga todo o esforço de prevenção por terra.

Tenho pai e mãe de 77 e 71 anos, respectivamente. Minha mãe, que serviu de inspiração para muitas pautas desse blog, tem exatamente tudo que esses serezinhos precisam para se proliferar: venceu o câncer, é cardiopata e enfrenta problemas dos sistemas respiratório e renal por conta do mau funcionamento do coração. Enfim, tem dores crônicas e incapacidades funcionais.

Custou um pouco, mas eles entenderam que um dos motivos das complicações serem mais comuns em pessoas acima dos 50 anos é a imunossenescência. Um processo natural do envelhecimento, que diminui a capacidade do sistema imunológico.

Assim, o risco de infecção e possíveis complicações serão sempre maiores, independentemente do novo coronavírus.  Nesse caso, porém, o problema é a velocidade da contaminação, que pode fazer todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, provocando uma sobrecarga no atendimento de emergência. 

Na contramão do projeto terapêutico

A mídia de massa, aquela mesma tão criticada, ajuda bastante nessa conscientização, pois é difícil fazê-los aderir a essa batalha global. E mais ainda afastá-los de sua rede de suporte social, sem desconstruir todo o projeto terapêutico desenvolvido justamente com base em atividades coletivas e contato com seus pares.

Circula na internet uma edição da coletiva do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, nos pedindo para cuidar nos nossos idosos e isso envolve fazer justamente o contrário do que vinha sendo feito para lhes proporcionar um pouco mais de autonomia e independência.  Não há que se questionar a medida, embora o próprio governo esteja fomentando a confusão. Mas não há nada de efetivo que fale diretamente com eles para nos apoiar nessa missão. E já faz tempo que observo esse quadro.

Cogitou-se investir R$ 4,8 milhões numa campanha contra medidas de isolamento, mas nem um centavo para criar um canal de diálogo com os quase 22 milhões de idosos, sendo 4 milhões deles vivendo sozinhos, segundo o IBGE.

Aliás, na sociedade que começa a perceber o tamanho do Brasil Sênior – e ainda vê apenas um problemão no envelhecimento da população – há muito marketing para os maduros descolados e quase nada para aqueles que enfrentam a senescência fora dos estereótipos.  

Mas em tempos de pandemia, quando especialistas de toda ordem se proliferam num ritmo quase tão contagioso como do novo coronavírus, é preciso lembrar que a velhice é heterogênea, o que a torna uma experiência muito peculiar.  

Então, como melhorar a comunicação com esse público tão diverso?

É evidente que se a tecnologia está a nosso favor, também impõe inúmeros desafios…

Em meio à infestação de lives nas redes sociais, identificar poucos e bons conteúdo, de credibilidade, e garantir o amplo acesso disseminando informações em pontos estratégicos como elevadores, transporte públicos, mercados, farmácias e nas próprias Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, poderia contribuir para criar um diálogo eficiente para além da pandemia.

Pois é pensando no que podemos aprender com ela, que me vem à mente outro vírus que tem acometido a mesma parcela da população. Dados do último boletim epidemiológico HIV / Aids divulgado pelo Ministério da Saúde mostram que no Brasil, nos últimos dez anos, o número de pessoas 60+ com HIV cresceu 103%.

Os fatores são diversos, mas estão relacionados ao comportamento, à vida sexual da população dessa faixa etária. E passam pelo aumento da maior expectativa de vida em geral até a proliferação, nos últimos anos, do uso de medicamentos para disfunção erétil.

Como se trata de uma geração que, muitas vezes, não aderiu à cultura do uso do preservativo, a incidência do HIV tem aumentado muito. E as doenças sexualmente transmissíveis também. Muitas inclusive, preveníveis com exames de rotina, caso do papanicolau. Mas os médicos simplesmente não pedem porque ainda é tabu falar sobre sexo com os mais velhos até para os profissionais da saúde.

“A formação de profissionais de saúde não contempla conteúdos informativos referentes à abordagem da sexualidade na velhice e, de modo geral, temos dificuldade de reconhecer a sexualidade como uma necessidade da vida humana. Daí a dificuldade também em reconhecer esse campo de atuação em nossa prática profissional”, escreve a doutora em Gerontologia Laís Lopes Delfino, em “Revolução da Longevidade e Pluralidade do Envelhecer” (Senac). 

