Agenda 2030: um instrumento para provocar o senso de coletividade

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável podem ajudar a alinhar as causas do envelhecimento numa única direção e dar força aos movimentos para inclusão nos programas dos próximos prefeitos

Quando se vive numa cidade grande como São Paulo, que esfrega na cara da gente a todo o momento, que você compartilha o mesmo espaço com outras pessoas, a civilidade tende a crescer se não por educação ou pela vergonha, pelo peso no bolso.

Um exemplo recente é o caso da proibição de plásticos no comércio da cidade, com multa de até R$ 8 mil. Bem ou mal, o método conscientiza ao abrir o debate. Mas fora dos grandes centros há muito contraste.  É a mesma coisa com o envelhecimento populacional.

O tema – e os desafios para a saúde pública derivados dele – ganharam força na agenda nacional nos últimos anos. E não é porque virou moda ser um digital influencer maduro e o mercado finalmente despertou para o potencial dessa turma. É de fato um assunto relevante, porque o processo de transição demográfica, somado ao aumento da expectativa de vida e da queda na taxa de natalidade, já provoca mudanças que afetam todo mundo: quem envelhece, a família de quem envelhece, a bem como os setores público e privado.

Mais avós do que netos

Já há no mundo mais idosos que crianças, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).  São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. As estimativas apontam para um crescente desequilíbrio entre os mais velhos e os mais jovens até 2050 – haverá duas pessoas com mais de 65 anos para cada uma entre zero e quatro anos.

Esta mudança na relação intergeracional é inédita, pois o mundo sempre teve uma estrutura etária rejuvenescida, mas está em processo acelerado de envelhecimento populacional e terá uma estrutura, inquestionavelmente, envelhecida antes do fim deste século. No caso brasileiro, o processo é ainda mais precoce e acelerado.

No Brasil, o número de idosos de 65 anos e mais de idade ultrapassou o número de crianças pequenas de 0 a 4 anos no ano de 2013 e vai superar o número de crianças e jovens de 0 a 14 anos em 2037. Portanto, o Brasil está mais adiantado no processo de envelhecimento do que a média mundial e será um País, efetivamente, idoso a partir de 2037.

Menos eu, mais nós

Não podemos demorar em aprender a lidar com isso o tanto quanto demoramos sobre a importância de se preservar o meio ambiente – que deveria ser a causa primária de tudo já que sem recursos não existe vida.  Há muito pouco senso coletivo fora dos grandes centros. É preciso provocá-lo.

Fazer entender que a demografia afeta todos os aspectos de nossas vidas. Basta olhar para as pessoas nas ruas, para as casas, para o trânsito, para o consumo.  E que as políticas públicas para promoção da saúde dos idosos desempenham papel crucial na mitigação dos efeitos do envelhecimento da população.

Simplesmente porque indivíduos mais saudáveis são mais capazes de continuar trabalhando por mais tempo e com mais energia, o que poderia resultar em menores custos para sistemas de saúde e previdenciário, por exemplo.

Por isso, é importante encontrar alternativas pautadas pelos interesses coletivos e, sobretudo, assegurar direitos já conquistados, como a gratuidade universal do Sistema Único de Saúde (SUS), que corre riscos de um desmonte neste governo. Para citar um exemplo apenas.

Uma única direção

Isso vale para qualquer causa que se abrace. Está ai o mérito da Agenda 2030 ao reunir os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ela ajuda ao reconhecer que o desenvolvimento só será possível se incluir pessoas de todas as idades e de todos os lugares, numa enorme parceria da sociedade civil organizada.

Também nos guia na hora de consultar os programas de governo dos candidatos que concorrem às próximas eleições municipais. Até que ponto eles estarão coordenados com essa agenda global?

Os ODS servem justamente para alinhar nossas causas e lutas numa única direção. Além disso, dão força aos movimentos que, no fim das contas, deveriam ter o mesmo propósito de não deixar ninguém para trás.

O perigo mora dentro de casa

Mortes por queda quadruplicaram em São Paulo na última década, se aproximando do número de homicídios. Os dados, do Boletim Epidemiológico Paulista, divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde, não são novos, mas juntamente com a comoção causada pela morte do apresentador Gugu Liberato, aos 60 anos, abrem oportunidades para o debate sobre um grave problema de Saúde Pública.

É que a queda está entre as principais responsáveis pela morte da população idosa e também pode ser causada por sintomas de DCNTs (Doenças Crônicas Não Transmissíveis), caso das cardiorrespiratórias, do câncer e da depressão. Aparentemente não foi esse o caso de Gugu. O apresentador teria apenas tomado uma decisão errada ao subir em um local perigoso.

Mas mesmo que estivesse em perfeita condições físicas e cognitivas, por que negligenciar os riscos? Gugu era celebridade, mas quantos anônimos não seguem os mesmos passos? E, assim como ocorreu com ele, a própria casa quase sempre é a principal armadilha. 

Nem precisa se aventurar muito. A simples passagem de um cômodo a outro pode se tornar um problema, provocando tombos que causam óbito ou danos irreversíveis. Por isso, identificar previamente os fatores de risco pode contribuir muito para a prevenção. São duas as causas que costumam provocar acidentes:

#Intrínsecas

Quando se relacionam com as transformações fisiológicas do envelhecimento, patologias específicas ou mesmo uso de medicamentos. Exemplos: postura inadequada, doença de Parkinson, osteoporose e depressão.

#Extrínsecas

Quando correspondem ao ambiente de interação do idoso. Exemplos: superfícies escorregadias; calçados não adaptados; iluminação inadequada; escadas sem corrimões; banheiros não adaptados.

Casa segura

Em decorrência das causas extrínsecas, surge por volta dos anos 2000 a arquitetura para a maturidade. E profissionais como Cybele Barros, autora do projeto arquitetônico Casa Segura, são cada vez mais requisitados para desenvolver políticas públicas. O trabalho dela foi aprovado pelo Ministério da Saúde e passou a fazer parte do Programa de Atenção Integral à Saúde do Idoso.

História parecida tem a arquiteta Flávia Raniere. Após adaptar diversos projetos, ela se especializou no envelhecimento da população.  “Os avanços tecnológicos e arquitetônicos vêm se tornando grandes aliados na rotina desse público”, acredita.

