Como habitarás quando envelhecer?

Diante do isolamento imposto pela pandemia e da releitura comentada entre amigas da saga solitária da estirpe dos Buendía, em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, me volta à mente como nosso jeito de levar a vida e nossa rede de relações são vitais para envelhecer bem. É pelo lado financeiro, mas é também pelo suporte do convívio social que o envelhecimento nos leva a procurar por novas formas de viver.

Já tratei desta tendência em “Moradia compartilhada melhora qualidade de vida”, mas volto ao tema porque o déficit habitacional é assunto recorrente e ao optar por estudar a ciência do envelhecimento tenho notado grande desconhecimento e até preconceito sobre as opções habitacionais, principalmente quando cabe à família dar o voto de minerva. Ou até decidir sobre as práticas paliativistas, quando há necessidade de cuidados a um paciente incurável.

Há certo mal estar porque é difícil entender que é, de fato, melhor para todo mundo estar no lugar adequado.  Então é preciso destacar, reforçar, divulgar e até nos educar para a pluralidade do envelhecimento.

Não é porque o sujeito faz 60 anos – quando se convencionou estabelecer “idosa” a população – que vai começar a se identificar com as mesmas coisas. E, por isso, nem todo mundo vai querer morar do mesmo jeito.  E isso não depende de ter ou não filhos.

Já pensou quem vai cuidar de você se for necessário?

Essa mudança de costumes avança muito no discurso e até na construção das leis, mas demora à beça pra se incorporar na nossa vida. Ainda hoje falar em cuidados paliativos ou em asilo soa como algo cruel, como despejar a pessoa num depósito de velho.

A própria palavra asilo – inicialmente dirigidos à população carente que necessitava de abrigo, frutos da caridade cristã diante da ausência de políticas públicas – traz em sua gênese a ideia de isolamento e solidão e, por esse e outros motivos, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia indicou a substituição para ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos.

Apenas 6,6% das ILPIs são públicas

Hoje, o País já conta com 3.500 ILPIs, sendo a maioria privada. Apenas 6,6% são públicas, com predominância das municipais, o que corresponde a 218 instituições, número bem menor do que o de instituições religiosas vicentinas, aproximadamente 700. Os números são de artigo publicado na Revista de Estudos Populacionais.

A institucionalização do idoso é uma opção de moradia já bem conhecida por todos. E claro que há casos e casos.  “Tudo está relacionado ao grau de dependência do idoso. Seja física, cognitiva ou financeira”, diz Luisa Regina Pessôa, arquiteta aposentada da Fiocruz e à frente de um projeto num condomínio para sêniores em Búzios, no Rio de Janeiro.

Lá, oito amigos estão reunidos pela proximidade das casas e pela segurança de poderem contar um com o outro, mesmo antes do isolamento imposto pela pandemia. “Acho que essa modalidade pode ir se ajustando ao nosso envelhecimento e a cada grau de necessidade e independência”, avalia Luisa.

Um lar monitorado

Foi justamente pensando nas diferentes necessidades desse público que o empresário Leonardo Pisani idealizou ACASA, um serviço de hospedagem assistida que se propõe a melhorar a qualidade de vida dos idosos. Trata-se de um formato aos moldes de negócio do “assisted living”, adotada pelas grandes redes de lares de idosos dos Estados Unidos.

“Buscamos trazer para o Brasil o modelo de vida em uma comunidade de idosos, onde o hóspede pode trocar experiências, praticar diversas atividades e ter todo o suporte de uma equipe multidisciplinar especializada”, conta. Tudo sem perder a liberdade de tornar aquele cantinho no seu lar.

Embora só agora esses conceitos ganhem destaque, nem são assim tão novos. Em 1975, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, nascia um projeto pioneiro de um grupo de amigos liderado por Antonio Correa Leite, que idealizou um local onde as pessoas pudessem envelhecer com dignidade, tranquilidade e saúde, além de ter todos os benefícios de um condomínio fechado.

Já naquela época previu a necessidade de profissionais para atuar na área da saúde para atendimento aos moradores. Com o passar dos anos, o que era algo entre amigos se transformou em negócio, com a adesão de novos investidores, originando a Associação Residencial – A Agerip.

E quem não tem acesso?

É importante abrir um debate para que essas novas formas de morar se multipliquem para além daqueles que podem pagar, já que alternativas para diferentes condições de saúde e de capacidade funcional não faltam, mas poucos têm ou terão acesso a elas pelos altos custos.

São mínimas as políticas públicas habitacionais que asseguram moradia digna. O déficit habitacional brasileiro é de mais de oito milhões de moradias, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). E a situação piora diante das necessidades dos idosos.

Por isso, é urgente entender a transição demográfica pela qual o País atravessa debater soluções e cobrar dos futuros candidatos propostas voltadas aos problemas deste Brasil Sênior.

O primeiro passo é conhecer um pouco mais do que já existe disponível, abrir a nossa mente e nos despir de preconceitos para as novidades que possam surgir.

Vamos juntos?

#ILPIs

Residências coletivas, que atendem idosos com necessidade de cuidados prolongados. Podem ser governamentais ou não, mas o tratamento médico não é o elemento central do atendimento.

#Asilos

Lar destinado acolher idosos sem recursos financeiros, essencialmente de responsabilidade pública.  Atendimento inclui alimentação, higiene e saúde.

#Casas de Repouso

Destinada à prestação de serviços médicos, de enfermagem e demais serviços de apoio terapêutico. Instituições governamentais ou não governamentais. Regime de internato. Só podem ter médico como responsável técnico.

#Moradia assistida

É uma residência inclusiva, mas não é uma clínica, nem um local de tratamento, mas uma variação da tradicional casa de repouso. No local, as pessoas têm liberdade para fazer dele um lar. São residências adaptadas às necessidades especiais, individuais e coletivas dos atendidos por elas.

#Centro-Dia

O Centro-dia é um serviço social previsto na Política Nacional do Idoso que atende pessoas com 60 anos que necessitam de cuidados durante o dia e que à noite voltam para suas casas, mantendo assim os vínculos sociais e familiares. Podem ser públicas ou privadas.

#Coliving

É um nome chique para a tradicional República. Quem lembra? Isso porque nesse modelo as pessoas têm o seu próprio quarto, mas compartilham os outros ambientes da casa, como cozinha, sala e varanda. E todo mundo colabora.

A vida em comunidade e o compartilhamento de espaços comuns que caracterizam o coliving atraem cada vez mais idosos, que querem viver sob o lema da partilha de experiências. Pensando nisso, foi lançado a Coliiv, startup que funciona como uma espécie de Tinder da moradia para os maduros.