O fato é que, com tanta informação disponível, será que seremos capazes de mudar nosso comportamento?  O que poderíamos aprender com o tsunami de dados que nos arrasta diuturnamente?

Yuval Noah Harari, no capítulo Paradoxo do Conhecimento, de “Homo Deus” (Companhia das Letras), coloca a seguinte questão: “De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar mudanças ?”

Espero que, ao colocar nosso frágil teto de vidro à prova, a pandemia sirva para abrir nossos olhos e mentes para a necessidade de profundas discussões que desenvolvam políticas públicas para enfrentar o envelhecimento com mais sabedoria em todas as frentes necessárias. Cuidem-se!

E fiquem em casa.

Crônica de uma resiliência anunciada

Por Adi Leite *

Estou me sentindo pressionada, me disse uma amiga.

Você não se sente?

Estamos envelhecendo.

Ninguém me trata mais de “você”.

É sempre “senhora”. 

Com licença senhora? 

Senhora, posso ajudar? 

Sem contar quando algum engraçadinho com aquela cara de, porra vou ter que dar o lugar prá essa velha, não ousa oferecer o lugar no metrô.

Hahahahahahaha.

Não é prá rir não. É triste.

O que mais me incomoda?

Hum, estar  envelhecendo incomoda mais.

Você já percebeu que até as palavras usadas estão mudando?

Inovação, disrupção, impacto e infinitas outras, parecem ter saído de uma caixa escondida embaixo da cama de um escritor de dicionários frustrado. De repente alguém descobriu e resolveu libertá-las e aí virou essa loucura, todo mundo fica repetindo. Parece coisa de criança, sabe?

Não.

Não? Sabe quando criança aprende uma palavra e fica repetindo o dia inteiro?

Meu filho ficava repentindo ombedi, ombedi, ombedi, ombedi, e ninguém sabia o que era, um dia andando na rua ele aponta para um ônibus e fala ombedi.

Agora parece a mesma coisa. Disrupção prá lá, impactar prá cá. 

E o saco é que temos que aprender isso para não parecermos ignorantes.

Aprendendo coisas novas?

Humpf! Prá que eu preciso aprender coisas novas se eu estou ficando velha?

Meu corpo mudou. Meu cabelo mudou. 

A maneira como meu corpo se relaciona com o mundo mudou. A maneira como o mundo se relaciona com o meu corpo também mudou.

Não, não estou triste com isso.

Estou com medo.

Vira e mexe algum amigo me diz que eu preciso me reinventar. 

Já fiz isso algumas vezes nos últimos cinco anos. 

Desisti da última reinvenção no meio do caminho.

Me disseram que eu tinha que ser mais resiliente.

RESILIENTE?

WHATAHELL????

O que eu ia fazer que desisti no meio?

Me disseram que eu deveria ser influencer digital.

E fazer um esforço desumano para ter um milhão de pessoas me seguindo.

Surtei. Prá que ter um milhão de pessoas me seguindo? 

Nunca gostei disso. Nunca gostei de dar satisfação da minha vida para ninguém. Já pensou que horror. Um milhão de pessoas te seguindo, sabendo tudo que você come, com quem você se encontra e além de tudo podendo opinar a respeito?

Credo, que horror!

Não quero ser influencer digital.

Será que não dá pra ser apenas eu?

Só quero escrever sobre o que penso e gosto, afinal, escrever foi a maneira com que eu construí a minha vida pessoal, financeira e profissional, pelo menos até agora.

Essa coisa de influencer me faz pensar que nunca mais poderei ser livre.

Não quero contar para meus seguidores o que eu estou comendo. Acho no mínimo deselegante.

Se eu estou em crise? 

Na verdade estou pensando sobre a passagem de tempo, só isso.

Quer dizer, não é só isso.

Esses dias em uma rede social vi um texto que oferecia uma forma de lidar com o envelhecimento em dez lições.

Desconfiei. Mesmo assim fui conferir. 

Minha desconfiança subiu cerca de mil por cento.

Como pode haver uma fórmula pré-determinada para lidar com a passagem do tempo?

Uma fórmula em dez lições?

Vivi até agora  cinquenta e cinco anos e não sei se dez lições fariam alguma diferença nesse momento da minha vida.

Não, não estou desacreditando o autor do texto. Sorry.

