Ouvir sem julgar é uma das práticas mais difíceis da gerontologia

Já tinha um tema pronto na cabeça quando abri o laptop para escrever. Eis que mal havia me sentado e recebo no WhatsApp uma frase de uma amiga querida, que além de ser minha segunda mãe, é um ser humano exemplar à beira dos seus 70 anos: “Quando ficar velha não quero parecer mais jovem. Quero parecer mais feliz.” O Google credita a colocação à Anna Magnani, atriz italiana de grande sucesso, que morreu em 1973, aos 65 anos.

Foi assim, inspirada por elas, que decidi deixar de lado teorias e estatísticas para contar um pouco mais da minha própria experiência ao estudar a ciência do envelhecimento. Até porque a proposta desta Casa é buscar soluções para o Brasil Sênior a partir de vivências reais. Não que os estudos teóricos não sejam importantes. Não é isso.

Tanto que atualmente estou matriculada em dois cursos: Direito da Pessoa Idosa, pelo IBAM; e Gerontologia, pelo SENAC. Já fiz também Envelhecimento da População, pela Fiocruz. Posso dizer, contudo, que nunca aprendi tanto quanto na minha primeira hora num lar de idosos. É mesmo na prática que se testa o conhecimento, independentemente da área de atuação.

E, para quem já foi repórter como eu, ficou muito claro que se lugar de jornalista é na rua, o de gerontóloga também é. As ruas me contaram detalhes que não constam nos livros. Por isso, gostaria de compartilhar atitudes inspiradoras não só aos que se encontram na velhice como a quem caminha para ela.

Minha proposta é começar pelas histórias que espero ouvir durante meu trabalho na ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), o nome politicamente correto que deram para os asilos. Semanalmente me encontrarei com os 19 assistidos por lá. Não será tarefa fácil. Eu bem sei.  

Heterogeneidade respeitada

É um trabalho que envolve compreender essas pessoas para planejar algum tipo de intervenção que leve um pouco mais de bem-estar, alegria e, porque não, felicidade a cada uma delas. Sem, contudo, deixar de lado seu passado, respeitando a heterogeneidade. Confesso que esse desafio estava me afligindo, já que para muitos ali é o ponto final.

Mas como a vida não vem como idealizamos, um produto com itens de fábrica, só nos resta agradecer o que nos foi entregue. E essa aflição não demorou a passar. 

Era por volta de 16h no feriado de 15 de novembro quando recebi a ligação de uma colega de turma do IBAM. Era Marilza, pedagoga, do Rio, 65 anos, diversos cursos na área do Envelhecimento e muita disposição em ajudar voluntariamente idosos que não tiveram as mesmas oportunidades que ela.

Escuta compassiva

O quê aprendi nessa hora de papo, ouvindo a Marilza? Que nem sempre é preciso tanto estudo quando existe disposição para se envolver. Às vezes, um ouvido compassivo basta.

Ouvir sem julgar pode ser a melhor intervenção quando não há mais muito a se fazer. Às vezes, surte muito mais resultado do que esse monte de regras prontas que infligimos principalmente aos nossos familiares que enfrentam essa fase da vida.

Assim, a minha teoria inicial, que seria comprovar o benefício da implantação de uma ação imposta qualquer, caiu por terra. Creio que nada será mais válido do que eles me contarem suas histórias e me mostrarem, por meio delas, o que desejam para si. A mim, cabe simplesmente emprestar meu ouvido.

Author: Rachel Cardoso

Sou jornalista e filha única. Aficionada por Esporte e Saúde. Em mais de 20 anos de carreira fiz reportagens sobre diversos temas. Atualmente, colaboro com diversos canais digitais, todos ligados a temas deste Brasil Sênior. Também sou sócia-diretora na Tot Conteúdo Digital. Graças a esse histórico, pude mudar a direção da minha vida e estar perto dos meus pais para acompanhar o processo de envelhecimento deles. Esse blog é consequência disso. Escrever é uma paixão!

2 thoughts on “Ouvir sem julgar é uma das práticas mais difíceis da gerontologia”

  1. Good day! This post could not be written any better! Reading this post reminds me of my previous room
    mate! He always kept talking about this. I will forward this write-up to him.

    Fairly certain he will have a good read. Thanks for sharing!

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