Para ajudar a entender a importância de uma casa segura, Flávia mapeou alguns fatores que parecem bobos ou irrelevantes, mas trazem chances de machucados ou tombos. Veja quais são:

#Falta de luz adequada

Conforme a idade avança, a visão também envelhece e sofre degeneração. Usar óculos é bastante comum, mas mesmo assim, não impossibilita a limitação visual. Sem enxergar clara e nitidamente, há mais chances de tropeçar, escorregar e bater em móveis.

A solução

Exagere no número de pontos de luzes. Quanto mais, melhor. Abuse de pendentes, arandelas, abajures, luminárias de mesa e spot de piso, que aumentam a iluminação de paredes, escadas e corredores. Para esses pontos de apoios, prefira opções com dimer, que permite o ajuste gradual da intensidade da luz. Para quem puder investir, um sistema de automação pode ser instalado para quando a pessoa se levantar do sofá ou da cama no escuro, uma luz de vigília no piso é acionada, ajudando a se localizar e se deslocar, por exemplo, até o banheiro.

#Quinas

Com o tempo, a derme, camada intermediária da pele, perde elasticidade, hidratação e oleosidade. Isso resulta em uma pele mais fina, frágil e mais vulnerável a machucados, infecções e doenças em geral. Uma simples esbarrada nas quinas dos móveis pode machucar a pele mais delicada. E um simples machucadinho pode se tornar um grande problema.

A solução

Aposte nas quinas arredondadas. Por não terem as temíveis pontas, não ocasionam lesões mais graves. Se não puder trocar o móvel, em lojas de produtos para casa é possível encontrar adaptadores de silicone, que são facilmente acoplados nas quinas tradicionais e fazem o serviço.

# Pisos e tapetes

Escorregar no chão liso e tropeçar em tapetes são acidentes comuns em qualquer casa. Onde moram pessoas mais velhas, com a mobilidade já comprometida, esses acontecimentos são mais recorrentes. Um piso escorregadio e tapetes mal posicionados podem causar mais do que uma simples queda.

A solução

Pisos emborrachados e vinílicos antiderrapantes, por exemplo, dificultam as quedas. Eles são encontrados em várias padronagens e cores. Os tapetes têm uma função importante de acústica e limitação de espaço e não precisam ser eliminados, apenas usados de maneira estratégica. Alinhe-os com o piso, sem desnível, e só os posicione em lugares que garantam a segurança, por exemplo, cobrindo todo o piso da sala.

#Móveis não adaptados

Camas altas demais ou baixas demais exigem um esforço que nem todo mundo tem quando atinge certa idade. Cadeiras com rodinhas podem virar e derrubar quem estiver sentado. Bancadas baixas impedem o encaixe de uma cadeira de rodas. Quando os móveis de uma casa não são adaptados para quem mora nela, viver ali vira um tormento. Além de riscos à saúde, compromete a mobilidade do morador.

A solução

Opte por elementos com contraste, cores vibrantes e formas diferentes. Assim, os objetos da casa ficam mais visíveis e fáceis de serem desviados.

E então? Com toda essa informação disponível já dá para tomar alguma precaução, não é?

Saiba mais:

Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa

Manual de prevenção de quedas da pessoa idosa

Saúde da pessoa idosa: prevenção e promoção à saúde integral

Aprender a (e na) velhice é bom antídoto para doenças mentais

Sabemos que chegar bem à velhice implica em perdas e ganhos. Mas quem aprende a aceitar e a valorizar mais a maturidade tende a enfrentar a senescência com melhor qualidade de vida. Assim, educar as diversas gerações para a compreensão do processo de envelhecimento, marcado por transformações biopsicossociais, é importante instrumento de promoção da longevidade ativa com tudo que a compõe, inclusive saúde mental.

Já é sabido que fatores como o acesso à educação, condição socioeconômica e gênero influenciam a velhice. Por isso, estimular o desenvolvimento de competências e recursos para o enfrentamento das vulnerabilidades individuais e ambientais dessa fase da vida é importante para preservação cognitiva, sem a qual não existe autonomia e independência.

É uma questão urgente diante do avanço de diagnósticos de quadros demenciais. A demência já afeta quase 50 milhões de indivíduos de baixa e média renda, segundo Organização Mundial da Saúde. Estima-se que em 2030 esse número ultrapasse 75 milhões, com custo global dos cuidados em demência estimado em mais de US$ 1 trilhão. Os dados são do relatório do Plano Global de Ações em Demências, que destaca ainda ser o Alzheimer o tipo de demência de maior incidência. 

Está comprovado que a idade é um fator de risco não genético de grande potencial. E embora as pesquisas ainda sejam limitadas, há evidências suficientes para intervir com propostas para um envelhecimento digno e significativo para a população, sendo algo que todos os países podem fazer, independentemente de situação atual ou do grau de desenvolvimento econômico.

Estudo apresentado no Congresso de Geriatria e Gerontologia, da pesquisadora Locimara Ramos Kroef, psicóloga da Universidade para a Terceira Idade da UFRGS, destaca que o saber adquirido pode realizar uma reformulação no contexto social e pessoal da velhice, trazendo uma prevenção mais eficiente para evitar o agravamento dos problemas próprios do envelhecimento, caso da demência.

Então porque não englobar também as fases que antecedem o envelhecimento na construção da cultura de aceitação da velhice?  Aprender a envelhecer pode ser tão importante quanto compreender as particularidades dos idosos, que envolvem transtornos frequentes de depressão, ansiedade e suicídio.

Vale destacar novamente que as oportunidades educacionais são importantes antecedentes de ganhos evolutivos na velhice porque intensificam trocas de contatos e promovem aperfeiçoamento pessoal. Desenvolver sentimentos como autoconfiança e amor próprio são tão essenciais quanto recursos para novas pesquisas na luta contra os transtornos mentais.

Entre as iniciativas que favorecem a prevenção destacam-se a garantia de acesso do idoso a políticas públicas já implementadas, como as Universidades para a Terceira Idade (UniAtis). Trata-se de uma ação que favorece a intergeracionalidade, ferramenta eficiente para a promoção da saúde integral.

Promover o engajamento em grupos de atividades físicas também melhora a capacidade cognitiva. Aliás, qualquer tipo de lazer promove envolvimento social e não demanda grandes investimentos. Um caso bacana é o sarau literário para incentivar a escrita e a leitura de textos próprios ou de autores diversos. Algo que o grupo Estação LongevIDADE Ativa tem feito por meio do Facebook.