É que na verdade, o mundo e a vida ficaram tão complexos, mas tão complexos que não consigo acreditar que seguindo uma cartilha eu consiga lidar com essa pressão.

Que pressão? Você não percebe? 

Envelhecer sendo seguido por um milhão de influencers oferecendo  fórmulas mágicas de sucesso. 

Hummm, não dá.

Não, não sou contra. Mas, prá mim não dá.

O que você vai fazer então?

Prá ser sincera, comecei uma pesquisa sobre o significado da palavra RESILIÊNCIA.

O que eu achei?

Faz sentido.

Fiquei viajando que esta palavra poderia ter um formato.

Formato?

Sim, eu poderia ficar repentindo como meu filho fazia: Ombedi, ombedi, ombedi.

No meu caso, resiliência, resiliência, resiliência e que poderia fazer isso imaginando uma porta aberta para apontar meu dedo.

*ADI LEITE é um amigo querido, jornalista, repórter fotográfico, autor da foto que ilustra essa crônica, e diretor da Reativação Insights e Desenvolvimento Humano.

Consequências da adoção de idosos: um debate necessário

Quem não se lembra do velho comercial de margarina, muito popular nos anos 90, que originou o termo “Família Doriana”, que ostentava uma família tradicional e feliz? Como se vê, não é de hoje que o mito de que toda a família é maravilhosa precisa ser desconstruído. Porque não é. Agora, um projeto de lei propõe adoção de idosos por famílias substitutas e abre também a oportunidade de dialogar sobre o planejamento de moradia para idosos.

É algo que precisa ser repensado diante da estrutura familiar contemporânea e das diversas necessidades da população envelhecida.

O projeto 5532, de autoria do deputado Ossésio Silva (Republicanos-PE), estabelece modelos de acolhimento, curatela ou adoção em famílias substitutas. A proposta determina que se peça ao idoso lúcido o consentimento dele antes de encaminhá-lo à nova família. Obriga ainda que haja o acompanhamento posterior por uma equipe multiprofissional.

A ideia foi abraçada pela ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. E, à primeira vista, pode até parecer algo benevolente.

Mas marcos legais, como o Estatuto do Idoso e a Política Nacional dos Idosos, já existem e abarcam uma infinidade de questões mais urgentes que sequer são cumpridas. E para que uma nova legislação, quando não se dá conta das já existentes, é a primeira pergunta que deve ser feita.

Responsabilidade compartilhada

De toda forma, está previsto que a responsabilidade de cuidar deve ser compartilhada entre Estado, sociedade e família. O que a adoção faria não seria, mais uma vez, jogar todo o ônus nas famílias, que hoje não têm mais condições de manter alguém em casa como cuidador? As mulheres que antigamente faziam esse papel trabalham e o orçamento familiar depende cada vez mais dessa mão de obra.

Outra questão importante é como conceituar o termo “adoção”. Envolveria levar para casa? Tão somente apadrinhar? Como se daria esse processo? O que significa adotar uma pessoa madura, com experiência de vida, sem correr o risco de infantilizá-la?

Ponto não esclarecido ainda é quem poderá escolher ser adotado: idosos interditados pelos filhos, abandonados pelas famílias, somente em situações de vulnerabilidade?  E, em casos nos quais o idoso começa a demenciar depois de adotado, como se dará os cuidados? Será mantido na família adotante? Será devolvido? Mas para quem?

Carga emocional é alta

Mesmo em condições saudáveis, quais serão as consequências de se levar um idoso para casa? É notório que o trabalho de cuidador não é fácil. Envolve custos financeiros e emocionais altíssimos. 

E não está claro no projeto de lei, como destaca a advogada Nátalia Verdi, mestre em Gerontologia e especialista em Direito Médico e Hospitalar, questões como as patrimoniais. Em caso de morte, quem serão os herdeiros?  “É um projeto que tende a ampliar a judicialização.” 

Concorda com ela a advogada Karime Costalunga, membro da Comissão de Direito de Família e Sucessões do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp). “O papel do cuidador extrapola alguns limites e há uma linha tênue nessa relação. Já tive inúmeros casos em que após a morte do idoso, houve requisição do contratado pela aposentadoria do mesmo por união estável”, conta.