#Cohousing

São casas particulares agrupadas em torno de espaço compartilhado. Cada casa anexa ou unifamiliar possui acomodações tradicionais. As famílias têm renda independente e vida privada, mas os vizinhos planejam e gerenciam colaborativamente as atividades da comunidade e os espaços compartilhados.

A estrutura legal é tipicamente uma associação de proprietários ou uma cooperativa habitacional.

#Hospice

O hospice é um lugar destinado a pessoas portadoras de doenças letais, sobretudo no período em que a terapia de cura torna-se ineficaz e a terapia paliativa torna-se imprescindível. Pacientes que possuem doenças avançadas e incuráveis, em fase terminal ou não, bem como pacientes que necessitam de cuidados especializados no controle de sintomas ou de pequenas intervenções clínicas.

Traz o conceito e a filosofia de cuidados paliativos e envolve atendimento, inclusive para a família no pós-luto.

E então? Já pensou que estilo combina mais com você? Nada impede a gente de seguir o seu Antonio, da Agerip, e criar algo, não é mesmo?!

O futuro depende da diversidade no trabalho

Demorei um bocado a assistir Um Senhor Estagiário, filme com Anne Hathaway e Robert De Niro, apesar de tantas indicações. Realmente é uma delícia de comédia com toques de drama que pode ser inspiradora tanto para aposentados quanto para mulheres que assumem liderança. Para mim a inspiração veio na hora certa por vários motivos e me ajudou a encarar o trabalho de uma nova forma. Olhar esse essencial para o envelhecimento.

Foi daí que veio a pergunta que originou este texto: o que estamos fazendo para combater a velhofobia no mercado e dentro de nós mesmos?

Essas e outras questões foram respondidas durante o Maturi Fest 2020 – Festival Online de Trabalho e Empreendedorismo 50+, realizado entre 6 e 9 de julho, sob a batuta de Mórris Litvak, fundador da Maturi, negócio social que nasceu em 2015 como MaturiJobs, com o intuito de ajudar as pessoas maduras a terem a oportunidade de continuarem ativas e compartilhando suas experiências pelo tempo que quiserem.

O evento reuniu 60 palestrantes engajados na causa do envelhecimento ativo, contou com cerca de 7 mil inscritos e a cobertura completa pode ser conferida no site da Maturi. Vale a pena!

Trabalho ou emprego?

Recomendo independentemente da idade. Até porque, como se diz, a carapuça me serviu, embora ainda esteja aqui no limbo dos 40+. É que durante o distanciamento social muitos, como eu, assumiram novas tarefas da gestão não só da própria casa como a de algum familiar do grupo de risco. Confesso que inicialmente o sofrimento era desproporcional simplesmente porque não conseguia enxergar valor em determinado tipo de trabalho.

Isso porque fomos criados para ter emprego, carreira, num cenário onde quase sempre as relações de trabalho são balizadas pela troca do dinheiro. Não é que o dinheiro não importe!

Importa e muito. Principalmente quando você percebe aos 50 que vai viver por mais 50. Mas diante de uma crise socioeconômica como a que o mundo enfrenta para além da pandemia, é vital compreender o trabalho como ação que provoca transformação e não apenas obediência ao horário de expediente e ao líder.

O ato de se dispor a fazer algo pela sociedade ou por você mesmo tem valor mesmo não sendo remunerado. E isso precisa ficar claro, como no filme com De Niro, para quem já se aposentou ou não.

Estigma social

“A pergunta que deve ser feita é o que a vida espera de mim e não o contrário”, destaca a antropóloga Mirian Godenberg, autora dos livros A Bela Velhice e Coroa, corpo, envelhecimento e felicidade, para quem o prazer de aprender deve reger toda a sinfonia a vida inteira. “A pandemia nos revelou um lado perverso da sociedade ao trazer à tona o estigma social da velhice e isso precisa ser combatido nas mais amplas frentes com educação”, completa.

Nesse caminho, a tecnologia desempenha um papel fundamental  ao ampliar o acesso a conhecimento e facilitar os relacionamentos corporativos quando se passa enxergar as redes sociais como ferramentas de trabalho. Uma mudança que pode ser mais difícil se for feita atropeladamente.

No ritmo de cada um

“É importante não se comparar ao outro e encontrar o próprio ritmo”, diz o epidemiologista Alexandre Kalache, uma referência internacional quando o assunto é envelhecimento e longevidade. “Movam-se mais devagar e parem de reclamar que o mundo está envelhecendo. Envelhecer é bom desde que o processo seja sustentado pelos quatro pilares do envelhecimento ativo: saúde, conhecimento, participação e segurança”, diz o especialista para quem a vida precisa deixar de ser uma prova de cem metros para se transformar numa maratona.

E como em toda prova de resistência, o planejamento faz a diferença. Mas se organizar para envelhecer ativamente requer coragem para seguir os sentimentos, como destaca o consultor Alexandre Pellaes, palestrante, pesquisador e mestre em Psicologia do Trabalho.

“Embora esteja na moda, nem tudo é só sobre a mente, por isso não gosto do termo mindset. Prefiro feelset”, afirma.  Nesse sentido, diz ele, mais vale um ano de terapia que um ano de MBA porque o autoconhecimento é extremamente importante na hora de ouvir o coração e decidir o caminho a seguir. E não se trata aqui do besteirol literário de autoajuda que pulula por aí.

Diversidade que se completa

A pandemia  reforçou a necessidade de reflexão sobre o idadismo e o preconceito. Mas quando se trata do futuro, outras doenças que não têm sido devidamente tratadas, caso dos vários tipos de demência e até da diabetes, entre outras, além da velhofobia arraigada na sociedade, devem ser levadas em conta, assim como a velocidade do envelhecimento da população e sua pluralidade.

Em um contexto em que  mais da metade das empresas brasileiras têm dificuldades para preencher vagas em áreas como tecnologia da informação, matemática e negócios, este é um grande momento para refletirmos sobre a responsabilidade social do futuro do trabalho.

Atualmente, o país conta com mais de 13 milhões de desempregados, conforme os últimos dados divulgados pelo IBGE. Desse total, quantos estão sem empregos e foram para informalidade por falta de oportunidades e desenvolvimento? Quantos possuem talento nas áreas que mais sofrem pela ausência de profissionais, porém não têm capacitação ou uma chance simplesmente por serem considerados “velhos” ?

