Pequenos hábitos, grandes mudanças

Criar rituais aparentemente simples ajuda a educar para promoção da saúde, transformando comportamentos e engajando o paciente na prevenção e no tratamento de doenças 

Arrumar uma mesa linda mesmo quando estou sozinha e tornar a minha refeição um momento de autocuidado é um dos meus rituais prediletos. Também não abro mão de ouvir uma boa música, enquanto tomo uma tacinha de vinho à noite e me besunto de aromas relaxantes de óleos e cremes… Um exagero? Pode até ser. Mas,  para além da estética estão pequenos hábitos agregados que ajudam na promoção da saúde e na prevenção de doenças. 

 

É claro que as pessoas são livres para escolher o que as tornam felizes e saudáveis! Mas acredito que é preciso educar e informar contra escolhas impensadas e prejudiciais. Sem obrigá-las a nada.

 

Isso é promover envelhecimento ativo

 

A teoria já admite que as estratégias de saúde pública não se resumem apenas à ausência de doenças. Então, passa a ser obrigatória uma comunicação para a construção de uma sociedade mais saudável. E diante da atual pandemia da Covid 19, é preciso alertar para outra, ainda mais antiga, que poderá ganhar proporções avassaladoras: a obesidade. 

 

Estudos mostram que o sedentarismo provocado pelo isolamento e a redução de atividade física podem deixar um ônus bem maior do que a gente imagina. Já tratei aqui dos transtornos psicológicos em Sem vacina, é preciso seguir com pequenas doses de liberdade. Há ainda o temor de que um surto de obesidade e doenças cardiovasculares agrave esse cenário. 

 

Isso porque uma queda brusca no nível de condicionamento físico pode ser seguida por um aumento das doenças crônicas. E algumas dessas condições também tornam as pessoas mais propensas a sofrer os efeitos graves da Covid-19, em meio a relatos de segundas ondas de contágio em várias partes do mundo.

 

Do verbo à prática: o desafio de comunicar

 

Eu tenho mantido meus pequenos rituais de autocuidado, mesmo que mais moderados, porque criei o hábito há muitos anos. Faz parte da minha rotina e mesmo quando fica muito difícil é meio automático eu encontrar uma alternativa. Na prática, tenho tido bons resultados não só para mim, mas também para aqueles que vivem ao meu redor.

 

Devagar, o exemplo faz a diferença na vida dos que estão próximos. As mudanças são positivas em todos os aspectos e isso me animou a escrever sobre essa experiência da educação. 

 

Não é algo simples. Nem quando se tem consciência do problema todo é fácil mudar. Mais difícil ainda é encontrar uma forma de se comunicar adequadamente nos diferentes meios e comunidades em que a mensagem precisa chegar. E temos aqui um problemão. 

 

Se as escolhas da maioria são irracionais, há também aquele empurrão da grande indústria que nos leva a consumir grandes quantidades de tudo que não presta. E já é sabido que comer bem não é comer muito, mas com equilíbrio.  

Você tem fome de quê?

 

É claro que sair pra comer fora é bacana, mas por que abandonar os velhos hábitos do feijão com arroz e ovo? Tudo bem que agora temos a polêmica do preço, mas há substitutos como a mandioca e a batata, por exemplo. O que quero dizer é que há certo preconceito cultural ou pelos status que o industrializado traz.  

 

Outro desastre é o que vem escondidinho nas letras miúdas dos rótulos. Sem contar que de uns tempos pra cá as embalagens trazem ali bem disfarçada uma mudança da composição dos produtos. Vide o Leite Ninho que deixou de ser leite para se tornar “composto lácteo” tão discretamente que passou despercebido pela maioria dos mortais. E nem vamos entrar no mérito ou demérito da redução de peso e do aumento de preço, praxe ultimamente. 

 

São vários os absurdos, mas o caso do leite que virou composto lácteo acendeu uma luz vermelha na minha memória. Em 2016 escrevi sobre obesidade infantil para a Revista Problemas Brasileiros e, embora o Casa de Mãe trate sobre longevidade, está tudo entrelaçado. 

Naquela época o cenário já não era bom e nada mudou de lá para cá: uma em cada três crianças brasileiras apresentava excesso de peso e pode carregar esse ônus para a vida adulta, formando uma geração sedentária e doente.  

O Brasil será o país mais obeso do mundo em 2030, segundo a World Obesity Federation, que reúne profissionais e organizações de mais de 50 países. Está claro que a transformação envolve bem mais do que o controle da ingestão de calorias. E depende de todos nós. 

 

Programação metabólica

 

Desde a vida intrauterina até os 2 anos de idade, a história física e mental da criança é programada. Assim, a alimentação da gestante também é decisiva nessa questão.  E já se sabe que quando se fala nos fatores de risco para obesidade, a programação hoje é mais importante do que os genéticos e os ambientais. 

 

Isso porque o quadro pode se perpetuar pela vida adulta. Hoje, mais da metade dos brasileiros está com excesso de peso e nem 10% disso é causado pela genética. É um cenário que contribuiu para alastrar doenças cardiovasculares e diabetes, além de danos psicológicos que podem evoluir para transtornos alimentares, como compulsão e anorexia. 

 

“O problema cresce na medida em que a população reduz o consumo de alimentos básicos e aumenta o consumo de processados”, diz o nutrólogo Hélio Rocha, consultor do movimento Obesidade Infantil NÃO, criado pela Amil em 2014.

 

De acordo com ele, o excesso de peso que se instala na infância torna-se mais difícil de tratar na idade adulta, daí a importância da prevenção.  “Existe de fato um risco de epidemia de obesidade no Brasil. A questão é grave e requer atenção da sociedade, pois 30% das crianças obesas desenvolvem diabetes e outras 30%, doenças cardiocirculatórias”. 

 

Toda cura para quase todo mal

 

Está na atividade física o caminho para quase todos os males. É o que revela estudo da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins.  

Pulicada pelo periódico científico Health Affairs, a pesquisa revela que um aumento de 32% para 50% no número de crianças do ensino fundamental que fazem 25 minutos de atividade física três vezes por semana evitaria o equivalente a R$ 70 bilhões em custos médicos e salários perdidos ao longo de suas vidas por perda de produtividade. 