Questão financeira estimula violência

Especialistas como Karime e Natalia são unânimes: questões financeiras podem estimular ainda mais a violência. E fazem ainda um alerta. A adoção não pode ser vista como contraponto à Instituição de Longa Permanência para Idoso (ILPI).

Esses locais precisam parar de ser vistos como depósitos de velhos e ambientes de mendicância. Precisam começar a serem tratados como moradias com condições de dar suporte aos idosos diante de todas as suas necessidades.  

“Os esforços do governo deveriam ser concentrados nessas casas de acolhimento, que recebem idosos em situação de abandono”, observa o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil.

A demanda que existe é por cuidados. E é uma demanda grande. Pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que apenas 6,6% das instituições de acolhimento do País são públicas.

A maioria delas é mantida pelos municípios e apenas duas são administradas pelo governo federal. Ao todo, 62.980 idosos vivem em abrigos públicos e particulares, segundo o Ministério da Cidadania.

Passou da hora de olhar melhor para as ILPIs e de investir em moradias alternativas.

Leia também: Compartilhar moradia melhora qualidade de vida

Agenda 2030: um instrumento para provocar o senso de coletividade

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável podem ajudar a alinhar as causas do envelhecimento numa única direção e dar força aos movimentos para inclusão nos programas dos próximos prefeitos

Quando se vive numa cidade grande como São Paulo, que esfrega na cara da gente a todo o momento, que você compartilha o mesmo espaço com outras pessoas, a civilidade tende a crescer se não por educação ou pela vergonha, pelo peso no bolso.

Um exemplo recente é o caso da proibição de plásticos no comércio da cidade, com multa de até R$ 8 mil. Bem ou mal, o método conscientiza ao abrir o debate. Mas fora dos grandes centros há muito contraste.  É a mesma coisa com o envelhecimento populacional.

O tema – e os desafios para a saúde pública derivados dele – ganharam força na agenda nacional nos últimos anos. E não é porque virou moda ser um digital influencer maduro e o mercado finalmente despertou para o potencial dessa turma. É de fato um assunto relevante, porque o processo de transição demográfica, somado ao aumento da expectativa de vida e da queda na taxa de natalidade, já provoca mudanças que afetam todo mundo: quem envelhece, a família de quem envelhece, a sociedade, os setores público e privado.

Mais avós do que netos

Já há no mundo mais idosos que crianças, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).  São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. As estimativas apontam para um crescente desequilíbrio entre os mais velhos e os mais jovens até 2050 – haverá duas pessoas com mais de 65 anos para cada uma entre zero e quatro anos.

Esta mudança na relação intergeracional é inédita, pois o mundo sempre teve uma estrutura etária rejuvenescida, mas está em processo acelerado de envelhecimento populacional e terá uma estrutura, inquestionavelmente, envelhecida antes do fim deste século. No caso brasileiro, o processo é ainda mais precoce e acelerado.

No Brasil, o número de idosos de 65 anos e mais de idade ultrapassou o número de crianças pequenas de 0 a 4 anos no ano de 2013 e vai superar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos em 2037. Portanto, o Brasil está mais adiantado no processo de envelhecimento do que a média mundial e será um País, efetivamente, idoso a partir de 2037.

Menos eu, mais nós

Não podemos demorar em aprender a lidar com isso o tanto quanto demoramos sobre a importância de se preservar o meio ambiente – que deveria ser a causa primária de tudo já que sem recursos não existe vida.  Há muito pouco senso coletivo fora dos grandes centros. É preciso provocá-lo.

Fazer entender que a demografia afeta todos os aspectos de nossas vidas. Basta olhar para as pessoas nas ruas, para as casas, para o trânsito, para o consumo.  E que as políticas públicas para promoção da saúde dos idosos desempenham papel crucial na mitigação dos efeitos do envelhecimento da população.

Simplesmente porque indivíduos mais saudáveis são mais capazes de continuar trabalhando por mais tempo e com mais energia, o que poderia resultar em menores custos para sistemas de saúde e previdenciário, por exemplo.

Por isso, é importante encontrar alternativas pautadas pelos interesses coletivos e, sobretudo, assegurar direitos já conquistados, como a gratuidade universal do Sistema Único de Saúde (SUS), que corre riscos de um desmonte neste governo. Para citar um exemplo apenas.