Nesse caminho, a tecnologia ajuda muito. Aprender a jogar, bem como aprender a programar os próprios jogos online têm dado bons resultados. Isso porque a estimulação mental faz nascer novos neurônios.

Disseminar eventos como a Virada da Maturidade, que acontece anualmente em grandes centros como a cidade de São Paulo, é outra ótima ferramenta intergeracional para educar e conscientizar toda a população da importância de aceitar bem o envelhecer. Algo inerente à natureza humana.

Prontos para encarar a longevidade com independência financeira?

Rebecca Bloom é uma londrina com um péssimo hábito. É uma consumidora compulsiva. Apesar de ser jornalista especializada em mercado financeiro, não consegue controlar as próprias finanças. Qualquer coincidência é mera semelhança! Endividada até a alma, ela vive fugindo dos credores e criando fórmulas mirabolantes para pagar as contas. Esse é o enredo do livro  “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, de Sophie Kinsell (Record, 2018), que também inspirou um filme.

E se as (os) Beckys da vida chegassem aos 50 com o mesmo comportamento?

É algo a se pensar já que o custo de vida, a partir de certa idade, tende a aumentar. E o que fazer para recuperar o tempo perdido e manter certa qualidade de vida após os 65, quando a baixa capacidade de gerar renda via trabalho declina? É do desejo de encontrar respostas para essa equação que nasceu a Bolso50+, startup ainda em fase de validação, mas que deve compilar dados interessantes sobre o comportamento financeiro dos maduros.

Para isso, seu fundador, Uri Levin, egresso da área de Investiment Bank, está à frente do projeto que especializa a gestão financeira para os maduros.  Assim, ele oferta uma primeira análise gratuitamente para quem deseja se organizar. “A ideia é criar uma base de dados para um aplicativo que ajude essa parcela da população a planejar um futuro mais tranquilidade”, conta.

É, de fato, algo que requer atenção.  Como já tratado aqui no artigo Longevidade do brasileiro implica num desafio econômico maior, é um planejamento essencial para não ficar dependente da ajuda de familiares, de amigos e até do próprio Estado. Assim, quanto antes se começar um programa de poupança, melhor.

Sabemos que é complicado guardar dinheiro com uma renda que, às vezes, mal cobre os custos mensais. E há de se levar em conta ainda que não são poucos os casos em que os papéis se inverteram e colocaram o aposentado como o único arrimo da família, diante do atual mercado de trabalho. Por isso, a ideia de Uri traz certa luz ao fim do túnel, ao encontrar brechas no orçamento, mesmo enxuto, para reduzir despesas fixas, além da educação para mudar os hábitos.

De grão em grão

Um exemplo clássico que ele cita, e que eu testei na prática, é a revisão do plano de celular. Ligar para as operadoras de telecomunicações, sempre exigiu muita paciência e certo jogo de cintura. Imagina, então, para quem desconhece o atendimento feito via Inteligência Artificial, que, na prática, ainda deixa muito a desejar diante das benesses todas prometidas pela tecnologia. Na minha experiência, a negociação com a operadora, resultou em maior velocidade de internet e redução de 50 reais na mensalidade. Ou seja, em 12 meses terei poupado 600 reais.

Mas para cortar gastos desnecessários é preciso, antes de tudo, detectá-los. É assim também com a nossa saúde financeira. Ao realizar essa avaliação, a gente se surpreende com o impacto que certos gastos desnecessários causam no orçamento.  

E tem muita coisa que dá para se abrir mão ou apenas deixar para depois.  Um jeito de, aos poucos, mudar aquele comportamento que ainda guarda resquícios de uma cultura de hiperinflação. Além disso, faz muito pouco tempo que as pessoas começaram a conscientizar sobre a velocidade da transição demográfica e se questionar sobre o que fazer com as dezenas de anos a mais de vida.

Acredito que pensar a respeito da longevidade envolve também uma maior consciência dos impactos e dos custos sociais e ambientais de tudo que consumimos no nosso dia a dia. Pode parecer pouco se analisado isoladamente, mas quando computado ao longo de uma vida é muito significativo.

O consumo consciente é um instrumento de bem-estar e não um fim em si mesmo. Parte da premissa de que devemos consumir para viver mais e não viver mais para consumir. É importante que os idosos, como consumidores, tenham claro o poder que tem ao fazer suas escolhas.

Na questão da sobrevivência as mulheres são o sexo mais forte

Mais do que as estatísticas, as histórias de vida com as quais nos deparamos no cotidiano mostram que as mulheres são o sexo mais forte quando se trata não só de longevidade, mas de sobrevivência. E não é só porque tradicionalmente se cuidam mais. Existe uma combinação de fatores históricos que leva e eleva a discussão da feminização da velhice para outros patamares. Porque como já é sabido, viver mais não significa necessariamente viver melhor.

Documento Envelhecimento saudável: uma política de saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS), mostra que as mulheres até possuem a vantagem da vida longa, mas são vítimas mais frequentes da violência doméstica e de discriminação no acesso à educação, salário, alimentação, trabalho significativo, assistência à saúde, heranças, medidas de seguro social e poder político.

Assim, as desigualdades por sexo promovidas pelas condições estruturais e socioeconômicas em muitas situações alteram além das condições de saúde, renda e dinâmica familiar. Por isso, a parcela feminina da população idosa tem provocado maior impacto nas demandas por políticas públicas e prestação de serviços de proteção social.

Inspiração para lidar com a nova realidade

O problema não está restrito à população brasileira e um olhar sob o que tem sido feito globalmente para enfrentar esse fenômeno da transição demográfica pode inspirar a construção de uma sociedade mais preparada para lidar com essa realidade.Segundo as estatísticas, em 2002 existiam 678 homens para cada mil mulheres idosas no mundo. É bem maior o número de mulheres idosas, e as expectativas são as de que as mulheres vivam, em média, de cinco a sete anos mais que os homens.