A resposta não é simples, mas Kalache joga um facho de luz na escuridão ao apostar que a saída diante de um mundo fortemente conectado é a confiança e o apoio intergeracional.  “Dependemos dos mais velhos para nos guiar e dos mais jovens para nos fortalecer, embora exista o medo e a discriminação. Só podemos vencer essa crise e outras crises que virão, com decência e confiança uns nos outros, senão todos afundaremos”.

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Pesquisa aponta necessidade de mudar relação com a morte

O movimento de transformação provocado pelo envelhecimento ativo tem alterado a percepção e a relação que temos com o fim da vida. Ainda mais agora, diante da pandemia da Covid-19, quando a morte nos ronda diariamente. É o que revela uma pesquisa recém-lançada, que nos convida a refletir de um novo jeito sobre a finitude, que pode sim ser mais real, afetiva e prática.

Porque planejar e organizar o fim da vida é essencial para auxiliar a família a lidar, com o mínimo de estresse, com questões como heranças, dívidas e outras pendências. O estudo Plano de Vida & Legado foi realizado pela Janno em parceria com a MindMiners e ouviu ouviu 1.053 pessoas com mais de 45 anos.

“Inovamos ao realizar análises do comportamento do cidadão maduro com o novo formato e perspectiva de vida, que agora esticou”, diz Layla Vallias, cofundadora da Janno, startup de gestão financeira focada no público sênior.

Ela destaca que, maior que a população da Espanha, os maduros com mais de 50 anos já somam quase 60 milhões no Brasil. E que esse público desenha um novo modo de envelhecer. “Nele, os sonhos são restaurados, os desejos se avivam, a liberdade é o maior valor – e um novo plano de vida começa a ser escrito”.

Mas colocar o assunto embaixo do tapete não ajuda. No ranking Qualidade da Morte, conduzido pela Economist Intelligence Unit, o país ocupa a 42ª posição entre 80 países. No cotidiano, 74% dos brasileiros não falam sobre a morte. Quando a ameaça à vida ganha proporções globais e palpáveis – como temos visto nesta pandemia – o assunto é ainda mais necessário.

“É importante lembrar que falar sobre finitude não se trata de abordar somente o luto, a perda, a saudade. Planejar a finitude é, acima de tudo, assegurar a liberdade de tomar as próprias decisões e honrar o legado”, afirma.

De acordo com estudo do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios (SINCEP), 87% dos brasileiros não se sentem preparados para lidar com a morte. Não se trata de naturalizar o que pode ser evitado. Aliás, os avanços da medicina aliados à tecnologia são os principais responsáveis pela longevidade ativa. Mas já passou da hora de aprender a lidar melhor com algo que faz parte da nossa existência, conforme já discutimos aqui em Se a morte é algo natural, por que é tão difícil falar sobre ela?

Sinal de que, aos poucos, começamos a olhar com outros olhos para o fim da vida são as diversas iniciativas que se propõe a nos transformar nesse sentido. Caso do Movimento InFINITO, que nos inspira a refletir sobre a nossa própria morte e a de entes queridos.

No curso de Gerontologia também há uma disciplina inteirinha dedicada aos cuidados paliativos e à finitude, abordando como se comunicar com o paciente e a família, inclusive no pós-luto.

Então, que tal deixar o tabu de lado, ceder lugar ao diálogo e atenuar o sofrimento com planejamento?

Confira os principais destaques da pesquisa:

# Sete em cada 10 entrevistados com mais de 60 anos afirmam que estão refletindo mais sobre a finitude durante a pandemia; quatro em cada 10 estão com medo de morrer; dois em cada 10 começaram o planejamento de fim de vida durante o distanciamento social.

# Sete em cada 10 brasileiros considera a morte um tabu. Embora seja um tema frequentemente abordado pelas religiões e artes, o tema não chega facilmente à mesa do jantar. Ao ser administrada com um distanciamento emocional e de forma prática, a morte passou a ser tratada apenas no ambiente hospitalar.

# Seis em cada 10 brasileiros com mais de 45 anos já refletiram sobre a própria morte e não acham difícil falar sobre o tema. Conforme a idade passa, fica cada vez mais fácil falar sobre a morte: 47% entre 45 e 54 anos; 38% entre 55 e 64 anos; e 31% entre os 65+. Cinquenta e quatro por cento dos brasileiros com mais de 45 anos se identificam com a afirmativa: eu me preocupo com o que vou deixar (patrimônio ou dívidas) para meus filhos e familiares quando não estiver mais aqui. 

# Seis em cada 10 brasileiros com mais de 45 anos, afirmam que querem morrer em casa; 13% em hospice (com cuidados especiais de tratamento de fim da vida); 13% em hospital, mas não UTI; 4% em casa de repouso (ILPI); e 2% na UTI.

# Seis em cada 10 brasileiros com 45+, que já refletiram sobre a morte, sabem quais são os desejos de final de vida: sete em cada 10 já conversaram sobre os ritos funerários com familiares e amigos próximos; cinco em cada 10 já conversaram sobre como querem ser cuidados em caso de doença terminal. Entretanto, nesse assunto falta a reflexão sobre o planejamento (pessoal e financeiro) para essa etapa da vida. Oito em cada 10 brasileiros 45+ não registraram os seus desejos, por exemplo.

Acesse a pesquisa completa Plano de Vida & Legado AQUI.

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Sem vacina, é preciso seguir com pequenas doses de liberdade

Hoje dei o primeiro passo rumo a minha desquarentenização. Só por hoje não acordei pensando no noticiário dessa gaiola chamada Brasil. Venci o desânimo, o medo, não pensei nas críticas e sai para correr. Tênis no pé e na fuça minha super máscara que vem com sete filtros. Comigo só a minha cãopanheira Frida. Foi importante para organizar as ideias.

Neste momento, tomar as rédeas das emoções e aprender a (se) flexibilizar é fundamental. A vida continua e é preciso retomar os projetos, os sonhos e mais do que nunca usar a tal capacidade de nos reinventar.

Só percebi que havia me perdido no caos do isolamento quando mesmo com todo o suposto tempo da quarentena em casa vi que minha última atualização do blog era do final de abril. Dias iguais, confinamento, mercado, farmácia, e uma vida de avatar na internet…

Menos afazeres, mais cansaço.

Com o tempo correndo nessa toada lenta, imperceptível, talvez tenha me quarentenizado um pouco além da conta.

Não que tratar da longevidade no Casa de Mãe não fosse importante. Mas já havia muita coisa bacana dentro da temática sendo produzida. Então eu (tentei) focar em mim mesma e nos estudos da Gerontologia para apresentar uma boa proposta de projeto de intervenção na conclusão do curso, que acaba já neste semestre. E só isso já foi muito difícil.