Uma única direção

Isso vale para qualquer causa que se abrace. Está ai o mérito da Agenda 2030 ao reunir os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ela ajuda ao reconhecer que o desenvolvimento só será possível se incluir pessoas de todas as idades e de todos os lugares, numa enorme parceria da sociedade civil organizada.

Também nos guia na hora de consultar os programas de governo dos candidatos que concorrem às próximas eleições municipais. Até que ponto eles estarão coordenados com essa agenda global?

Os ODS servem justamente para alinhar nossas causas e lutas numa única direção. Além disso, dão força aos movimentos que, no fim das contas, deveriam ter o mesmo propósito de não deixar ninguém para trás.

O perigo mora dentro de casa

Mortes por queda quadruplicaram em São Paulo na última década, se aproximando do número de homicídios. Os dados, do Boletim Epidemiológico Paulista, divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde, não são novos, mas juntamente com a comoção causada pela morte do apresentador Gugu Liberato, aos 60 anos, abrem oportunidades para o debate sobre um grave problema de Saúde Pública.

É que a queda está entre as principais responsáveis pela morte da população idosa e também pode ser causada por sintomas de DCNTs (Doenças Crônicas Não Transmissíveis), caso das cardiorrespiratórias, do câncer e da depressão. Aparentemente não foi esse o caso de Gugu. O apresentador teria apenas tomado uma decisão errada ao subir em um local perigoso.

Mas mesmo que estivesse em perfeita condições físicas e cognitivas, por que negligenciar os riscos? Gugu era celebridade, mas quantos anônimos não seguem os mesmos passos? E, assim como ocorreu com ele, a própria casa quase sempre é a principal armadilha. 

Nem precisa se aventurar muito. A simples passagem de um cômodo a outro pode se tornar um problema, provocando tombos que causam óbito ou danos irreversíveis. Por isso, identificar previamente os fatores de risco pode contribuir muito para a prevenção. São duas as causas que costumam provocar acidentes:

#Intrínsecas

Quando se relacionam com as transformações fisiológicas do envelhecimento, patologias específicas ou mesmo uso de medicamentos. Exemplos: postura inadequada, doença de Parkinson, osteoporose e depressão.

#Extrínsecas

Quando correspondem ao ambiente de interação do idoso. Exemplos: superfícies escorregadias; calçados não adaptados; iluminação inadequada; escadas sem corrimões; banheiros não adaptados.

Casa segura

Em decorrência das causas extrínsecas, surge por volta dos anos 2000 a arquitetura para a maturidade. E profissionais como Cybele Barros, autora do projeto arquitetônico Casa Segura, são cada vez mais requisitados para desenvolver políticas públicas. O trabalho dela foi aprovado pelo Ministério da Saúde e passou a fazer parte do Programa de Atenção Integral à Saúde do Idoso.

História parecida tem a arquiteta Flávia Raniere. Após adaptar diversos projetos, ela se especializou no envelhecimento da população.  “Os avanços tecnológicos e arquitetônicos vêm se tornando grandes aliados na rotina desse público”, acredita.

Para ajudar a entender a importância de uma casa segura, Flávia mapeou alguns fatores que parecem bobos ou irrelevantes, mas trazem chances de machucados ou tombos. Veja quais são:

#Falta de luz adequada

Conforme a idade avança, a visão também envelhece e sofre degeneração. Usar óculos é bastante comum, mas mesmo assim, não impossibilita a limitação visual. Sem enxergar clara e nitidamente, há mais chances de tropeçar, escorregar e bater em móveis.

A solução

Exagere no número de pontos de luzes. Quanto mais, melhor. Abuse de pendentes, arandelas, abajures, luminárias de mesa e spot de piso, que aumentam a iluminação de paredes, escadas e corredores. Para esses pontos de apoios, prefira opções com dimer, que permite o ajuste gradual da intensidade da luz. Para quem puder investir, um sistema de automação pode ser instalado para quando a pessoa se levantar do sofá ou da cama no escuro, uma luz de vigília no piso é acionada, ajudando a se localizar e se deslocar, por exemplo, até o banheiro.

#Quinas

Com o tempo, a derme, camada intermediária da pele, perde elasticidade, hidratação e oleosidade. Isso resulta em uma pele mais fina, frágil e mais vulnerável a machucados, infecções e doenças em geral. Uma simples esbarrada nas quinas dos móveis pode machucar a pele mais delicada. E um simples machucadinho pode se tornar um grande problema.