 “A atividade física não só faz com que as crianças se sintam melhor e as ajuda a desenvolver hábitos saudáveis, mas também é boa para a economia do país”, escreve o líder do estudo, Bruce Y. Lee, diretor executivo do Centro Global de Prevenção à Obesidade da Escola Bloomberg de Saúde Pública. “Nossas descobertas mostram que investir em atividades físicas e ligas esportivas paga grandes dividendos à medida que esses jovens crescem”.

É claro que se trata de um problema real que vai muito além do descascar mais e embalar menos aqui exposto.  Exige abordagem coletiva e estrutural, como ressignificar as práticas alimentares e a alimentação como um fenômeno social, estimulando que a preparação e o compartilhamento de refeições sejam reincorporados ao cotidiano das pessoas. 

 

Ao se estimular novos hábitos também é preciso fazer entender que é melhor investir um pouco mais nos cuidados consigo – com a alimentação – do que com medicamento e reabilitação mais tarde. São pequenas práticas que podem ser assumidas pelo indivíduo e que podem fazer grandes diferenças. 

 

De outro lado, há processos que cabem fundamentalmente ao governo, que é responsável por implementar ações que fogem ao escopo de atuação da população, especialmente aquelas que visam regular as práticas do setor privado comercial que são contrárias à nossa saúde.

Como habitarei quando envelhecer?

Diante do isolamento imposto pela pandemia e da releitura comentada entre amigas da saga solitária da estirpe dos Buendía, em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, me volta à mente como nosso jeito de levar a vida e nossa rede de relações são vitais para envelhecer bem. É pelo lado financeiro, mas é também pelo suporte do convívio social que o envelhecimento nos leva a procurar por novas formas de viver.

Já tratei desta tendência em “Moradia compartilhada melhora qualidade de vida”, mas volto ao tema porque o déficit habitacional é assunto recorrente e ao optar por estudar a ciência do envelhecimento tenho notado grande desconhecimento e até preconceito sobre as opções habitacionais, principalmente quando cabe à família dar o voto de minerva. Ou até decidir sobre as práticas paliativistas, quando há necessidade de cuidados a um paciente incurável.

Há certo mal estar porque é difícil entender que é, de fato, melhor para todo mundo estar no lugar adequado.  Então é preciso destacar, reforçar, divulgar e até nos educar para a pluralidade do envelhecimento.

Não é porque o sujeito faz 60 anos – quando se convencionou estabelecer “idosa” a população – que vai começar a se identificar com as mesmas coisas. E, por isso, nem todo mundo vai querer morar do mesmo jeito.  E isso não depende de ter ou não filhos.

Já pensou quem vai cuidar de você se for necessário?

Essa mudança de costumes avança muito no discurso e até na construção das leis, mas demora à beça pra se incorporar na nossa vida. Ainda hoje falar em cuidados paliativos ou em asilo soa como algo cruel, como despejar a pessoa num depósito de velho.

A própria palavra asilo – inicialmente dirigidos à população carente que necessitava de abrigo, frutos da caridade cristã diante da ausência de políticas públicas – traz em sua gênese a ideia de isolamento e solidão e, por esse e outros motivos, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia indicou a substituição para ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos.

Apenas 6,6% das ILPIs são públicas

Hoje, o País já conta com 3.500 ILPIs, sendo a maioria privada. Apenas 6,6% são públicas, com predominância das municipais, o que corresponde a 218 instituições, número bem menor do que o de instituições religiosas vicentinas, aproximadamente 700. Os números são de artigo publicado na Revista de Estudos Populacionais.

A institucionalização do idoso é uma opção de moradia já bem conhecida por todos. E claro que há casos e casos.  “Tudo está relacionado ao grau de dependência do idoso. Seja física, cognitiva ou financeira”, diz Luisa Regina Pessôa, arquiteta aposentada da Fiocruz e à frente de um projeto num condomínio para sêniores em Búzios, no Rio de Janeiro.

Lá, oito amigos estão reunidos pela proximidade das casas e pela segurança de poderem contar um com o outro, mesmo antes do isolamento imposto pela pandemia. “Acho que essa modalidade pode ir se ajustando ao nosso envelhecimento e a cada grau de necessidade e independência”, avalia Luisa.

Um lar monitorado

Foi justamente pensando nas diferentes necessidades desse público que o empresário Leonardo Pisani idealizou ACASA, um serviço de hospedagem assistida que se propõe a melhorar a qualidade de vida dos idosos. Trata-se de um formato aos moldes de negócio do “assisted living”, adotada pelas grandes redes de lares de idosos dos Estados Unidos.

“Buscamos trazer para o Brasil o modelo de vida em uma comunidade de idosos, onde o hóspede pode trocar experiências, praticar diversas atividades e ter todo o suporte de uma equipe multidisciplinar especializada”, conta. Tudo sem perder a liberdade de tornar aquele cantinho no seu lar.

Embora só agora esses conceitos ganhem destaque, nem são assim tão novos. Em 1975, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, nascia um projeto pioneiro de um grupo de amigos liderado por Antonio Correa Leite, que idealizou um local onde as pessoas pudessem envelhecer com dignidade, tranquilidade e saúde, além de ter todos os benefícios de um condomínio fechado.

Já naquela época previu a necessidade de profissionais para atuar na área da saúde para atendimento aos moradores. Com o passar dos anos, o que era algo entre amigos se transformou em negócio, com a adesão de novos investidores, originando a Associação Residencial – A Agerip.

E quem não tem acesso?

É importante abrir um debate para que essas novas formas de morar se multipliquem para além daqueles que podem pagar, já que alternativas para diferentes condições de saúde e de capacidade funcional não faltam, mas poucos têm ou terão acesso a elas pelos altos custos.

São mínimas as políticas públicas habitacionais que asseguram moradia digna. O déficit habitacional brasileiro é de mais de oito milhões de moradias, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). E a situação piora diante das necessidades dos idosos.

Por isso, é urgente entender a transição demográfica pela qual o País atravessa debater soluções e cobrar dos futuros candidatos propostas voltadas aos problemas deste Brasil Sênior.

O primeiro passo é conhecer um pouco mais do que já existe disponível, abrir a nossa mente e nos despir de preconceitos para as novidades que possam surgir.

Vamos juntos?

#ILPIs

Residências coletivas, que atendem idosos com necessidade de cuidados prolongados. Podem ser governamentais ou não, mas o tratamento médico não é o elemento central do atendimento.

#Asilos

Lar destinado acolher idosos sem recursos financeiros, essencialmente de responsabilidade pública.  Atendimento inclui alimentação, higiene e saúde.