Sem grandes inspirações para trazer algo realmente útil para cá, feito com cuidado, acabei por me abster. Também tem certo desassossego que me impede, como antes, de realizar várias atividades ao mesmo tempo.

É no meio desse turbilhão de sentimentos que certas precauções em excesso começam a virar fobias e a impedir a nossa volta à vida de fato. Sim, à vida. Ponto. Porque normal acho que essa vida nunca foi.

Dá para considerar normal uma vida em que uma parte dos brasileiros faz fila para entrar num shopping enquanto outra parte do povo morre numa velocidade descomunal?

Tem certas coisas que só a psicologia explica. Por isso fui buscar ajuda e bater um papo com profissionais para tentar entender esse momento tão ambíguo e tão delicado. Porque não é apenas o vírus que causa desalento.

A exemplo do que acontece no resto do mundo, aqui a crise socioeconômica dá sinais de que vai durar um bom tempo. E tudo isso colabora para um fenômeno psicológico que pode acometer uma parcela da população: o medo de sair de casa.

“É um sentimento de angústia e receio que pode tomar conta mediante a ideia de sair às ruas e retomar o contato social e está relacionado à síndrome da cabana”, conforme explica a psicóloga e hipnoterapeuta Sabrina Amaral. É um efeito observado em outras situações de isolamento de longa duração: expedições no Alasca, períodos longos de hospitalização e encarceramento prolongado, entre outros.

A psicóloga Maria Aparecida (Tina) Junqueira Zampieri, doutora em Ciências da Saúde, explica que síndrome não é bem um nome adequado por não se tratar de uma patologia, mas de uma reação a um confinamento. “É esperado enfrentar alguns sentimentos diferentes, depois de um longo período sem sair de casa. É natural certa dificuldade, certo medo, um estranhamento”, diz.

Divulgação/AI

Tina destaca que isso pode ocorrer em qualquer idade e variar de pessoa para pessoa.

Nos idosos, porém, o quadro pode ser mais acentuado pela questão da fragilidade, por estarem em uma fase de vida em que outras mudanças estão acontecendo simultaneamente e isso colabora para esse sentimento de estranheza. Mas, muitas pessoas jovens também podem experimentar a mesma sensação.

Por que isso acontece?

É como se o nosso cérebro ficasse acostumado a uma nova rotina e aprendesse que estar em casa é a única possibilidade de segurança e proteção. Além disso, tivemos reforçadores positivos de comportamento durante a quarentena: mais tempo para a família, hobbies, estudo e tempo para nós mesmos.

Para as pessoas que têm uma personalidade naturalmente introvertida, isso é ainda mais evidente. Por isso, é importante reforçar a esperança e falar de coisas boas que estão por vir. Das janelas de oportunidades que se abriram e de como as mudanças podem ocorrer a partir das crises, reforça a psicóloga Tina Zampieri.  

Quais são os sintomas?

O sintoma principal é a angústia de sair de casa, acompanhada de medo e ansiedade. Percebe-se ainda certa letargia, falta de motivação, sono excessivo e comportamentos de esquiva para fugir do problema, como compulsão alimentar ou adicções. Notam-se também sintomas cognitivos como falha na memória e dificuldade de concentração.

Tina conta que ela mesma passou por uma situação semelhante e sugere que para se desquarentenizar, o melhor é respeitar o próprio tempo. “Não se obrigar a nada é a melhor saída para voltar a sair”.

5 passos para se desquarentenizar

#Foque no que está ao seu alcance. Crie uma rotina com movimento e que envolva alimentação saudável, exercícios e momentos para sair de casa aos poucos.

#Sem grandes pretensões, coloque metas para administrar a angústia. Um dia após o outro. Primeiro até a padaria, depois uma volta no quarteirão, e assim, sucessivamente.

#Avalie racionalmente seu medo, afinal, não é uma escalada até o Pico da Neblina, é apenas uma volta pela vizinhança.

#Facilite ainda mecanismos para mitigar o medo, como usar roupas e calçados fáceis de tirar, facilitando a higienização na hora de chegar em casa. Tenha um local externo para deixar os calçados e máscaras até serem higienizados.

#É importante não se comparar com os outros, mas sim, consigo mesmo. Se você observar que os comportamentos de esquiva não regridem ou aumentam conforme os dias passam, é importante buscar ajuda.

No mais, não se cobre tanto. Que tal encarar isso como uma fisioterapia psicológica que vai ajudar você a voltar a caminhar depois de um longo período de imobilização?

Com informações do Ciclo de Mutação e do CidadeVerde.com

5 ações para combater o efeito psicossomático da pandemia

Nem precisa ser idoso para sentir os efeitos psicossomáticos do distanciamento social. Todo mundo, em algum grau, tem algum tipo de dificuldade em lidar com a pandemia.  Mas ao menos um fator parece ser unânime para piorar a quarentena imposta: a quantidade de conteúdo inútil que invade feito praga o isolamento.

Se não é o bombardeio macabro do noticiário, é a tsunami de láives, que já pode até ser aportuguesada porque venhamos e convenhamos ganharam aquele toque over-verde-amarelo que só a gente sabe dar. Outro dia mesmo vi o anúncio de uma láive “ao vivo”.  Oiiiii?

Um amigo postou que tinha a impressão que a láive era a nova paleta mexicana. Para quem não lembra o tal sorvete gourmet virou febre e houve uma onda de investimentos em paleterias, que depois, claro, não vingaram.

Não se trata aqui de virar mais uma fiscal de rede social alheia, menos ainda de criticar o mundo, porque tudo que a gente não precisa neste momento são de mais reclamações vãs. Então, que tal promover algo que valha no meio desse enorme entulho digital?

Sem grandes pretensões, destaco 5 ações positivas que têm feito meus dias dentro da caixa melhores.

#Para reorganizar o trabalho

O FalaMaturi é um papo via Zoom realizado semanalmente com o pessoal da MaturiJobs, que reúne um grupo de maduros em busca de novas formas de trabalho, mas que encontraram online apoio para trocar ideias e sentimentos durante a pandemia.  Eu participo de alguns encontros, realizados todas as sextas, e tem sido incrível.

#Para ajudar quem precisa

O Ribon é um aplicativo de doações pelo qual você não precisa necessariamente colocar a mão no bolso. Ao baixar o app e se cadastrar, o usuário recebe uma boa notícia por dia e, a cada notícia lida, ganha 100 ribons, moedas virtuais que podem ser doadas para projetos sociais, graças a fundações parceiras. Por lá, é possível acompanhar e entender o impacto social do gesto no mundo.