A solução

Aposte nas quinas arredondadas. Por não terem as temíveis pontas, não ocasionam lesões mais graves. Se não puder trocar o móvel, em lojas de produtos para casa é possível encontrar adaptadores de silicone, que são facilmente acoplados nas quinas tradicionais e fazem o serviço.

# Pisos e tapetes

Escorregar no chão liso e tropeçar em tapetes são acidentes comuns em qualquer casa. Onde moram pessoas mais velhas, com a mobilidade já comprometida, esses acontecimentos são mais recorrentes. Um piso escorregadio e tapetes mal posicionados podem causar mais do que uma simples queda.

A solução

Pisos emborrachados e vinílicos antiderrapantes, por exemplo, dificultam as quedas. Eles são encontrados em várias padronagens e cores. Os tapetes têm uma função importante de acústica e limitação de espaço e não precisam ser eliminados, apenas usados de maneira estratégica. Alinhe-os com o piso, sem desnível, e só os posicione em lugares que garantam a segurança, por exemplo, cobrindo todo o piso da sala.

#Móveis não adaptados

Camas altas demais ou baixas demais exigem um esforço que nem todo mundo tem quando atinge certa idade. Cadeiras com rodinhas podem virar e derrubar quem estiver sentado. Bancadas baixas impedem o encaixe de uma cadeira de rodas. Quando os móveis de uma casa não são adaptados para quem mora nela, viver ali vira um tormento. Além de riscos à saúde, compromete a mobilidade do morador.

A solução

Opte por elementos com contraste, cores vibrantes e formas diferentes. Assim, os objetos da casa ficam mais visíveis e fáceis de serem desviados.

E então? Com toda essa informação disponível já dá para tomar alguma precaução, não é?

Saiba mais:

Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa

Manual de prevenção de quedas da pessoa idosa

Saúde da pessoa idosa: prevenção e promoção à saúde integral

Ouvir sem julgar é uma das práticas mais difíceis da gerontologia

Já tinha um tema pronto na cabeça quando abri o laptop para escrever. Eis que mal havia me sentado e recebo no WhatsApp uma frase de uma amiga querida, que além de ser minha segunda mãe, é um ser humano exemplar à beira dos seus 70 anos: “Quando ficar velha não quero parecer mais jovem. Quero parecer mais feliz.” O Google credita a colocação à Anna Magnani, atriz italiana de grande sucesso, que morreu em 1973, aos 65 anos.

Foi assim, inspirada por elas, que decidi deixar de lado teorias e estatísticas para contar um pouco mais da minha própria experiência ao estudar a ciência do envelhecimento. Até porque a proposta desta Casa é buscar soluções para o Brasil Sênior a partir de vivências reais. Não que os estudos teóricos não sejam importantes. Não é isso.

Tanto que atualmente estou matriculada em dois cursos: Direito da Pessoa Idosa, pelo IBAM; e Gerontologia, pelo SENAC. Já fiz também Envelhecimento da População, pela Fiocruz. Posso dizer, contudo, que nunca aprendi tanto quanto na minha primeira hora num lar de idosos. É mesmo na prática que se testa o conhecimento, independentemente da área de atuação.

E, para quem já foi repórter como eu, ficou muito claro que se lugar de jornalista é na rua, o de gerontóloga também é. As ruas me contaram detalhes que não constam nos livros. Por isso, gostaria de compartilhar atitudes inspiradoras não só aos que se encontram na velhice como a quem caminha para ela.

Minha proposta é começar pelas histórias que espero ouvir durante meu trabalho na ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), o nome politicamente correto que deram para os asilos. Semanalmente me encontrarei com os 19 assistidos por lá. Não será tarefa fácil. Eu bem sei.  

Heterogeneidade respeitada

É um trabalho que envolve compreender essas pessoas para planejar algum tipo de intervenção que leve um pouco mais de bem-estar, alegria e, porque não, felicidade a cada uma delas. Sem, contudo, deixar de lado seu passado, respeitando a heterogeneidade. Confesso que esse desafio estava me afligindo, já que para muitos ali é o ponto final.

Mas como a vida não vem como idealizamos, um produto com itens de fábrica, só nos resta agradecer o que nos foi entregue. E essa aflição não demorou a passar. 