#Casas de Repouso

Destinada à prestação de serviços médicos, de enfermagem e demais serviços de apoio terapêutico. Instituições governamentais ou não governamentais. Regime de internato. Só podem ter médico como responsável técnico.

#Moradia assistida

É uma residência inclusiva, mas não é uma clínica, nem um local de tratamento, mas uma variação da tradicional casa de repouso. No local, as pessoas têm liberdade para fazer dele um lar. São residências adaptadas às necessidades especiais, individuais e coletivas dos atendidos por elas.

#Centro-Dia

O Centro-dia é um serviço social previsto na Política Nacional do Idoso que atende pessoas com 60 anos que necessitam de cuidados durante o dia e que à noite voltam para suas casas, mantendo assim os vínculos sociais e familiares. Podem ser públicas ou privadas.

#Coliving

É um nome chique para a tradicional República. Quem lembra? Isso porque nesse modelo as pessoas têm o seu próprio quarto, mas compartilham os outros ambientes da casa, como cozinha, sala e varanda. E todo mundo colabora.

A vida em comunidade e o compartilhamento de espaços comuns que caracterizam o coliving atraem cada vez mais idosos, que querem viver sob o lema da partilha de experiências. Pensando nisso, foi lançado a Coliiv, startup que funciona como uma espécie de Tinder da moradia para os maduros.

#Cohousing

São casas particulares agrupadas em torno de espaço compartilhado. Cada casa anexa ou unifamiliar possui acomodações tradicionais. As famílias têm renda independente e vida privada, mas os vizinhos planejam e gerenciam colaborativamente as atividades da comunidade e os espaços compartilhados.

A estrutura legal é tipicamente uma associação de proprietários ou uma cooperativa habitacional.

#Hospice

O hospice é um lugar destinado a pessoas portadoras de doenças letais, sobretudo no período em que a terapia de cura torna-se ineficaz e a terapia paliativa torna-se imprescindível. Pacientes que possuem doenças avançadas e incuráveis, em fase terminal ou não, bem como pacientes que necessitam de cuidados especializados no controle de sintomas ou de pequenas intervenções clínicas.

Traz o conceito e a filosofia de cuidados paliativos e envolve atendimento, inclusive para a família no pós-luto.

E então? Já pensou que estilo combina mais com você? Nada impede a gente de seguir o seu Antonio, da Agerip, e criar algo, não é mesmo?!

Pandemia expõe ruído grave na comunicação com idosos

Faltam campanhas que falem com essa parcela da população e ensinem, inclusive, ao profissional da saúde dialogar sobre temas como a disparada do HIV entre os 60+

Por aqui enfrentamos com todos os cuidados mais este “fim de mundo”. E espero sinceramente estar viva para acompanhar o próximo. Mas não é tão simples assim com a comunidade do entorno. Dentro da própria família, muitos insistem em zanzar por aí como se a Covid-19 não pudesse lhes atingir. Hoje cedo mesmo tive um entrevero com um tio 80+, que decidiu visitar os meus pais porque “isso daí é só coisa de outros países”, como ele esbraveja.  É o tipo de atitude que joga todo o esforço de prevenção por terra.

Tenho pai e mãe de 77 e 71 anos, respectivamente. Minha mãe, que serviu de inspiração para muitas pautas desse blog, tem exatamente tudo que esses serezinhos precisam para se proliferar: venceu o câncer, é cardiopata e enfrenta problemas dos sistemas respiratório e renal por conta do mau funcionamento do coração. Enfim, tem dores crônicas e incapacidades funcionais.

Custou um pouco, mas eles entenderam que um dos motivos das complicações serem mais comuns em pessoas acima dos 50 anos é a imunossenescência. Um processo natural do envelhecimento, que diminui a capacidade do sistema imunológico.

Assim, o risco de infecção e possíveis complicações serão sempre maiores, independentemente do novo coronavírus.  Nesse caso, porém, o problema é a velocidade da contaminação, que pode fazer todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, provocando uma sobrecarga no atendimento de emergência. 

Na contramão do projeto terapêutico

A mídia de massa, aquela mesma tão criticada, ajuda bastante nessa conscientização, pois é difícil fazê-los aderir a essa batalha global. E mais ainda afastá-los de sua rede de suporte social, sem desconstruir todo o projeto terapêutico desenvolvido justamente com base em atividades coletivas e contato com seus pares.

Circula na internet uma edição da coletiva do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, nos pedindo para cuidar nos nossos idosos e isso envolve fazer justamente o contrário do que vinha sendo feito para lhes proporcionar um pouco mais de autonomia e independência.  Não há que se questionar a medida, embora o próprio governo esteja fomentando a confusão. Mas não há nada de efetivo que fale diretamente com eles para nos apoiar nessa missão. E já faz tempo que observo esse quadro.

Cogitou-se investir R$ 4,8 milhões numa campanha contra medidas de isolamento, mas nem um centavo para criar um canal de diálogo com os quase 22 milhões de idosos, sendo 4 milhões deles vivendo sozinhos, segundo o IBGE.

Aliás, na sociedade que começa a perceber o tamanho do Brasil Sênior – e ainda vê apenas um problemão no envelhecimento da população – há muito marketing para os maduros descolados e quase nada para aqueles que enfrentam a senescência fora dos estereótipos.  

Mas em tempos de pandemia, quando especialistas de toda ordem se proliferam num ritmo quase tão contagioso como do novo coronavírus, é preciso lembrar que a velhice é heterogênea, o que a torna uma experiência muito peculiar.  

Então, como melhorar a comunicação com esse público tão diverso?

É evidente que se a tecnologia está a nosso favor, também impõe inúmeros desafios…

Em meio à infestação de lives nas redes sociais, identificar poucos e bons conteúdo, de credibilidade, e garantir o amplo acesso disseminando informações em pontos estratégicos como elevadores, transporte públicos, mercados, farmácias e nas próprias Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, poderia contribuir para criar um diálogo eficiente para além da pandemia.

Pois é pensando no que podemos aprender com ela, que me vem à mente outro vírus que tem acometido a mesma parcela da população. Dados do último boletim epidemiológico HIV / Aids divulgado pelo Ministério da Saúde mostram que no Brasil, nos últimos dez anos, o número de pessoas 60+ com HIV cresceu 103%.

Os fatores são diversos, mas estão relacionados ao comportamento, à vida sexual da população dessa faixa etária. E passam pelo aumento da maior expectativa de vida em geral até a proliferação, nos últimos anos, do uso de medicamentos para disfunção erétil.