Twitter solidário_Ah! Me chamou atenção ainda a solidariedade encontrada em redes como Twitter, geralmente cheia de esculhambação, bate-boca e politicagem.  Tive a oportunidade de acompanhar o caso de uma senhora que comentou a dificuldade em receber o auxílio emergencial, necessário para o leite da neta naquele momento.  

No mesmo instante, dezenas de anônimos se articularam para contribuir. Várias pessoas pediram sua conta e os comprovantes de depósitos começaram a ser compartilhados. Valores simbólicos, mas que encheram meu coração de esperança.  Incrédulos dirão que é golpe. Pode ser. Minha consciência está tranquila.

# Para manter a sanidade mental

Existem diversos grupos de apoio psicológico no Whatsapp que muito tem ajudado. Eu, por exemplo, participo de três: Saúde Mental Cercanias, Cuidando de Idosos, e um sobre Budismo. É muito grupo, né minha filha? Já dizia o meme de Dráuzio Varella, mas tem gente que realmente precisa. Eu dou uma espiada e percebo como as conversas fazem diferença para algumas pessoas. Então, não é inútil.

O que me fez perder um pouco a motivação no caso dos grupos foi que o coordenador pedia para descrever tal sentimento em uma palavra e adivinhem? Isso mesmo! Todo um rosário desfiado.  Preciso de um divã só pra mim! O que acabei encontrando nas publicações de amigas como as da psicóloga Mara Lúcia Madureira. Ela escreve alguns artigos que ajudam a manter a sanidade mental.

#Para reforçar o sistema imunológico

Sempre gostei de praticar atividades esportivas.  E tenho certeza de que o estilo de vida faz toda diferença para o envelhecimento ativo, mas tive de me readaptar durante a quarentena.  Com a redução dos treinos, eu investi no que passei a chamar de imunização natural. Um reforço ao sistema imunológico baseado em plantas, frutas e legumes.

Criei sucos ótimos e reduzi o vinho porque não é o primeiro e nem será o último fim do mundo. Não adianta achar que quarentena é uma eterna “láiiive” de sertanejo e encher a cara. Um dia acaba e o preço a pagar na retomada é alto.

#Para aprender coisas novas

Já estava cursando uma pós na modalidade EaD, mas com avaliações presenciais. Com a pandemia, as provas passaram a ser online. E dezenas de outros cursos foram disponibilizados gratuitamente para quem tem habilidade com os ambientes virtuais de estudos.

Nem sempre é fácil se adaptar, principalmente para os mais velhos. Mas é possível aprender coisas novas. Veja o caso da italiana Lucy Pollock, de 97 anos, que criou um canal de receitas no YouTube, e tem feio o maior sucesso. Ou conheça o Mapa de Iniciativas 60+ em tempos de coronavírus.

De mais a mais, com pandemia ou sem ela, sempre é tempo de descobrir novos hobbies e até mudar de carreira. Mas tenho pra mim que a palavra de ordem do momento é prudência. Não adianta nada fazer três cursos ao mesmo tempo e ficar louca para dar conta de tudo e tentar se manter altamente produtiva.

Não é hora. O mundo não precisa de produtividade neste momento. Talvez precise de uma pausa. Por que não? O ócio pelo ócio também pode ser importante nas nossas vidas.

Que esse tempo sirva para que a gente perceba essas pequenas coisas que podem fazer diferença no cotidiano na pós pandemia. Não acho que a gente vá sair muito melhor dela, mas não custa tentar, não é mesmo?

Encontre cursos gratuitos para fazer durante a pandemia.

Pandemia expõe ruído grave na comunicação com idosos

Faltam campanhas que falem com essa parcela da população e ensinem, inclusive, ao profissional da saúde dialogar sobre temas como a disparada do HIV entre os 60+

Por aqui enfrentamos com todos os cuidados mais este “fim de mundo”. E espero sinceramente estar viva para acompanhar o próximo. Mas não é tão simples assim com a comunidade do entorno. Dentro da própria família, muitos insistem em zanzar por aí como se a Covid-19 não pudesse lhes atingir. Hoje cedo mesmo tive um entrevero com um tio 80+, que decidiu visitar os meus pais porque “isso daí é só coisa de outros países”, como ele esbraveja.  É o tipo de atitude que joga todo o esforço de prevenção por terra.

Tenho pai e mãe de 77 e 71 anos, respectivamente. Minha mãe, que serviu de inspiração para muitas pautas desse blog, tem exatamente tudo que esses serezinhos precisam para se proliferar: venceu o câncer, é cardiopata e enfrenta problemas dos sistemas respiratório e renal por conta do mau funcionamento do coração. Enfim, tem dores crônicas e incapacidades funcionais.

Custou um pouco, mas eles entenderam que um dos motivos das complicações serem mais comuns em pessoas acima dos 50 anos é a imunossenescência. Um processo natural do envelhecimento, que diminui a capacidade do sistema imunológico.

Assim, o risco de infecção e possíveis complicações serão sempre maiores, independentemente do novo coronavírus.  Nesse caso, porém, o problema é a velocidade da contaminação, que pode fazer todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, provocando uma sobrecarga no atendimento de emergência. 

Na contramão do projeto terapêutico

A mídia de massa, aquela mesma tão criticada, ajuda bastante nessa conscientização, pois é difícil fazê-los aderir a essa batalha global. E mais ainda afastá-los de sua rede de suporte social, sem desconstruir todo o projeto terapêutico desenvolvido justamente com base em atividades coletivas e contato com seus pares.

Circula na internet uma edição da coletiva do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, nos pedindo para cuidar nos nossos idosos e isso envolve fazer justamente o contrário do que vinha sendo feito para lhes proporcionar um pouco mais de autonomia e independência.  Não há que se questionar a medida, embora o próprio governo esteja fomentando a confusão. Mas não há nada de efetivo que fale diretamente com eles para nos apoiar nessa missão. E já faz tempo que observo esse quadro.

Cogitou-se investir R$ 4,8 milhões numa campanha contra medidas de isolamento, mas nem um centavo para criar um canal de diálogo com os quase 22 milhões de idosos, sendo 4 milhões deles vivendo sozinhos, segundo o IBGE.

Aliás, na sociedade que começa a perceber o tamanho do Brasil Sênior – e ainda vê apenas um problemão no envelhecimento da população – há muito marketing para os maduros descolados e quase nada para aqueles que enfrentam a senescência fora dos estereótipos.  