A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2040 aponta um número de 23,99 milhões de homens e 30,19 milhões de mulheres, uma diferença de 6,2 milhões de mulheres em relação à população idosa masculina. A razão de sexo deve cair para 79 homens para cada 100 mulheres entre a população idosa. Ou seja, nos próximos anos vai crescer o excedente de mulheres em cada grupo etário do topo da pirâmide.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres vivem, em média, sete anos a mais do que os homens no país. Além disso, enquanto a expectativa de vida das mulheres é de 78,6 anos, a expectativa de vida da população masculina é de 71,3 anos. Isso ocorre porque as mulheres, na maioria das vezes, possuem hábitos mais saudáveis do que os homens, além de procurarem com mais frequência acompanhamento médico, o que permite a identificação e o tratamento de possíveis doenças.

Outro fator de impacto é o aumento da criminalidade no Brasil, que tem sido responsável pela redução da população masculina, principalmente dos jovens com idade entre 18 e 29 anos, fato que tem contribuído para esse desequilíbrio entre o número de homens e mulheres. Acompanha ainda o processo de mudança uma maior participação social feminina. É cada vez mais comum mulheres chefiando famílias e o seu ingresso no mercado de trabalho, escreve José Eustáquio Alves, pesquisador do IBGE em artigo para o Portal do Envelhecimento.

A velhice é feminina

Como resultado desse cenário, os problemas e mudanças que acompanham o envelhecimento são predominantemente femininos, pelo que se pode dizer que a velhice se feminilizou. Os aspectos do envelhecimento feminino incluem além da discriminação e gerofobia, perdas físicas e sociais, pobreza e solidão. Algo que implica em maior incidência de doenças crônico-degenerativas e estados depressivos.

Desse contingente majoritário, existe uma alta proporção de mulheres idosas que moram sozinhas em diferentes situações. Esse fato foi denominado no passado de pirâmide da solidão. Mas como morar sozinho não significa ser solitário, o denominado fenômeno da “pirâmide da solidão”, indica apenas a existência de um crescente número de mulheres idosas sem companheiros.

Um fato positivo, entretanto, é que o novo contingente de mulheres com mais de 60 anos tem revertido a desigualdade de gênero na educação, fazendo com que o nível de escolaridade do sexo feminino atualmente seja maior do que o do sexo masculino também entre a população idosa. E a sociedade brasileira precisa saber aproveitar o potencial dessas recém-chegadas à terceira idade, que possuem altos níveis educacionais, além de ricas experiências de trabalho e de vida. Os idosos e, em especial, as idosas podem se transformar em fonte de sabedoria e difusão de conhecimentos para toda a sociedade.

Essa tal sororidade

É, porém, essencial uma reflexão nesse caminho da dissolvição dos preconceitos: a relação entre as próprias mulheres. Há uma tendência latente no meio social de idosas cuidando de outras idosas.

Assim, além de questionar as razões que levam mulheres brasileiras a aceitar e fortalecer, com seus medos e inseguranças, os preconceitos com relação ao envelhecimento feminino, é preciso uma mudança no modo como enxergamos e julgamos umas às outras, a partir do conceito da sororidade, para tecer nossas vidas com liberdade e apoio.

Outro fato a se considerar é que a maioria das idosas de hoje vêm de uma juventude dura, carregada por um estilo de vida familiar completamente diferente do cotidiano da atualidade. Muitas sequer tiveram direto de escolhas. Diante da vida moderna, enfrentam um choque cultural e tendem a se angustiar. 

Por isso, a questão da saúde mental é cada vez mais preocupante e demanda políticas públicas mais consistentes, voltadas para a feminização da velhice. Um trabalho de ressocialização, por exemplo, é uma alternativa viável para as mulheres longevas encarem o envelhecimento como um momento em que dá para realizar sonhos, viajar, estudar e ampliar seus horizontes.

O que os nossos nonnos e nonnas ensinam sobre a velhice

A gente percebe que está ganhando o mundo quando traz o olhar de uma correspondente internacional sobre a velhice. Yes, we can!  É com muito carinho que compartilho com vocês duas boas notícias.  A primeira delas é a contribuição da minha amiga Rita Bragatto*, com esta Casa. Jornalista, psicanalista e montanhista, ela decidiu viver na Europa, com a cara e a coragem, além de uma mochila, e tem histórias ótimas para dividir depois de uma temporada entre a França e a Itália.

A segunda é o meu ingresso na primeira turma de pós-graduação de Gerontologia do Senac. Somos 50 alunos ao todo, com profissões e vivências muito diversas, o que promete enriquecer muito o diálogo por aqui. Por isso, decidi trazer o texto da Rita para reflexão. Porque o cenário atual é tão crítico e tão nebuloso que, por vezes, esvai nossa esperança de uma velhice feliz. Mas a gente aprende que as mudanças ocorrem de dentro para fora e não se pode levar tudo muito a ferro e fogo.

Assim, que tal deixar de lado a angústia provocada por problemas que não podemos resolver imediatamente, dar um alento para o coração, e aprender com os nossos nonnos?

Nas entrelinhas do envelhecimento saudável

Em 2011, o Departamento das Nações Unidas de Assuntos Econômicos e Sociais, DESA, publicou a pesquisa Perspectivas da População Mundial. Nela, a Itália ocupa a quinta posição na lista de países com maior expectativa de vida, enquanto o Brasil está no 102° lugar. É claro que a Europa, em geral, oferece melhor infraestrutura pública. Isso é um fato indiscutível. Mas como estou morando na Itália, a pergunta que me faço é: quais são as entrelinhas da velhice saudável? O que os nonos e nonas têm a me ensinar?

Tenho observado que esta longevidade também é impactada pelo estilo de vida dos italianos, que é muito diferente da grande maioria dos brasileiros. Em San Vito Romano, a pequena comune onde vivo, fica fácil identificar alguns destes fatores. Observo, por exemplo, que os idosos são muito gregários: fazem as refeições sempre em família.

Transformam as praças em grandes pontos de encontros e histórias. Tudo é motivo para tomar um café. Eles também são muito ativos, fisicamente: limpam a casa. Caminham. Carregam sacolas pesadas. Ocupam postos de trabalho. Ou seja: eles estão em pleno movimento. Inseridos no contexto social. Vivos, no sentido mais amplo da palavra. 

Nesta fase da vida, quem mantém o convívio social conserva a mente em melhor estado do que aqueles que se isolam. Pesquisas apontam que as pessoas que realizam algum tipo de atividade têm mais saúde. Isso significa que a gente pode parar de trabalhar, mas é importante não parar de viver. Temos de manter a curiosidade diante da vida, continuar explorando o mundo. O nosso horizonte não precisa se encolher à medida em que envelhecemos.