Como se trata de uma geração que, muitas vezes, não aderiu à cultura do uso do preservativo, a incidência do HIV tem aumentado muito. E as doenças sexualmente transmissíveis também. Muitas inclusive, preveníveis com exames de rotina, caso do papanicolau. Mas os médicos simplesmente não pedem porque ainda é tabu falar sobre sexo com os mais velhos até para os profissionais da saúde.

“A formação de profissionais de saúde não contempla conteúdos informativos referentes à abordagem da sexualidade na velhice e, de modo geral, temos dificuldade de reconhecer a sexualidade como uma necessidade da vida humana. Daí a dificuldade também em reconhecer esse campo de atuação em nossa prática profissional”, escreve a doutora em Gerontologia Laís Lopes Delfino, em “Revolução da Longevidade e Pluralidade do Envelhecer” (Senac). 

O fato é que, com tanta informação disponível, será que seremos capazes de mudar nosso comportamento?  O que poderíamos aprender com o tsunami de dados que nos arrasta diuturnamente?

Yuval Noah Harari, no capítulo Paradoxo do Conhecimento, de “Homo Deus” (Companhia das Letras), coloca a seguinte questão: “De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar mudanças ?”

Espero que, ao colocar nosso frágil teto de vidro à prova, a pandemia sirva para abrir nossos olhos e mentes para a necessidade de profundas discussões que desenvolvam políticas públicas para enfrentar o envelhecimento com mais sabedoria em todas as frentes necessárias. Cuidem-se!

E fiquem em casa.

Consequências da adoção de idosos: um debate necessário

Quem não se lembra do velho comercial de margarina, muito popular nos anos 90, que originou o termo “Família Doriana”, que ostentava uma família tradicional e feliz? Como se vê, não é de hoje que o mito de que toda a família é maravilhosa precisa ser desconstruído. Porque não é. Agora, um projeto de lei propõe adoção de idosos por famílias substitutas e abre também a oportunidade de dialogar sobre o planejamento de moradia para idosos.

É algo que precisa ser repensado diante da estrutura familiar contemporânea e das diversas necessidades da população envelhecida.

O projeto 5532, de autoria do deputado Ossésio Silva (Republicanos-PE), estabelece modelos de acolhimento, curatela ou adoção em famílias substitutas. A proposta determina que se peça ao idoso lúcido o consentimento dele antes de encaminhá-lo à nova família. Obriga ainda que haja o acompanhamento posterior por uma equipe multiprofissional.

A ideia foi abraçada pela ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. E, à primeira vista, pode até parecer algo benevolente.

Mas marcos legais, como o Estatuto do Idoso e a Política Nacional dos Idosos, já existem e abarcam uma infinidade de questões mais urgentes que sequer são cumpridas. E para que uma nova legislação, quando não se dá conta das já existentes, é a primeira pergunta que deve ser feita.

Responsabilidade compartilhada

De toda forma, está previsto que a responsabilidade de cuidar deve ser compartilhada entre Estado, sociedade e família. O que a adoção faria não seria, mais uma vez, jogar todo o ônus nas famílias, que hoje não têm mais condições de manter alguém em casa como cuidador? As mulheres que antigamente faziam esse papel trabalham e o orçamento familiar depende cada vez mais dessa mão de obra.

Outra questão importante é como conceituar o termo “adoção”. Envolveria levar para casa? Tão somente apadrinhar? Como se daria esse processo? O que significa adotar uma pessoa madura, com experiência de vida, sem correr o risco de infantilizá-la?

Ponto não esclarecido ainda é quem poderá escolher ser adotado: idosos interditados pelos filhos, abandonados pelas famílias, somente em situações de vulnerabilidade?  E, em casos nos quais o idoso começa a demenciar depois de adotado, como se dará os cuidados? Será mantido na família adotante? Será devolvido? Mas para quem?

Carga emocional é alta

Mesmo em condições saudáveis, quais serão as consequências de se levar um idoso para casa? É notório que o trabalho de cuidador não é fácil. Envolve custos financeiros e emocionais altíssimos. 

E não está claro no projeto de lei, como destaca a advogada Nátalia Verdi, mestre em Gerontologia e especialista em Direito Médico e Hospitalar, questões como as patrimoniais. Em caso de morte, quem serão os herdeiros?  “É um projeto que tende a ampliar a judicialização.” 

Concorda com ela a advogada Karime Costalunga, membro da Comissão de Direito de Família e Sucessões do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp). “O papel do cuidador extrapola alguns limites e há uma linha tênue nessa relação. Já tive inúmeros casos em que após a morte do idoso, houve requisição do contratado pela aposentadoria do mesmo por união estável”, conta.

Questão financeira estimula violência

Especialistas como Karime e Natalia são unânimes: questões financeiras podem estimular ainda mais a violência. E fazem ainda um alerta. A adoção não pode ser vista como contraponto à Instituição de Longa Permanência para Idoso (ILPI).

Esses locais precisam parar de ser vistos como depósitos de velhos e ambientes de mendicância. Precisam começar a serem tratados como moradias com condições de dar suporte aos idosos diante de todas as suas necessidades.  

“Os esforços do governo deveriam ser concentrados nessas casas de acolhimento, que recebem idosos em situação de abandono”, observa o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil.

A demanda que existe é por cuidados. E é uma demanda grande. Pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que apenas 6,6% das instituições de acolhimento do País são públicas.

A maioria delas é mantida pelos municípios e apenas duas são administradas pelo governo federal. Ao todo, 62.980 idosos vivem em abrigos públicos e particulares, segundo o Ministério da Cidadania.

Passou da hora de olhar melhor para as ILPIs e de investir em moradias alternativas.

Leia também: Compartilhar moradia melhora qualidade de vida

Agenda 2030: um instrumento para provocar o senso de coletividade

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável podem ajudar a alinhar as causas do envelhecimento numa única direção e dar força aos movimentos para inclusão nos programas dos próximos prefeitos

Quando se vive numa cidade grande como São Paulo, que esfrega na cara da gente a todo o momento, que você compartilha o mesmo espaço com outras pessoas, a civilidade tende a crescer se não por educação ou pela vergonha, pelo peso no bolso.