Mas em tempos de pandemia, quando especialistas de toda ordem se proliferam num ritmo quase tão contagioso como do novo coronavírus, é preciso lembrar que a velhice é heterogênea, o que a torna uma experiência muito peculiar.  

Então, como melhorar a comunicação com esse público tão diverso?

É evidente que se a tecnologia está a nosso favor, também impõe inúmeros desafios…

Em meio à infestação de lives nas redes sociais, identificar poucos e bons conteúdo, de credibilidade, e garantir o amplo acesso disseminando informações em pontos estratégicos como elevadores, transporte públicos, mercados, farmácias e nas próprias Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, poderia contribuir para criar um diálogo eficiente para além da pandemia.

Pois é pensando no que podemos aprender com ela, que me vem à mente outro vírus que tem acometido a mesma parcela da população. Dados do último boletim epidemiológico HIV / Aids divulgado pelo Ministério da Saúde mostram que no Brasil, nos últimos dez anos, o número de pessoas 60+ com HIV cresceu 103%.

Os fatores são diversos, mas estão relacionados ao comportamento, à vida sexual da população dessa faixa etária. E passam pelo aumento da maior expectativa de vida em geral até a proliferação, nos últimos anos, do uso de medicamentos para disfunção erétil.

Como se trata de uma geração que, muitas vezes, não aderiu à cultura do uso do preservativo, a incidência do HIV tem aumentado muito. E as doenças sexualmente transmissíveis também. Muitas inclusive, preveníveis com exames de rotina, caso do papanicolau. Mas os médicos simplesmente não pedem porque ainda é tabu falar sobre sexo com os mais velhos até para os profissionais da saúde.

“A formação de profissionais de saúde não contempla conteúdos informativos referentes à abordagem da sexualidade na velhice e, de modo geral, temos dificuldade de reconhecer a sexualidade como uma necessidade da vida humana. Daí a dificuldade também em reconhecer esse campo de atuação em nossa prática profissional”, escreve a doutora em Gerontologia Laís Lopes Delfino, em “Revolução da Longevidade e Pluralidade do Envelhecer” (Senac). 

O fato é que, com tanta informação disponível, será que seremos capazes de mudar nosso comportamento?  O que poderíamos aprender com o tsunami de dados que nos arrasta diuturnamente?

Yuval Noah Harari, no capítulo Paradoxo do Conhecimento, de “Homo Deus” (Companhia das Letras), coloca a seguinte questão: “De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar mudanças ?”

Espero que, ao colocar nosso frágil teto de vidro à prova, a pandemia sirva para abrir nossos olhos e mentes para a necessidade de profundas discussões que desenvolvam políticas públicas para enfrentar o envelhecimento com mais sabedoria em todas as frentes necessárias. Cuidem-se!

E fiquem em casa.

Qual a primeira vez que te inspira ?

O ‘mito de mulherão da porra’ vem daquela mulher independente, que viaja sozinha, faz o que bem entender, paga suas contas, se contenta com a própria companhia, curte a vida do jeito que quer…

Nada parece lhe abalar, ela é inteligente, competente, boa profissional. Tem também um corpão e isso não tem nada a ver com magreza, pois ela se acha linda do jeito que é. Enfim, nada lhe tira a paz de espírito.

Agora fala sério.

Que mulheres se encaixam completamente no padrão ali em cima descrito? Isso é mito.

Até as divas que nos inspiram têm dias de cão.

Imagina a Fernanda Montenegro, do alto de seus bem vividos 89 anos, e tendo de lidar com a repercussão do ataque de um imbecil feito o Roberto Alvim.

Pois é. Nenhuma mulher é todo dia tão forte assim. Nenhum ser humano é assim.  Tem dia que a gente só se sente mesmo um nadica de nada nesse mundão. E não tem problema.

De vez em quando, isso acontece.  

“Vai chorar, vai sofrer, e você não merece. Mas isso acontece”,  já cantava lindamente Cartola!

Num momento delicado como o atual pode ser que isso aconteça com mais frequência. Muitas mulheres ainda estão atravessando a ponte entre o cuidar e o assumir suas vidas nas próprias mãos. E nem sempre é fácil desconstruir conceitos errôneos sobre gênero e –  sobretudo idade – ao longo desse percurso.  

Todo esse estigma ainda pesa muito mais na trajetória feminina e não é papo de mulherzinha. Estudos comprovam, conforme já discutimos aqui em Na questão de sobrevivência as mulheres são o sexo mais forte.

Virando o jogo

Mas ao decidir mudar essa situação, muitas de nós criaram novos negócios e formas alternativas de empreender; trocaram de marcha e turbinaram a carreira, fazendo a diferença para si e para a sociedade.

Tanto é assim que pela primeira vez, a Forbes lança a lista “50 over 50”,  para reconhecer mulheres que inspiram com mais de 50 anos. Uma tendência num mundo que envelhece a passos largos.

E foi inspirada nessa iniciativa que comecei a pensar em como, em pleno 2020, ainda é importante chacoalhar a sociedade para o Dia Internacional da Mulher. Então, fiz uma lista de primeiras vezes que vão sempre me inspirar a mudar e a transgredir quando necessário. 

Ah, só para lembrar, nem todos os feitos importantes precisam estar à altura de uma dupla como Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, cientistas que lideraram o sequenciamento do coronavírus. Uma das últimas coisas que fiz pela primeira vez, por exemplo, e extremamente marcante, foi dar banho na minha mãe no hospital. 

Não que não tivesse feito outras coisas libertárias como colocar um piercing aos 40; ou correr a primeira maratona em Roma aos 42; e por aí afora. É que nada se compara àquele momento. 

Uma ocasião que para ela deve ter sido muito constrangedora e, talvez até humilhante (nunca falamos sobre), mas foi capaz de ressignificar minha existência.   Foi ali que decidi voltar para perto e estreitar meus laços familiares, dando vazão a um novo papel de filha e de mulher.

Fácil nunca é. Transformar-se envolve riscos e sempre haverá perdas e ganhos.  O que importa mesmo é que apesar de todos os dias de cão, a nossa coragem de desbravar, explorar, desobstruir não esmoreça.

Confere, então, as primeiras vezes desses mulherões!