Estes pequenos recortes do estilo de vida dos italianos me fazem pensar que quando falamos em envelhecimento saudável não devemos nos restringir às preocupações com exercícios e alimentação. Mas precisamos, principalmente, estar atentos às relações sociais e aos fatores psicológicos. O isolamento e a solidão, muito comuns entre os velhos, podem transformar essa época da vida em algo triste e desencadear doenças físicas. Portanto, manter-se inserido no fluxo é essencial!

Penso que a gente pode contribuir positivamente para a longevidade dos nossos idosos até mesmo com poucas mudanças na rotina: pedindo a eles pequenos favores, como por exemplo, preparar aquela receita de família. Ensinar aos netos uma brincadeira da sua infância. Rever aquele álbum de fotografias. Colocar uma música antiga para tocar. Escutar suas histórias. Dar vida às suas memórias. 

Ou seja, é muito importante fazer com que os idosos se sintam úteis. Incluídos. Vistos. Sentir-se pertencente faz bem para a autoestima e, consequentemente, aumenta a imunidade e melhora a saúde em geral. Já que vamos viver mais, que seja com maior qualidade de vida!

*Rita Bragatto é jornalista e colabora com o Casa de Mãe.

Leia também: Inspiração sim, rótulos não…

Um novo canal para fortalecer os conselhos municipais de São Paulo

Ao mesmo tempo em que tanto acontece, parece que nada de novo se apresenta no universo da transição demográfica e do envelhecimento. Mas não é bem assim. Histórias de vida são sempre bem-vindas e nos trazem inspiração não só para escrever, como para tomar decisões que farão a diferença na nossa existência. Mas precisamos replicar essas boas experiências de alguma forma. Foi assim, conversando com o jornalista Ricardo Mucci, um ativista da maturidade moderna como eu, que despertei para o tema da importância do papel dos Conselhos de Idosos.

A nossa conversa foi justamente para entender melhor o projeto dele que, embora recém- nascido, já está estruturado para ganhar corpo. Trata-se da Rede Amigo do Idoso de São Paulo-RAISP, que envolve 132 municípios com população acima de 50 mil habitantes.

Uma iniciativa aprovada e certificada pelo Conselho Estadual do Idoso de São Paulo e pela Secretaria de Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo. E que tem a Umana, empresa do Ricardo, e a Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino, Tecnologia e Cultura (Fapetec) à frente. Algo possível porque a Umana é o embrião da UP Sênior, uma plataforma de comunicação especializada na temática da longevidade.

Entre as ações verticais que integram o projeto está o lançamento do canal de TV-web ViverAgora e da promoção da SêniorWeek; a largada dos workshops SêniorDigital e a estreia do SouDino.com, que será o protagonista de palestras, conferências e eventos. A estratégia está alicerçada na produção e difusão de conteúdos em formato de estudos, projetos, palestras, portais, cursos e vídeos.

O conceito macro é composto por três pilares: Comunicar. Incluir. Transformar.Entendemos que a qualidade da longevidade da geração sênior está diretamente ligada ao acesso à informação e ao conhecimento”,  conta Ricardo. 

A ideia é justamente atualizar e formar os Conselhos para conscientizar não só os idosos, mas toda sociedade da necessidade de discutir e implementar políticas públicas. Além disso, é preciso esclarecer para a população que os maduros superativos são exceção e não regra.

“Para a maioria a idade chega e há desafios que passam longe de bater recordes esportivos ou pular de paraquedas. São questões do dia a dia de quem enfrenta o envelhecimento na prática”.

Os conselhos funcionam como organização capaz de estreitar a relação entre o governo e sociedade civil a partir da participação popular em conjunto com a administração pública nas decisões regentes na sociedade. Um exercício de democracia na busca de soluções para os problemas sociais, com benefício da população como um todo.

Mas se os conselhos são tão fundamentais para desenvolvimento de áreas sociais porque o atual governo deu um passo atrás ao alterar seu funcionamento na esfera da União? É um retrocesso, de fato, como a maior parte das decisões que tem tomado o presidente Jair Bolsonaro.

Não à toa, a medida foi contestada pelo Grande Conselho Municipal do Idoso de São Paulo, presidido pela professora Marly Feitosa, que aprovou na sua assembleia da última semana Moção de Repúdio ao Decreto Federal 9893 de junho de 2019. Uma medida que desmontou o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa e criou um novo modelo que restringe a participação da sociedade civil.

Isso, contudo, não impede que os conselhos de âmbito municipal, permaneçam atuantes e contribuam para a definição dos planos de ação da cidade. Cada conselho atua de maneira diferente, de acordo com a realidade local. E, dentre as suas atribuições, inclui-se a defesa dos direitos dos cidadãos idosos.

Assim, mesmo quem ainda está longe da velhice também pode e precisa se mobilizar, inclusive participando desses conselhos. Muitos jovens ainda não veem que, quando lutam pelos idosos, acabam agindo em causa própria.

Os direitos que os jovens derem agora a essa população serão desfrutados por eles próprios no futuro.

Envelhecimento e desemprego: equação para novas carreiras

Somos 13 milhões de brasileiros desempregados. É muita gente fora do mercado de trabalho, apesar de o  IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicar nesta sexta (28) ligeiro aumento no número de ocupados no segundo trimestre. Essa melhora está relacionada ao aumento do trabalho informal e da subocupação, quando se trabalha menos do que se pode e se precisa. Um cenário que tem levado muitas pessoas a transformar suas dificuldades em oportunidades de negócios. É o caso daqueles que lidam na prática com as questões do envelhecimento, em seus mais diversos aspectos.

Soma-se a isso o fato de o País oferecer muito pouco aos idosos e temos a equação perfeita para o surgimento de novas atividades.  “Não é só questão de assistência e de mobilidade, é também companhia para quem se sente só”, diz Luciene Bottiglieri. E foi por experiência própria que ela, formada em Administração de Empresas e pós-graduada pela Faap em Mercadologia, decidiu mudar de rumo e criar a LB Concierge de Idosos. 

Luciene é solteira, tem 48 anos de idade e não tem filhos.  É a única mulher em uma família de 4 homens. Aprendeu a conviver com a demência progressiva do seu pai, já falecido, por 25 anos, mais o Alzheimer da sua mãe, também falecida, por 6 anos.