Um exemplo recente é o caso da proibição de plásticos no comércio da cidade, com multa de até R$ 8 mil. Bem ou mal, o método conscientiza ao abrir o debate. Mas fora dos grandes centros há muito contraste.  É a mesma coisa com o envelhecimento populacional.

O tema – e os desafios para a saúde pública derivados dele – ganharam força na agenda nacional nos últimos anos. E não é porque virou moda ser um digital influencer maduro e o mercado finalmente despertou para o potencial dessa turma. É de fato um assunto relevante, porque o processo de transição demográfica, somado ao aumento da expectativa de vida e da queda na taxa de natalidade, já provoca mudanças que afetam todo mundo: quem envelhece, a família de quem envelhece, a sociedade, os setores público e privado.

Mais avós do que netos

Já há no mundo mais idosos que crianças, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).  São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. As estimativas apontam para um crescente desequilíbrio entre os mais velhos e os mais jovens até 2050 – haverá duas pessoas com mais de 65 anos para cada uma entre zero e quatro anos.

Esta mudança na relação intergeracional é inédita, pois o mundo sempre teve uma estrutura etária rejuvenescida, mas está em processo acelerado de envelhecimento populacional e terá uma estrutura, inquestionavelmente, envelhecida antes do fim deste século. No caso brasileiro, o processo é ainda mais precoce e acelerado.

No Brasil, o número de idosos de 65 anos e mais de idade ultrapassou o número de crianças pequenas de 0 a 4 anos no ano de 2013 e vai superar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos em 2037. Portanto, o Brasil está mais adiantado no processo de envelhecimento do que a média mundial e será um País, efetivamente, idoso a partir de 2037.

Menos eu, mais nós

Não podemos demorar em aprender a lidar com isso o tanto quanto demoramos sobre a importância de se preservar o meio ambiente – que deveria ser a causa primária de tudo já que sem recursos não existe vida.  Há muito pouco senso coletivo fora dos grandes centros. É preciso provocá-lo.

Fazer entender que a demografia afeta todos os aspectos de nossas vidas. Basta olhar para as pessoas nas ruas, para as casas, para o trânsito, para o consumo.  E que as políticas públicas para promoção da saúde dos idosos desempenham papel crucial na mitigação dos efeitos do envelhecimento da população.

Simplesmente porque indivíduos mais saudáveis são mais capazes de continuar trabalhando por mais tempo e com mais energia, o que poderia resultar em menores custos para sistemas de saúde e previdenciário, por exemplo.

Por isso, é importante encontrar alternativas pautadas pelos interesses coletivos e, sobretudo, assegurar direitos já conquistados, como a gratuidade universal do Sistema Único de Saúde (SUS), que corre riscos de um desmonte neste governo. Para citar um exemplo apenas.

Uma única direção

Isso vale para qualquer causa que se abrace. Está ai o mérito da Agenda 2030 ao reunir os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ela ajuda ao reconhecer que o desenvolvimento só será possível se incluir pessoas de todas as idades e de todos os lugares, numa enorme parceria da sociedade civil organizada.

Também nos guia na hora de consultar os programas de governo dos candidatos que concorrem às próximas eleições municipais. Até que ponto eles estarão coordenados com essa agenda global?

Os ODS servem justamente para alinhar nossas causas e lutas numa única direção. Além disso, dão força aos movimentos que, no fim das contas, deveriam ter o mesmo propósito de não deixar ninguém para trás.

O perigo mora dentro de casa

Mortes por queda quadruplicaram em São Paulo na última década, se aproximando do número de homicídios. Os dados, do Boletim Epidemiológico Paulista, divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde, não são novos, mas juntamente com a comoção causada pela morte do apresentador Gugu Liberato, aos 60 anos, abrem oportunidades para o debate sobre um grave problema de Saúde Pública.

É que a queda está entre as principais responsáveis pela morte da população idosa e também pode ser causada por sintomas de DCNTs (Doenças Crônicas Não Transmissíveis), caso das cardiorrespiratórias, do câncer e da depressão. Aparentemente não foi esse o caso de Gugu. O apresentador teria apenas tomado uma decisão errada ao subir em um local perigoso.

Mas mesmo que estivesse em perfeita condições físicas e cognitivas, por que negligenciar os riscos? Gugu era celebridade, mas quantos anônimos não seguem os mesmos passos? E, assim como ocorreu com ele, a própria casa quase sempre é a principal armadilha. 

Nem precisa se aventurar muito. A simples passagem de um cômodo a outro pode se tornar um problema, provocando tombos que causam óbito ou danos irreversíveis. Por isso, identificar previamente os fatores de risco pode contribuir muito para a prevenção. São duas as causas que costumam provocar acidentes:

#Intrínsecas

Quando se relacionam com as transformações fisiológicas do envelhecimento, patologias específicas ou mesmo uso de medicamentos. Exemplos: postura inadequada, doença de Parkinson, osteoporose e depressão.

#Extrínsecas

Quando correspondem ao ambiente de interação do idoso. Exemplos: superfícies escorregadias; calçados não adaptados; iluminação inadequada; escadas sem corrimões; banheiros não adaptados.

Casa segura

Em decorrência das causas extrínsecas, surge por volta dos anos 2000 a arquitetura para a maturidade. E profissionais como Cybele Barros, autora do projeto arquitetônico Casa Segura, são cada vez mais requisitados para desenvolver políticas públicas. O trabalho dela foi aprovado pelo Ministério da Saúde e passou a fazer parte do Programa de Atenção Integral à Saúde do Idoso.

História parecida tem a arquiteta Flávia Raniere. Após adaptar diversos projetos, ela se especializou no envelhecimento da população.  “Os avanços tecnológicos e arquitetônicos vêm se tornando grandes aliados na rotina desse público”, acredita.

Para ajudar a entender a importância de uma casa segura, Flávia mapeou alguns fatores que parecem bobos ou irrelevantes, mas trazem chances de machucados ou tombos. Veja quais são:

#Falta de luz adequada

Conforme a idade avança, a visão também envelhece e sofre degeneração. Usar óculos é bastante comum, mas mesmo assim, não impossibilita a limitação visual. Sem enxergar clara e nitidamente, há mais chances de tropeçar, escorregar e bater em móveis.

A solução

Exagere no número de pontos de luzes. Quanto mais, melhor. Abuse de pendentes, arandelas, abajures, luminárias de mesa e spot de piso, que aumentam a iluminação de paredes, escadas e corredores. Para esses pontos de apoios, prefira opções com dimer, que permite o ajuste gradual da intensidade da luz. Para quem puder investir, um sistema de automação pode ser instalado para quando a pessoa se levantar do sofá ou da cama no escuro, uma luz de vigília no piso é acionada, ajudando a se localizar e se deslocar, por exemplo, até o banheiro.