#Pela primeira vez, uma mulher realizou o sonho de ser mãe aos 61 anos no interior do Brasil

#Pela primeira vez, Olodum desfilou sob comando de uma mulher

#Pela primeira vez, uma mulher foi empossada presidente do TST

#Pela primeira vez, uma bisavó centenária bate o recorde mundial de natação

#Pela primeira vez, a Grécia elege uma mulher como presidente

#Pela primeira vez, uma mulher é aceita em academia naval do Japão

#Pela primera vez, uma mulher leva o Nobel de Física

E você? Qual foi sua última primeira vez?

Crônica de uma resiliência anunciada

Por Adi Leite *

Estou me sentindo pressionada, me disse uma amiga.

Você não se sente?

Estamos envelhecendo.

Ninguém me trata mais de “você”.

É sempre “senhora”. 

Com licença senhora? 

Senhora, posso ajudar? 

Sem contar quando algum engraçadinho com aquela cara de, porra vou ter que dar o lugar prá essa velha, não ousa oferecer o lugar no metrô.

Hahahahahahaha.

Não é prá rir não. É triste.

O que mais me incomoda?

Hum, estar  envelhecendo incomoda mais.

Você já percebeu que até as palavras usadas estão mudando?

Inovação, disrupção, impacto e infinitas outras, parecem ter saído de uma caixa escondida embaixo da cama de um escritor de dicionários frustrado. De repente alguém descobriu e resolveu libertá-las e aí virou essa loucura, todo mundo fica repetindo. Parece coisa de criança, sabe?

Não.

Não? Sabe quando criança aprende uma palavra e fica repetindo o dia inteiro?

Meu filho ficava repentindo ombedi, ombedi, ombedi, ombedi, e ninguém sabia o que era, um dia andando na rua ele aponta para um ônibus e fala ombedi.

Agora parece a mesma coisa. Disrupção prá lá, impactar prá cá. 

E o saco é que temos que aprender isso para não parecermos ignorantes.

Aprendendo coisas novas?

Humpf! Prá que eu preciso aprender coisas novas se eu estou ficando velha?

Meu corpo mudou. Meu cabelo mudou. 

A maneira como meu corpo se relaciona com o mundo mudou. A maneira como o mundo se relaciona com o meu corpo também mudou.

Não, não estou triste com isso.

Estou com medo.

Vira e mexe algum amigo me diz que eu preciso me reinventar. 

Já fiz isso algumas vezes nos últimos cinco anos. 

Desisti da última reinvenção no meio do caminho.

Me disseram que eu tinha que ser mais resiliente.

RESILIENTE?

WHATAHELL????

O que eu ia fazer que desisti no meio?

Me disseram que eu deveria ser influencer digital.

E fazer um esforço desumano para ter um milhão de pessoas me seguindo.

Surtei. Prá que ter um milhão de pessoas me seguindo? 

Nunca gostei disso. Nunca gostei de dar satisfação da minha vida para ninguém. Já pensou que horror. Um milhão de pessoas te seguindo, sabendo tudo que você come, com quem você se encontra e além de tudo podendo opinar a respeito?

Credo, que horror!

Não quero ser influencer digital.

Será que não dá pra ser apenas eu?

Só quero escrever sobre o que penso e gosto, afinal, escrever foi a maneira com que eu construí a minha vida pessoal, financeira e profissional, pelo menos até agora.

Essa coisa de influencer me faz pensar que nunca mais poderei ser livre.

Não quero contar para meus seguidores o que eu estou comendo. Acho no mínimo deselegante.

Se eu estou em crise? 

Na verdade estou pensando sobre a passagem de tempo, só isso.

Quer dizer, não é só isso.

Esses dias em uma rede social vi um texto que oferecia uma forma de lidar com o envelhecimento em dez lições.

Desconfiei. Mesmo assim fui conferir. 

Minha desconfiança subiu cerca de mil por cento.

Como pode haver uma fórmula pré-determinada para lidar com a passagem do tempo?

Uma fórmula em dez lições?

Vivi até agora  cinquenta e cinco anos e não sei se dez lições fariam alguma diferença nesse momento da minha vida.

Não, não estou desacreditando o autor do texto. Sorry.

É que na verdade, o mundo e a vida ficaram tão complexos, mas tão complexos que não consigo acreditar que seguindo uma cartilha eu consiga lidar com essa pressão.

Que pressão? Você não percebe? 

Envelhecer sendo seguido por um milhão de influencers oferecendo  fórmulas mágicas de sucesso. 

Hummm, não dá.

Não, não sou contra. Mas, prá mim não dá.

O que você vai fazer então?

Prá ser sincera, comecei uma pesquisa sobre o significado da palavra RESILIÊNCIA.

O que eu achei?

Faz sentido.

Fiquei viajando que esta palavra poderia ter um formato.

Formato?

Sim, eu poderia ficar repentindo como meu filho fazia: Ombedi, ombedi, ombedi.

No meu caso, resiliência, resiliência, resiliência e que poderia fazer isso imaginando uma porta aberta para apontar meu dedo.

*ADI LEITE é um amigo querido, jornalista, repórter fotográfico, autor da foto que ilustra essa crônica, e diretor da Reativação Insights e Desenvolvimento Humano.

Consequências da adoção de idosos: um debate necessário

Quem não se lembra do velho comercial de margarina, muito popular nos anos 90, que originou o termo “Família Doriana”, que ostentava uma família tradicional e feliz? Como se vê, não é de hoje que o mito de que toda a família é maravilhosa precisa ser desconstruído. Porque não é. Agora, um projeto de lei propõe adoção de idosos por famílias substitutas e abre também a oportunidade de dialogar sobre o planejamento de moradia para idosos.

É algo que precisa ser repensado diante da estrutura familiar contemporânea e das diversas necessidades da população envelhecida.

O projeto 5532, de autoria do deputado Ossésio Silva (Republicanos-PE), estabelece modelos de acolhimento, curatela ou adoção em famílias substitutas. A proposta determina que se peça ao idoso lúcido o consentimento dele antes de encaminhá-lo à nova família. Obriga ainda que haja o acompanhamento posterior por uma equipe multiprofissional.

A ideia foi abraçada pela ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. E, à primeira vista, pode até parecer algo benevolente.

Mas marcos legais, como o Estatuto do Idoso e a Política Nacional dos Idosos, já existem e abarcam uma infinidade de questões mais urgentes que sequer são cumpridas. E para que uma nova legislação, quando não se dá conta das já existentes, é a primeira pergunta que deve ser feita.

Responsabilidade compartilhada

De toda forma, está previsto que a responsabilidade de cuidar deve ser compartilhada entre Estado, sociedade e família. O que a adoção faria não seria, mais uma vez, jogar todo o ônus nas famílias, que hoje não têm mais condições de manter alguém em casa como cuidador? As mulheres que antigamente faziam esse papel trabalham e o orçamento familiar depende cada vez mais dessa mão de obra.