Arquivo pessoal LB Concierge de Idosos.

Concierge é um termo da língua francesa e é um cargo comum no ramo hoteleiro, consistindo na função do profissional responsável por atender as necessidades básicas e especiais dos hóspedes. Por se tratar de um conceito novo no Brasil, o concierge de idosos ainda é confundido com o cuidador ou com um acompanhante de idosos.

Na prática, a LB Concierge de Idosos é um  “amigo social”, um facilitar na vida do idoso nas atividades que ele deseja realizar fora de casa. “Desenvolvemos um trabalho profissional, mas que preserva o caráter humanizado em que o idoso é sempre ouvido e respeitado”. 

De acordo com ela, a tarefa é proporcionar comodidades ao idoso, e à família do mesmo, por meio da troca de experiências e um importante trabalho de assistência em atividades do cotidiano, lazer, entretenimento, bem estar e saúde. 

Não é a única a perceber uma janela de oportunidades.  Com mais de 14% das pessoas vivendo sozinhas, das quais 44,3% com mais de 60 anos de idade – segundo o próprio IBGE -,  e a taxa de desemprego nas alturas, muita gente está se oferecendo como filho ou neto de aluguel.

Foi diante desse cenário e em busca de renda extra que engenheiro civil Aloísio Melo, 46 anos, virou neto de aluguel. Não foi diferente com o segurança Everaldo Silva, 48 anos, que criou um blog para vender o serviço de filho de aluguel.

Um na Grande Vitória (ES) e outro na Grande São Paulo (SP), respectivamente, usaram a criatividade para se recolocar no mercado e driblar a crise. E, na essência, oferecem o mesmo serviço: acompanhar o contratante em compromissos e atividades. Para ambos, a ideia surgiu a partir do trabalho como motorista do aplicativo Uber. Nas corridas, perceberam a carência de companhia e de auxílio de parte do público com mais de 60 anos de idade.

Paciência é a maior aliada

Aloísio foi além do acompanhamento. Ao ensinar uma senhora a baixar o app de transporte, percebeu que tinha jeito para ensinar esse público a “decifrar” as novas tecnologias. Passou, assim, a oferecer aulas. É preciso, diz ele, trabalhar no “tempo da pessoa”. “A paciência é minha grande aliada”, garante.

Já a proposta de Everaldo é oferecer transporte diferenciado. “A ideia é acompanhar ao médico, ao supermercado, ao banco ou ao shopping para um momento de lazer, tudo dentro de uma relação de amizade e confiança”, conta.

Não é, dizem eles, que a família não tem interesse em estar no dia a dia. Mas a rotina corrida dos filhos e dos netos nem sempre permite uma brecha na agenda. E filhos e netos de aluguel podem acompanhar nas consultas médicas e até ser parceria em viagem.

Referências de custo ainda são problema

E quanto custa o serviço de netos de aluguel? Nenhum dos dois fala em valores. Dizem que tudo é negociável no contato com os clientes. Há quem cobre por hora. E existe quem feche um preço pelo serviço, aos moldes do já popular marido de aluguel, contratado para fazer pequenos reparos domésticos.

Os contratantes ainda preferem os serviços de um cuidador, que tem formação na área e é uma atividade que passou a ser regulamentada, opina Claudio Hara, diretor do Centro Dia Angels4U e mestre em gerontologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Também é difícil mensurar um valor mínimo desse tipo de acompanhamento”, diz. “Talvez por isso ainda tenha se popularizado tão devagar.”

Apesar de ser uma opção para quem precisa de companhia em compromissos, o neto de aluguel ainda é visto por alguns com desconfiança. “Aqui em Marília [interior de São Paulo] não pegou apesar da oferta voluntária”, diz Adriana Cavallaris, 48 anos, outra potencial filha de aluguel “por vocação”.

Inspiração que vem da Espanha

Por falar em trabalho voluntário, não é a primeira vez que trago inspiração da Espanha, onde a moradia compartilhada para os maduros já faz um tremendo sucesso e parte da política pública. Leia aqui. Agora outro projeto que nasceu por lá ganha destaque.  O “Adote Um Avô”, iniciativa de Alberto Cabanes, após uma visita ao próprio avô num lar para idosos, começou em Madri e se espalhou pelo país afora.

A ideia é levar companhia e alegria para milhares de idosos que vivem em asilos sem receber a visita de nenhum familiar. Mais de 1000 avôs e avós já foram “adotados”, por mais de 200 voluntários. “Tive a sorte de ser criado pelos meus avós e de aprender com eles valores valiosos. Ninguém merece estar só. E nos lares há muita solidão”, disse Alberto em entrevista ao El Mundo.

Adote um Avô: o projeto encantador que combate a solidão de idosos
Divulgação

Em Portugal, uma fotógrafa fascinada pela velhice e que fez disso seu ganha-pão. A portuguesa Sandra Ventura se especializou em fotografar idosos em centros de dia e lares. No início era ela quem entrava em contato com as instituições. Hoje, porém, são as instituições de diversas partes de Portugal que a chamam. 

Ela fotografa todos os idosos que querem ser fotografados, mesmo que não tenham famílias que depois comprem as fotos. As fotos vendidas é que geram lucro. “Fotografar crianças renderia muito mais porque os pais compram tudo e com os velhos ainda não é assim porque são vistos como inúteis ”, disse em entrevista ao portal de notícias Magg. 

Uma visão que precisa mudar, mesmo que a conta-gotas. 

Quando os problemas ambientais vieram à tona, toda a sociedade teve de passar por uma reeducação que a levou a rever seu comportamento. De lá para cá, o entendimento do ciclo de vida de um produto faz parte do cotidiano das mais diversas gerações, que entenderam a preservação do meio ambiente como algo essencial para o futuro do planeta. O desafio agora é modificar a compreensão sobre o ciclo da vida humana para ressignificar a longevidade, um fenômeno inédito para os brasileiros.

Por uma vida com mais check-ins e menos check-ups!

As viagens ocupam um papel cada vez mais importante na vida dos maduros, como consequência da busca pelo bem-estar. Mas o turismo na maturidade tem ganhado novos contornos com uma turma aventureira, que faz da diversão um projeto de vida.

Os últimos dados da Sondagem do Consumidor — Intenção de viagem, do Ministério do Turismo (Mtur), mostram que o desejo de viajar sozinho ou acompanhado é crescente na faixa etária acima de 60 anos, chegando a mais de 30% nesse grupo de viajantes. Mas os dados disponíveis estão bem desatualizados e são de novembro de 2017.