#Quinas

Com o tempo, a derme, camada intermediária da pele, perde elasticidade, hidratação e oleosidade. Isso resulta em uma pele mais fina, frágil e mais vulnerável a machucados, infecções e doenças em geral. Uma simples esbarrada nas quinas dos móveis pode machucar a pele mais delicada. E um simples machucadinho pode se tornar um grande problema.

A solução

Aposte nas quinas arredondadas. Por não terem as temíveis pontas, não ocasionam lesões mais graves. Se não puder trocar o móvel, em lojas de produtos para casa é possível encontrar adaptadores de silicone, que são facilmente acoplados nas quinas tradicionais e fazem o serviço.

# Pisos e tapetes

Escorregar no chão liso e tropeçar em tapetes são acidentes comuns em qualquer casa. Onde moram pessoas mais velhas, com a mobilidade já comprometida, esses acontecimentos são mais recorrentes. Um piso escorregadio e tapetes mal posicionados podem causar mais do que uma simples queda.

A solução

Pisos emborrachados e vinílicos antiderrapantes, por exemplo, dificultam as quedas. Eles são encontrados em várias padronagens e cores. Os tapetes têm uma função importante de acústica e limitação de espaço e não precisam ser eliminados, apenas usados de maneira estratégica. Alinhe-os com o piso, sem desnível, e só os posicione em lugares que garantam a segurança, por exemplo, cobrindo todo o piso da sala.

#Móveis não adaptados

Camas altas demais ou baixas demais exigem um esforço que nem todo mundo tem quando atinge certa idade. Cadeiras com rodinhas podem virar e derrubar quem estiver sentado. Bancadas baixas impedem o encaixe de uma cadeira de rodas. Quando os móveis de uma casa não são adaptados para quem mora nela, viver ali vira um tormento. Além de riscos à saúde, compromete a mobilidade do morador.

A solução

Opte por elementos com contraste, cores vibrantes e formas diferentes. Assim, os objetos da casa ficam mais visíveis e fáceis de serem desviados.

E então? Com toda essa informação disponível já dá para tomar alguma precaução, não é?

Saiba mais:

Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa

Manual de prevenção de quedas da pessoa idosa

Saúde da pessoa idosa: prevenção e promoção à saúde integral

Ouvir sem julgar é uma das práticas mais difíceis da gerontologia

Já tinha um tema pronto na cabeça quando abri o laptop para escrever. Eis que mal havia me sentado e recebo no WhatsApp uma frase de uma amiga querida, que além de ser minha segunda mãe, é um ser humano exemplar à beira dos seus 70 anos: “Quando ficar velha não quero parecer mais jovem. Quero parecer mais feliz.” O Google credita a colocação à Anna Magnani, atriz italiana de grande sucesso, que morreu em 1973, aos 65 anos.

Foi assim, inspirada por elas, que decidi deixar de lado teorias e estatísticas para contar um pouco mais da minha própria experiência ao estudar a ciência do envelhecimento. Até porque a proposta desta Casa é buscar soluções para o Brasil Sênior a partir de vivências reais. Não que os estudos teóricos não sejam importantes. Não é isso.

Tanto que atualmente estou matriculada em dois cursos: Direito da Pessoa Idosa, pelo IBAM; e Gerontologia, pelo SENAC. Já fiz também Envelhecimento da População, pela Fiocruz. Posso dizer, contudo, que nunca aprendi tanto quanto na minha primeira hora num lar de idosos. É mesmo na prática que se testa o conhecimento, independentemente da área de atuação.

E, para quem já foi repórter como eu, ficou muito claro que se lugar de jornalista é na rua, o de gerontóloga também é. As ruas me contaram detalhes que não constam nos livros. Por isso, gostaria de compartilhar atitudes inspiradoras não só aos que se encontram na velhice como a quem caminha para ela.

Minha proposta é começar pelas histórias que espero ouvir durante meu trabalho na ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), o nome politicamente correto que deram para os asilos. Semanalmente me encontrarei com os 19 assistidos por lá. Não será tarefa fácil. Eu bem sei.  

Heterogeneidade respeitada

É um trabalho que envolve compreender essas pessoas para planejar algum tipo de intervenção que leve um pouco mais de bem-estar, alegria e, porque não, felicidade a cada uma delas. Sem, contudo, deixar de lado seu passado, respeitando a heterogeneidade. Confesso que esse desafio estava me afligindo, já que para muitos ali é o ponto final.

Mas como a vida não vem como idealizamos, um produto com itens de fábrica, só nos resta agradecer o que nos foi entregue. E essa aflição não demorou a passar. 

Era por volta de 16h no feriado de 15 de novembro quando recebi a ligação de uma colega de turma do IBAM. Era Marilza, pedagoga, do Rio, 65 anos, diversos cursos na área do Envelhecimento e muita disposição em ajudar voluntariamente idosos que não tiveram as mesmas oportunidades que ela.

Escuta compassiva

O quê aprendi nessa hora de papo, ouvindo a Marilza? Que nem sempre é preciso tanto estudo quando existe disposição para se envolver. Às vezes, um ouvido compassivo basta.

Ouvir sem julgar pode ser a melhor intervenção quando não há mais muito a se fazer. Às vezes, surte muito mais resultado do que esse monte de regras prontas que infligimos principalmente aos nossos familiares que enfrentam essa fase da vida.

Assim, a minha teoria inicial, que seria comprovar o benefício da implantação de uma ação imposta qualquer, caiu por terra. Creio que nada será mais válido do que eles me contarem suas histórias e me mostrarem, por meio delas, o que desejam para si. A mim, cabe simplesmente emprestar meu ouvido.

Aprender na velhice é bom antídoto para doenças mentais

Sabemos que chegar bem à velhice implica em perdas e ganhos. Mas quem aprende a aceitar e a valorizar mais a maturidade tende a enfrentar a senescência com melhor qualidade de vida. Assim, educar as diversas gerações para a compreensão do processo de envelhecimento, marcado por transformações biopsicossociais, é importante instrumento de promoção da longevidade ativa com tudo que a compõe, inclusive saúde mental.