Outra questão importante é como conceituar o termo “adoção”. Envolveria levar para casa? Tão somente apadrinhar? Como se daria esse processo? O que significa adotar uma pessoa madura, com experiência de vida, sem correr o risco de infantilizá-la?

Ponto não esclarecido ainda é quem poderá escolher ser adotado: idosos interditados pelos filhos, abandonados pelas famílias, somente em situações de vulnerabilidade?  E, em casos nos quais o idoso começa a demenciar depois de adotado, como se dará os cuidados? Será mantido na família adotante? Será devolvido? Mas para quem?

Carga emocional é alta

Mesmo em condições saudáveis, quais serão as consequências de se levar um idoso para casa? É notório que o trabalho de cuidador não é fácil. Envolve custos financeiros e emocionais altíssimos. 

E não está claro no projeto de lei, como destaca a advogada Nátalia Verdi, mestre em Gerontologia e especialista em Direito Médico e Hospitalar, questões como as patrimoniais. Em caso de morte, quem serão os herdeiros?  “É um projeto que tende a ampliar a judicialização.” 

Concorda com ela a advogada Karime Costalunga, membro da Comissão de Direito de Família e Sucessões do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp). “O papel do cuidador extrapola alguns limites e há uma linha tênue nessa relação. Já tive inúmeros casos em que após a morte do idoso, houve requisição do contratado pela aposentadoria do mesmo por união estável”, conta.

Questão financeira estimula violência

Especialistas como Karime e Natalia são unânimes: questões financeiras podem estimular ainda mais a violência. E fazem ainda um alerta. A adoção não pode ser vista como contraponto à Instituição de Longa Permanência para Idoso (ILPI).

Esses locais precisam parar de ser vistos como depósitos de velhos e ambientes de mendicância. Precisam começar a serem tratados como moradias com condições de dar suporte aos idosos diante de todas as suas necessidades.  

“Os esforços do governo deveriam ser concentrados nessas casas de acolhimento, que recebem idosos em situação de abandono”, observa o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil.

A demanda que existe é por cuidados. E é uma demanda grande. Pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que apenas 6,6% das instituições de acolhimento do País são públicas.

A maioria delas é mantida pelos municípios e apenas duas são administradas pelo governo federal. Ao todo, 62.980 idosos vivem em abrigos públicos e particulares, segundo o Ministério da Cidadania.

Passou da hora de olhar melhor para as ILPIs e de investir em moradias alternativas.

Leia também: Compartilhar moradia melhora qualidade de vida

Agenda 2030: um instrumento para provocar o senso de coletividade

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável podem ajudar a alinhar as causas do envelhecimento numa única direção e dar força aos movimentos para inclusão nos programas dos próximos prefeitos

Quando se vive numa cidade grande como São Paulo, que esfrega na cara da gente a todo o momento, que você compartilha o mesmo espaço com outras pessoas, a civilidade tende a crescer se não por educação ou pela vergonha, pelo peso no bolso.

Um exemplo recente é o caso da proibição de plásticos no comércio da cidade, com multa de até R$ 8 mil. Bem ou mal, o método conscientiza ao abrir o debate. Mas fora dos grandes centros há muito contraste.  É a mesma coisa com o envelhecimento populacional.

O tema – e os desafios para a saúde pública derivados dele – ganharam força na agenda nacional nos últimos anos. E não é porque virou moda ser um digital influencer maduro e o mercado finalmente despertou para o potencial dessa turma. É de fato um assunto relevante, porque o processo de transição demográfica, somado ao aumento da expectativa de vida e da queda na taxa de natalidade, já provoca mudanças que afetam todo mundo: quem envelhece, a família de quem envelhece, a sociedade, os setores público e privado.

Mais avós do que netos

Já há no mundo mais idosos que crianças, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).  São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. As estimativas apontam para um crescente desequilíbrio entre os mais velhos e os mais jovens até 2050 – haverá duas pessoas com mais de 65 anos para cada uma entre zero e quatro anos.

Esta mudança na relação intergeracional é inédita, pois o mundo sempre teve uma estrutura etária rejuvenescida, mas está em processo acelerado de envelhecimento populacional e terá uma estrutura, inquestionavelmente, envelhecida antes do fim deste século. No caso brasileiro, o processo é ainda mais precoce e acelerado.

No Brasil, o número de idosos de 65 anos e mais de idade ultrapassou o número de crianças pequenas de 0 a 4 anos no ano de 2013 e vai superar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos em 2037. Portanto, o Brasil está mais adiantado no processo de envelhecimento do que a média mundial e será um País, efetivamente, idoso a partir de 2037.

Menos eu, mais nós

Não podemos demorar em aprender a lidar com isso o tanto quanto demoramos sobre a importância de se preservar o meio ambiente – que deveria ser a causa primária de tudo já que sem recursos não existe vida.  Há muito pouco senso coletivo fora dos grandes centros. É preciso provocá-lo.

Fazer entender que a demografia afeta todos os aspectos de nossas vidas. Basta olhar para as pessoas nas ruas, para as casas, para o trânsito, para o consumo.  E que as políticas públicas para promoção da saúde dos idosos desempenham papel crucial na mitigação dos efeitos do envelhecimento da população.

Simplesmente porque indivíduos mais saudáveis são mais capazes de continuar trabalhando por mais tempo e com mais energia, o que poderia resultar em menores custos para sistemas de saúde e previdenciário, por exemplo.

Por isso, é importante encontrar alternativas pautadas pelos interesses coletivos e, sobretudo, assegurar direitos já conquistados, como a gratuidade universal do Sistema Único de Saúde (SUS), que corre riscos de um desmonte neste governo. Para citar um exemplo apenas.

Uma única direção

Isso vale para qualquer causa que se abrace. Está ai o mérito da Agenda 2030 ao reunir os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ela ajuda ao reconhecer que o desenvolvimento só será possível se incluir pessoas de todas as idades e de todos os lugares, numa enorme parceria da sociedade civil organizada.

Também nos guia na hora de consultar os programas de governo dos candidatos que concorrem às próximas eleições municipais. Até que ponto eles estarão coordenados com essa agenda global?

Os ODS servem justamente para alinhar nossas causas e lutas numa única direção. Além disso, dão força aos movimentos que, no fim das contas, deveriam ter o mesmo propósito de não deixar ninguém para trás.