Portanto, vamos tratar do assunto com pessoas e não com números, ok?

Nem precisa ir muito longe pra encontrar gente disposta a colocar uma mochila nas costas e ganhar estrada. É o caso de uma amiga que mal completou 50 anos e está decidida a colocar tudo que tem à venda e sair por aí mundo afora num roteiro de baixo custo.

Não é a única. Como jornalista, já entrevistei duas vezes a Patrícia Martins de Andrade. É dela a foto que ilustra o texto. Uma personagem e tanto! Que tem feito viagens incríveis e, de quebra, deu uma guinada na carreira após os 50 ao se mudar pra Portugal. Leia em Tempo de (se) cuidar.

O tema é recorrente. Mas o que chama atenção é o desprendimento dessas pessoas consideradas idosas, embora eu não concorde muito com esse termo.

Hoje mesmo li texto da BBC com maduras que, depois de passar a vida cuidando da família, decidiram cuidar de si e realizar seus sonhos. Leia em Mochileiras depois dos 60.

E não é preciso muito dinheiro – graças a Deus – para quem opta por realizar mais check-ins e menos check-ups. Basta planejamento e alguns cuidados já que dependendo da idade será preciso realizar o check-up antes de fazer o ckeck-in.  

Por precaução, por recomendação médica, ou simplesmente para tranquilizar a família.

Agora, tem muita gente conhecendo destinos sensacionais e viajando so-zi-nha! Além disso, compartilham moradia e conhecem pessoas… Nada da frieza impessoal dos corredores dos hotéis.

Então, por que não?

Vamos combinar que a companhia de uma amiga pode ser fantástica, mas também pode se tornar um desastre dependendo do humor de ambas. E nem precisa ficar velha pra isso. Já me desentendi com uma amiga da faculdade numa viagem para Búzios, vejam só. E eu tinha 20 anos…

Se estiver sem namorado, então, melhor ainda…

As possibilidades de encontrar alguém nessa jornada são enormes! E aplicativos pra isso não faltam, né?

No começo é natural ficar receosa sim! Afinal, há pouco tempo mulher viajar sozinha, sem destino e sem grana, seria inviável. Mas nada mais natural que acompanhar as mudanças do mundo. E sabe que pesquisando o tema eu achei muita gente que transformou isso em trabalho.

É o caso dos Nômades Seniores, cuja aventura rendeu até livro.  Como escrevem Debbie e Michael Campbell no site, eles são de Seatlle, Washington, uma ótima cidade pra se chamar de lar. Mas que ficou pequena demais pros sonhos desse casal quando estavam à beira da aposentadoria.

“Sentimos que tínhamos mais uma aventura em nós , então em julho de 2013 alugamos nossa casa”.

Eles também venderam o veleiro e um dos carros para reduzir as coisas e as despesas. Então deram adeus à família e partiram para explorar o mundo.  O objetivo era viver o cotidiano nos lares de outras pessoas, da mesma forma que fariam se tivessem se aposentado em Seattle.

“Até agora a experiência tem sido tudo que esperávamos”.

Nesse caso, os números contam…

Desde que partiram, utilizaram mais de 200 vezes os serviços do Airbnb, visitaram mais de 250 cidades em 80 países, incluindo toda a Europa, Turquia, Israel, Rússia, México, África, Cuba, Oriente Médio, Ásia Central, Nova Zelândia, Austrália e Ásia. O resultado foi a venda da casa em Seattle para se tornarem verdadeiramente nômades.

Tiozinhos e mochileiros sim!

Veja o que fazem os Tiozinhos Mochileiros. Julio e Rosi voltaram a viajar com a mochila nas costas depois que os filhos cresceram, como quando eram jovens sem preconceitos.

E os filmes, como esse aqui embaixo, são exibidos em um canal no Canadá.

Pra não dizer que são só os gringos e os casais que têm coragem, li outro dia a história da aposentada Josefa Feitosa, de Fortaleza (CE), que se “autocondenou à liberdade”, como ela mesmo diz. E já visitou cerca de 40 países

Só volta ao Brasil para renovar o passaporte.  Divorciada, mãe de três filhos e avó de um neto, resolveu se desfazer de casa, móveis e roupas. Tudo o que tem agora cabe dentro de uma bagagem.

Assim como mantém um diário de viagem no Facebook , batizada Jô: minha casa é onde minha mala está, a aposentada também registra a vida em cadernos, desde os anos 1980.

No roteiro, experiências em Auroville, a cidade onde se vive sem dinheiro na Índia, na noite de Amsterdã, nas praias de Zanzibar e no leito do rio Nilo, no Egito.

Sabe de uma coisa? Depois de tudo que pesquisei, cheguei a conclusão que viajar não é apenas rejuvenescedor; também pode ser intelectualmente estimulante.

Eu, ao menos, sou naturalmente propensa às novas experiências e aventuras. Não há como negar que é uma baita oportunidade para mudar as coisas da monótona rotina do dia-a-dia.

E você? Se aventuraria?

Texto originalmente publicado em Dominique.

Em busca da capacidade de colaborar além das tecnologias

Eu não sei bem ao certo quando começou meu interesse pela transição demográfica e pelo impacto do envelhecimento no mundo. Mas eu sei que tenho tido oportunidades incríveis de mudar meu olhar sobre a maturidade, arregaçar as mangas e tomar atitudes práticas para colaborar com esse processo.

Até meu temor de ficar velha e não ser mais quem eu sou passou. Não é porque envelhecemos que necessariamente perdemos nossa essência. E tenho tentado fazer a lição de casa direito, cuidando do corpo e da mente, já pensando numa velhice com autonomia.

“Toda idade tem prazer e medo”, como canta Frejat em Amor pra Recomeçar.

Mas eu penso que tenho tido mais prazer do que medo…Estou feliz em perceber que o correr dos anos me fez mais tolerante e generosa. É claro que isso não é uma regra e já tratamos da diversidade no envelhecimento aqui nesta Casa.

Óbvio que o despertar para a longevidade bem vivida se intensifica dia a dia desde que passei a conviver com as peripécias da minha dupla de velhinhos. Meus pais são fonte de  inspiração para muitos dos temas aqui tratados por mim.