Era por volta de 16h no feriado de 15 de novembro quando recebi a ligação de uma colega de turma do IBAM. Era Marilza, pedagoga, do Rio, 65 anos, diversos cursos na área do Envelhecimento e muita disposição em ajudar voluntariamente idosos que não tiveram as mesmas oportunidades que ela.

Escuta compassiva

O quê aprendi nessa hora de papo, ouvindo a Marilza? Que nem sempre é preciso tanto estudo quando existe disposição para se envolver. Às vezes, um ouvido compassivo basta.

Ouvir sem julgar pode ser a melhor intervenção quando não há mais muito a se fazer. Às vezes, surte muito mais resultado do que esse monte de regras prontas que infligimos principalmente aos nossos familiares que enfrentam essa fase da vida.

Assim, a minha teoria inicial, que seria comprovar o benefício da implantação de uma ação imposta qualquer, caiu por terra. Creio que nada será mais válido do que eles me contarem suas histórias e me mostrarem, por meio delas, o que desejam para si. A mim, cabe simplesmente emprestar meu ouvido.

Aprender na velhice é bom antídoto para doenças mentais

Sabemos que chegar bem à velhice implica em perdas e ganhos. Mas quem aprende a aceitar e a valorizar mais a maturidade tende a enfrentar a senescência com melhor qualidade de vida. Assim, educar as diversas gerações para a compreensão do processo de envelhecimento, marcado por transformações biopsicossociais, é importante instrumento de promoção da longevidade ativa com tudo que a compõe, inclusive saúde mental.

Já é sabido que fatores como o acesso à educação, condição socioeconômica e gênero influenciam a velhice. Por isso, estimular o desenvolvimento de competências e recursos para o enfrentamento das vulnerabilidades individuais e ambientais dessa fase da vida é importante para preservação cognitiva, sem a qual não existe autonomia e independência.

É uma questão urgente diante do avanço de diagnósticos de quadros demenciais. A demência já afeta quase 50 milhões de indivíduos de baixa e média renda, segundo Organização Mundial da Saúde. Estima-se que em 2030 esse número ultrapasse 75 milhões, com custo global dos cuidados em demência estimado em mais de US$ 1 trilhão. Os dados são do relatório do Plano Global de Ações em Demências, que destaca ainda ser o Alzheimer o tipo de demência de maior incidência. 

Está comprovado que a idade é um fator de risco não genético de grande potencial. E embora as pesquisas ainda sejam limitadas, há evidências suficientes para intervir com propostas para um envelhecimento digno e significativo para a população, sendo algo que todos os países podem fazer, independentemente de situação atual ou do grau de desenvolvimento econômico.

Estudo apresentado no Congresso de Geriatria e Gerontologia, da pesquisadora Locimara Ramos Kroef, psicóloga da Universidade para a Terceira Idade da UFRGS, destaca que o saber adquirido pode realizar uma reformulação no contexto social e pessoal da velhice, trazendo uma prevenção mais eficiente para evitar o agravamento dos problemas próprios do envelhecimento, caso da demência.

Então porque não englobar também as fases que antecedem o envelhecimento na construção da cultura de aceitação da velhice?  Aprender a envelhecer pode ser tão importante quanto compreender as particularidades dos idosos, que envolvem transtornos frequentes de depressão, ansiedade e suicídio.

Vale destacar novamente que as oportunidades educacionais são importantes antecedentes de ganhos evolutivos na velhice porque intensificam trocas de contatos e promovem aperfeiçoamento pessoal. Desenvolver sentimentos como autoconfiança e amor próprio são tão essenciais quanto recursos para novas pesquisas na luta contra os transtornos mentais.

Entre as iniciativas que favorecem a prevenção destacam-se a garantia de acesso do idoso a políticas públicas já implementadas, como as Universidades para a Terceira Idade (UniAtis). Trata-se de uma ação que favorece a intergeracionalidade, ferramenta eficiente para a promoção da saúde integral.

Promover o engajamento em grupos de atividades físicas também melhora a capacidade cognitiva. Aliás, qualquer tipo de lazer promove envolvimento social e não demanda grandes investimentos. Um caso bacana é o sarau literário para incentivar a escrita e a leitura de textos próprios ou de autores diversos. Algo que o grupo Estação LongevIDADE Ativa tem feito por meio do Facebook.