Já é sabido que fatores como o acesso à educação, condição socioeconômica e gênero influenciam a velhice. Por isso, estimular o desenvolvimento de competências e recursos para o enfrentamento das vulnerabilidades individuais e ambientais dessa fase da vida é importante para preservação cognitiva, sem a qual não existe autonomia e independência.

É uma questão urgente diante do avanço de diagnósticos de quadros demenciais. A demência já afeta quase 50 milhões de indivíduos de baixa e média renda, segundo Organização Mundial da Saúde. Estima-se que em 2030 esse número ultrapasse 75 milhões, com custo global dos cuidados em demência estimado em mais de US$ 1 trilhão. Os dados são do relatório do Plano Global de Ações em Demências, que destaca ainda ser o Alzheimer o tipo de demência de maior incidência. 

Está comprovado que a idade é um fator de risco não genético de grande potencial. E embora as pesquisas ainda sejam limitadas, há evidências suficientes para intervir com propostas para um envelhecimento digno e significativo para a população, sendo algo que todos os países podem fazer, independentemente de situação atual ou do grau de desenvolvimento econômico.

Estudo apresentado no Congresso de Geriatria e Gerontologia, da pesquisadora Locimara Ramos Kroef, psicóloga da Universidade para a Terceira Idade da UFRGS, destaca que o saber adquirido pode realizar uma reformulação no contexto social e pessoal da velhice, trazendo uma prevenção mais eficiente para evitar o agravamento dos problemas próprios do envelhecimento, caso da demência.

Então porque não englobar também as fases que antecedem o envelhecimento na construção da cultura de aceitação da velhice?  Aprender a envelhecer pode ser tão importante quanto compreender as particularidades dos idosos, que envolvem transtornos frequentes de depressão, ansiedade e suicídio.

Vale destacar novamente que as oportunidades educacionais são importantes antecedentes de ganhos evolutivos na velhice porque intensificam trocas de contatos e promovem aperfeiçoamento pessoal. Desenvolver sentimentos como autoconfiança e amor próprio são tão essenciais quanto recursos para novas pesquisas na luta contra os transtornos mentais.

Entre as iniciativas que favorecem a prevenção destacam-se a garantia de acesso do idoso a políticas públicas já implementadas, como as Universidades para a Terceira Idade (UniAtis). Trata-se de uma ação que favorece a intergeracionalidade, ferramenta eficiente para a promoção da saúde integral.

Promover o engajamento em grupos de atividades físicas também melhora a capacidade cognitiva. Aliás, qualquer tipo de lazer promove envolvimento social e não demanda grandes investimentos. Um caso bacana é o sarau literário para incentivar a escrita e a leitura de textos próprios ou de autores diversos. Algo que o grupo Estação LongevIDADE Ativa tem feito por meio do Facebook.

Nesse caminho, a tecnologia ajuda muito. Aprender a jogar, bem como aprender a programar os próprios jogos online têm dado bons resultados. Isso porque a estimulação mental faz nascer novos neurônios.

Disseminar eventos como a Virada da Maturidade, que acontece anualmente em grandes centros como a cidade de São Paulo, é outra ótima ferramenta intergeracional para educar e conscientizar toda a população da importância de aceitar bem o envelhecer. Algo inerente à natureza humana.

Fora dos holofotes dos grandes eventos, a violência cresce

Diversos eventos estão programados para a semana que celebra o Dia Internacional das Pessoas Idosas, no dia 1 outubro. Entre todas as ações e atividades, a Longevidade Expo + Forum, em sua edição primeira, se destacou. Reuniu em São Paulo mais de 250 expositores e palestrantes que mostraram ser possível envelhecer com qualidade de vida. Mas a data – instituída pela ONU há 37 anos – deve nos  conscientizar que, fora dos holofotes, muita coisa ainda precisa de atenção.  Principalmente nos recônditos desse Brasil Sênior.

Segundo a Organização Mundial da Saúde um em cada seis idosos é vítima de algum tipo de violência. O dado faz parte de um relatório publicado na revista Lancet Global Health, que alerta que mais de 16% das pessoas com mais de 60 anos sofrem algum tipo de abuso. O documento reforça que este tipo de violência vem aumentando.

Conforme a Lei 10.741, a violência contra pessoa idosa é crime, portanto, não deve ser encarada como algo normal. São necessárias campanhas que levem conhecimento às pessoas com mais de 60 anos, para que eles conheçam seus direitos e tenham voz ativa para se defender. O Disque 100, canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, é um meio que pode ser utilizado e precisa ser divulgado.

Levantamento feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos revelou que, em 2018, o Disque 100 registrou um aumento de 13% no número de denúncias sobre violência contra idosos, em relação ao ano anterior. Isso sem contar o que não é denunciado. O serviço de atendimento recebeu 37.454 notificações, sendo que a maioria das agressões foi cometida nas residências das vítimas (85,6%), por filhos (52,9%) e netos (7,8%).

A triagem revela ainda que a suscetibilidade das mulheres idosas é maior. Elas foram vítimas em 62,6% dos casos e os homens, em 32,2%. Em 5,1% dos registros, o gênero da vítima não foi informado.

Quanto à faixa etária, os dois perfis que predominam são de pessoas com idade entre 76 e 80 anos (18,3%) e entre 66 e 70 anos (16,2%). O relatório também destaca que quase metade das vítimas (41,5%) se declarou branca, 26,6% eram pardas, 9,9% pretas e 0,7% amarelas. As vítimas de origem indígena representam 0,4% do total.

As violações mais comuns foram negligência (38%);  violência psicológica (26,5%), configurada quando há gestos de humilhação, hostilização ou xingamentos; e a violência patrimonial, que ocorre quando o idoso tem seu salário retido ou seus bens destruídos (19,9%).

A violência física figura em quarto lugar, estando presente em 12,6% dos relatos levados ao Disque 100. Em alguns casos, mais de um tipo de violência foi cometido e, portanto, comunicado à central.

Geograficamente, as ocorrências estão concentradas no estado de São Paulo, que aparece em primeiro lugar na lista, com 9.010 dos casos reportados. O estado de Minas Gerais ocupa a segunda posição, com 5.379 registros, seguido por Rio de Janeiro, com 5.035 e Rio Grande do Sul, que responde por 1.919 ocorrências.

Abandono e exclusão social também são violência

Para o secretário nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do ministério, Antônio Costa, a violência contra idosos vai além de agressões classificadas como maus tratos. Ele inclui o abandono e a exclusão social dessas pessoas como graves problemas.