E se tem uma coisa que percebi ao me mudar pra uma cidade do interior por causa deles, é quão importante pode ser a colaboração nessa fase.

Conviver numa comunidade colaborativa pode nos tornar pessoas mais maleáveis. O que nos leva a aceitar os desafios impostos pelos anos e a envelhecer melhor.

E, vamos combinar, é igualzinho no mundo virtual, que abre oportunidades ímpares de colaboração.  Esse blábláblá todo pra contar que encontrei muita gente bacana por esse caminho que a minha vida tomou.

Gente que, assim como eu, se dedica a buscar soluções para este Brasil Sênior.  

E a partir do momento que temos a mesma (boa) intenção nada mais natural que exista uma colaboração entre nós. E que ela vá além da tecnologia. Assim surgiu minha parceria com a Ana, do Portal Plena, e com a Juraci, do Viva a Velhice. Um blog que como ela mesmo descreve é feito pra todas as idades.

Não podia deixar de me referir  também a colega Katia Brito, do Nova Maturidade, um canal super bacana e do qual passo a reproduzir conteúdo. É de lá as informações que trago sobre a edição do Simpósio da Longevidade Ativa.

Munidos pelas novas tecnologias

Como tem sido anualmente, foi um dia todo de debate sobre quatro pilares do envelhecimento ativo – Cuidados, Informática, Preconceito e Saúde Mental. Realizado na USP, o evento trouxe a visão de especialistas como a professora Monica Perracini, do programa de Mestrado e Doutorado em Fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Ela destacou a tecnologia como uma importante ferramenta para se viver melhor.

Como escrevi em Movimento para inclusão digital do idoso ganha força, a longevidade também tem aberto um enorme potencial para novos negócios. E atrai a atenção de startups, que apostam na criação de produtos e serviços que vão desde casas inteligentes e dispositivos de segurança até assistentes digitais de saúde e  acompanhamento social e cognitivo.

“A tecnologia pode ajudar, mas não deve substituir o contato, que transforma quem recebe e quem oferece o cuidado”, alertou Monica.

Contato virtual estimula contato real

O contato real é essencial, mas a interação digital pode ajudar e muito. É que apontou a gerontóloga Glaucia Martins de Oliveira Alvarenga. Ela trouxe dados sobre os impactos das redes sociais na redução dos riscos de isolamento e solidão.

Sua pesquisa revela que com a maior integração, os idosos descobrem novas habilidades. A inclusão digital provoca ainda a atualização e colaboração, criando outras novas redes de suporte.

A tecnologia também pautou o diálogo com Fabio Ota, CEO da International School of Game, a IS Game. Ele apresentou o trabalho da empresa que ensina adultos 50+ a desenvolver games, contribuindo para o desenvolvimento do raciocínio lógico e a prevenção do declínio cognitivo. O projeto que funciona na Unicamp, tem unidades em São Paulo, e foi financiado pela Fapesp.

O principal desafio, segundo contou, foi e ainda é o preconceito por parte dos próprios idosos. Daí a criação do projeto Cérebro Ativo, uma academia de ginástica cerebral, que aos poucos vai quebrando essa barreira.

E falando em preconceito, o professor Egídio Lima Dórea, organizador do simpósio e coordenador da USP Aberta à Terceira Idade, moderou um módulo inteirinho sobre o assunto.

Foi quando o professor Jorge Felix, do Centro de Estudos da Economia da Longevidade, abordou a tradução do termo “ageism”, criado pelo psiquiatra americano Robert Butler, em 1968.  Ele defende que o mais adequado seria adotarmos “idosismo”, e não “ageísmo” como é utilizado hoje. Isso porque, segundo Felix, o termo atual retira a ênfase da pessoa idosa, nega a velhice, não caracteriza a estigmatização e fragiliza o sujeito político na esfera pública.

Competências para o mercado de trabalho

O preconceito no mercado de trabalho foi discutido pela consultora organizacional psicodramatista, Izabela Toledo, da FESA Group. Ela trouxe o exemplo de seu avô Celso Falabella de Figueiredo Castro, que faleceu aos 103 anos, e foi lúcido até os cem.

Contando a história dele, ela destacou as competências que ele tinha e hoje são exigidas: adaptabilidade e resiliência; curiosidade pela vida e aprendizagem; coragem para experimentar e mudar; e relacionamento, além do sentido de pertencer.  

Por isso, é preciso vencer os nossos próprios preconceitos, a dificuldade de lidar com o desconhecido, e encarar o novo como uma possibilidade de aprender algo diferente.

O preconceito nas instituições de saúde existe e foi destacado pela professora Ana Cláudia Bonilha, doutoranda em Saúde Coletiva. Na sua avaliação, a saída para amenizar o problema é ajustar o modelo de atendimento ao idoso, rever valores e crenças que causam a discriminação etária e formar profissionais capacitados.  

Ana Cláudia usou o termo “gerontofobia sanitária” para a aversão do idoso no campo da saúde, que resulta na generalização de dores, uma investigação pouco minuciosa dos sintomas e o preconceito em diagnosticar doenças sexualmente transmissíveis.  

O que eu posso fazer de verdade?

Dórea também foi moderador do módulo inicialmente chamado de Saúde Mental, mas renomeado por ele de Bem-estar. Rui Afonso, do Grupo de Bem-Estar e Práticas Contemplativas do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, abordou os benefícios da meditação, para qualidade de vida.

“Adotar um novo estilo de viver, atividade física e alimentação pode retirar a pessoa do envelhecimento mal sucedido”, disse.

Ele ressaltou os aspectos positivos da atenção sustentada na prática contemplativa, quando a pessoa se concentra e relaxa a lógica, ou seja, não analisa, não julga e não cria expectativas.


O tema “Envelhecimento e Propósito” encerrou o evento, que contou com a participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de José Gregori,ambos com 88 anos. “É um momento de requalificar, redimensionar, repensar as coisas, e perceber se ao que se dedicou valeu realmente a pena”, disse Gregori, presente também na edição do ano passado.

Para FHC, a vida é feita de acasos. Ele destacou a importância de viver a plenitude de cada momento, manter uma jovialidade espiritual e a capacidade de entender o que está mudando, diante das enormes  transformações do mundo. E, em vez de pensar no que passou ou ficar idealizando o que vai acontecer, buscar o que de fato pode ser feito.