Nesse caminho, a tecnologia ajuda muito. Aprender a jogar, bem como aprender a programar os próprios jogos online têm dado bons resultados. Isso porque a estimulação mental faz nascer novos neurônios.

Disseminar eventos como a Virada da Maturidade, que acontece anualmente em grandes centros como a cidade de São Paulo, é outra ótima ferramenta intergeracional para educar e conscientizar toda a população da importância de aceitar bem o envelhecer. Algo inerente à natureza humana.

Prontos para encarar a longevidade com independência financeira?

Rebecca Bloom é uma londrina com um péssimo hábito. É uma consumidora compulsiva. Apesar de ser jornalista especializada em mercado financeiro, não consegue controlar as próprias finanças. Qualquer coincidência é mera semelhança! Endividada até a alma, ela vive fugindo dos credores e criando fórmulas mirabolantes para pagar as contas. Esse é o enredo do livro  “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, de Sophie Kinsell (Record, 2018), que também inspirou um filme.

E se as (os) Beckys da vida chegassem aos 50 com o mesmo comportamento?

É algo a se pensar já que o custo de vida, a partir de certa idade, tende a aumentar. E o que fazer para recuperar o tempo perdido e manter certa qualidade de vida após os 65, quando a baixa capacidade de gerar renda via trabalho declina? É do desejo de encontrar respostas para essa equação que nasceu a Bolso50+, startup ainda em fase de validação, mas que deve compilar dados interessantes sobre o comportamento financeiro dos maduros.

Para isso, seu fundador, Uri Levin, egresso da área de Investiment Bank, está à frente do projeto que especializa a gestão financeira para os maduros.  Assim, ele oferta uma primeira análise gratuitamente para quem deseja se organizar. “A ideia é criar uma base de dados para um aplicativo que ajude essa parcela da população a planejar um futuro mais tranquilidade”, conta.

É, de fato, algo que requer atenção.  Como já tratado aqui no artigo Longevidade do brasileiro implica num desafio econômico maior, é um planejamento essencial para não ficar dependente da ajuda de familiares, de amigos e até do próprio Estado. Assim, quanto antes se começar um programa de poupança, melhor.

Sabemos que é complicado guardar dinheiro com uma renda que, às vezes, mal cobre os custos mensais. E há de se levar em conta ainda que não são poucos os casos em que os papéis se inverteram e colocaram o aposentado como o único arrimo da família, diante do atual mercado de trabalho. Por isso, a ideia de Uri traz certa luz ao fim do túnel, ao encontrar brechas no orçamento, mesmo enxuto, para reduzir despesas fixas, além da educação para mudar os hábitos.

De grão em grão

Um exemplo clássico que ele cita, e que eu testei na prática, é a revisão do plano de celular. Ligar para as operadoras de telecomunicações, sempre exigiu muita paciência e certo jogo de cintura. Imagina, então, para quem desconhece o atendimento feito via Inteligência Artificial, que, na prática, ainda deixa muito a desejar diante das benesses todas prometidas pela tecnologia. Na minha experiência, a negociação com a operadora, resultou em maior velocidade de internet e redução de 50 reais na mensalidade. Ou seja, em 12 meses terei poupado 600 reais.

Mas para cortar gastos desnecessários é preciso, antes de tudo, detectá-los. É assim também com a nossa saúde financeira. Ao realizar essa avaliação, a gente se surpreende com o impacto que certos gastos desnecessários causam no orçamento.  

E tem muita coisa que dá para se abrir mão ou apenas deixar para depois.  Um jeito de, aos poucos, mudar aquele comportamento que ainda guarda resquícios de uma cultura de hiperinflação. Além disso, faz muito pouco tempo que as pessoas começaram a conscientizar sobre a velocidade da transição demográfica e se questionar sobre o que fazer com as dezenas de anos a mais de vida.

Acredito que pensar a respeito da longevidade envolve também uma maior consciência dos impactos e dos custos sociais e ambientais de tudo que consumimos no nosso dia a dia. Pode parecer pouco se analisado isoladamente, mas quando computado ao longo de uma vida é muito significativo.

O consumo consciente é um instrumento de bem-estar e não um fim em si mesmo. Parte da premissa de que devemos consumir para viver mais e não viver mais para consumir. É importante que os idosos, como consumidores, tenham claro o poder que tem ao fazer suas escolhas.