Uma das ações governamentais de proteção a pessoas idosas é o Programa Viver, que tem como finalidade a ampliação de oportunidades aos idosos, por meio da inclusão digital e social. As ações abrangem as áreas da tecnologia, educação, saúde e mobilidade física.

O programa tem o propósito de resgatar a autoestima, conscientizar a pessoa idosa no âmbito da educação financeira e dos direitos a ela inerentes. Além do programa, o governo federal articula a Campanha Junho Lilás, que visa prevenir e identificar situações de abuso contra idosos. Lançada este ano, a iniciativa integra um movimento global de alusão ao Dia Internacional de Conscientização e Combate à Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado no dia 15 de junho.

Nesta data, como em todos os outros dias,  é importante que a gente se mobilize para compartilhar dados e disseminar iniciativas que ajudem a coibir essa cruel realidade.

Com Agência Brasil, Unifesp e Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos

Leia também Dia do Idoso é alerta para a sociedade ressignificar a velhice.

Na questão da sobrevivência as mulheres são o sexo mais forte

Mais do que as estatísticas, as histórias de vida com as quais nos deparamos no cotidiano mostram que as mulheres são o sexo mais forte quando se trata não só de longevidade, mas de sobrevivência. E não é só porque tradicionalmente se cuidam mais. Existe uma combinação de fatores históricos que leva e eleva a discussão da feminização da velhice para outros patamares. Porque como já é sabido, viver mais não significa necessariamente viver melhor.

Documento Envelhecimento saudável: uma política de saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS), mostra que as mulheres até possuem a vantagem da vida longa, mas são vítimas mais frequentes da violência doméstica e de discriminação no acesso à educação, salário, alimentação, trabalho significativo, assistência à saúde, heranças, medidas de seguro social e poder político.

Assim, as desigualdades por sexo promovidas pelas condições estruturais e socioeconômicas em muitas situações alteram além das condições de saúde, renda e dinâmica familiar. Por isso, a parcela feminina da população idosa tem provocado maior impacto nas demandas por políticas públicas e prestação de serviços de proteção social.

Inspiração para lidar com a nova realidade

O problema não está restrito à população brasileira e um olhar sob o que tem sido feito globalmente para enfrentar esse fenômeno da transição demográfica pode inspirar a construção de uma sociedade mais preparada para lidar com essa realidade.Segundo as estatísticas, em 2002 existiam 678 homens para cada mil mulheres idosas no mundo. É bem maior o número de mulheres idosas, e as expectativas são as de que as mulheres vivam, em média, de cinco a sete anos mais que os homens.

A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2040 aponta um número de 23,99 milhões de homens e 30,19 milhões de mulheres, uma diferença de 6,2 milhões de mulheres em relação à população idosa masculina. A razão de sexo deve cair para 79 homens para cada 100 mulheres entre a população idosa. Ou seja, nos próximos anos vai crescer o excedente de mulheres em cada grupo etário do topo da pirâmide.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres vivem, em média, sete anos a mais do que os homens no país. Além disso, enquanto a expectativa de vida das mulheres é de 78,6 anos, a expectativa de vida da população masculina é de 71,3 anos. Isso ocorre porque as mulheres, na maioria das vezes, possuem hábitos mais saudáveis do que os homens, além de procurarem com mais frequência acompanhamento médico, o que permite a identificação e o tratamento de possíveis doenças.

Outro fator de impacto é o aumento da criminalidade no Brasil, que tem sido responsável pela redução da população masculina, principalmente dos jovens com idade entre 18 e 29 anos, fato que tem contribuído para esse desequilíbrio entre o número de homens e mulheres. Acompanha ainda o processo de mudança uma maior participação social feminina. É cada vez mais comum mulheres chefiando famílias e o seu ingresso no mercado de trabalho, escreve José Eustáquio Alves, pesquisador do IBGE em artigo para o Portal do Envelhecimento.

A velhice é feminina

Como resultado desse cenário, os problemas e mudanças que acompanham o envelhecimento são predominantemente femininos, pelo que se pode dizer que a velhice se feminilizou. Os aspectos do envelhecimento feminino incluem além da discriminação e gerofobia, perdas físicas e sociais, pobreza e solidão. Algo que implica em maior incidência de doenças crônico-degenerativas e estados depressivos.

Desse contingente majoritário, existe uma alta proporção de mulheres idosas que moram sozinhas em diferentes situações. Esse fato foi denominado no passado de pirâmide da solidão. Mas como morar sozinho não significa ser solitário, o denominado fenômeno da “pirâmide da solidão”, indica apenas a existência de um crescente número de mulheres idosas sem companheiros.

Um fato positivo, entretanto, é que o novo contingente de mulheres com mais de 60 anos tem revertido a desigualdade de gênero na educação, fazendo com que o nível de escolaridade do sexo feminino atualmente seja maior do que o do sexo masculino também entre a população idosa. E a sociedade brasileira precisa saber aproveitar o potencial dessas recém-chegadas à terceira idade, que possuem altos níveis educacionais, além de ricas experiências de trabalho e de vida. Os idosos e, em especial, as idosas podem se transformar em fonte de sabedoria e difusão de conhecimentos para toda a sociedade.

Essa tal sororidade

É, porém, essencial uma reflexão nesse caminho da dissolvição dos preconceitos: a relação entre as próprias mulheres. Há uma tendência latente no meio social de idosas cuidando de outras idosas.

Assim, além de questionar as razões que levam mulheres brasileiras a aceitar e fortalecer, com seus medos e inseguranças, os preconceitos com relação ao envelhecimento feminino, é preciso uma mudança no modo como enxergamos e julgamos umas às outras, a partir do conceito da sororidade, para tecer nossas vidas com liberdade e apoio.

Outro fato a se considerar é que a maioria das idosas de hoje vêm de uma juventude dura, carregada por um estilo de vida familiar completamente diferente do cotidiano da atualidade. Muitas sequer tiveram direto de escolhas. Diante da vida moderna, enfrentam um choque cultural e tendem a se angustiar. 

Por isso, a questão da saúde mental é cada vez mais preocupante e demanda políticas públicas mais consistentes, voltadas para a feminização da velhice. Um trabalho de ressocialização, por exemplo, é uma alternativa viável para as mulheres longevas encarem o envelhecimento como um momento em que dá para realizar sonhos, viajar, estudar e ampliar seus horizontes.