5 ações para combater o efeito psicossomático da pandemia

Nem precisa ser idoso para sentir os efeitos psicossomáticos do distanciamento social. Todo mundo, em algum grau, tem algum tipo de dificuldade em lidar com a pandemia.  Mas ao menos um fator parece ser unânime para piorar a quarentena imposta: a quantidade de conteúdo inútil que invade feito praga o isolamento.

Se não é o bombardeio macabro do noticiário, é a tsunami de láives, que já pode até ser aportuguesada porque venhamos e convenhamos ganharam aquele toque over-verde-amarelo que só a gente sabe dar. Outro dia mesmo vi o anúncio de uma láive “ao vivo”.  Oiiiii?

Um amigo postou que tinha a impressão que a láive era a nova paleta mexicana. Para quem não lembra o tal sorvete gourmet virou febre e houve uma onda de investimentos em paleterias, que depois, claro, não vingaram.

Não se trata aqui de virar mais uma fiscal de rede social alheia, menos ainda de criticar o mundo, porque tudo que a gente não precisa neste momento são de mais reclamações vãs. Então, que tal promover algo que valha no meio desse enorme entulho digital?

Sem grandes pretensões, destaco 5 ações positivas que têm feito meus dias dentro da caixa melhores.

#Para reorganizar o trabalho

O FalaMaturi é um papo via Zoom realizado semanalmente com o pessoal da MaturiJobs, que reúne um grupo de maduros em busca de novas formas de trabalho, mas que encontraram online apoio para trocar ideias e sentimentos durante a pandemia.  Eu participo de alguns encontros, realizados todas as sextas, e tem sido incrível.

#Para ajudar quem precisa

O Ribon é um aplicativo de doações pelo qual você não precisa necessariamente colocar a mão no bolso. Ao baixar o app e se cadastrar, o usuário recebe uma boa notícia por dia e, a cada notícia lida, ganha 100 ribons, moedas virtuais que podem ser doadas para projetos sociais, graças a fundações parceiras. Por lá, é possível acompanhar e entender o impacto social do gesto no mundo.

Twitter solidário_Ah! Me chamou atenção ainda a solidariedade encontrada em redes como Twitter, geralmente cheia de esculhambação, bate-boca e politicagem.  Tive a oportunidade de acompanhar o caso de uma senhora que comentou a dificuldade em receber o auxílio emergencial, necessário para o leite da neta naquele momento.  

No mesmo instante, dezenas de anônimos se articularam para contribuir. Várias pessoas pediram sua conta e os comprovantes de depósitos começaram a ser compartilhados. Valores simbólicos, mas que encheram meu coração de esperança.  Incrédulos dirão que é golpe. Pode ser. Minha consciência está tranquila.

# Para manter a sanidade mental

Existem diversos grupos de apoio psicológico no Whatsapp que muito tem ajudado. Eu, por exemplo, participo de três: Saúde Mental Cercanias, Cuidando de Idosos, e um sobre Budismo. É muito grupo, né minha filha? Já dizia o meme de Dráuzio Varella, mas tem gente que realmente precisa. Eu dou uma espiada e percebo como as conversas fazem diferença para algumas pessoas. Então, não é inútil.

O que me fez perder um pouco a motivação no caso dos grupos foi que o coordenador pedia para descrever tal sentimento em uma palavra e adivinhem? Isso mesmo! Todo um rosário desfiado.  Preciso de um divã só pra mim! O que acabei encontrando nas publicações de amigas como as da psicóloga Mara Lúcia Madureira. Ela escreve alguns artigos que ajudam a manter a sanidade mental.

#Para reforçar o sistema imunológico

Sempre gostei de praticar atividades esportivas.  E tenho certeza de que o estilo de vida faz toda diferença para o envelhecimento ativo, mas tive de me readaptar durante a quarentena.  Com a redução dos treinos, eu investi no que passei a chamar de imunização natural. Um reforço ao sistema imunológico baseado em plantas, frutas e legumes.

Criei sucos ótimos e reduzi o vinho porque não é o primeiro e nem será o último fim do mundo. Não adianta achar que quarentena é uma eterna “láiiive” de sertanejo e encher a cara. Um dia acaba e o preço a pagar na retomada é alto.

#Para aprender coisas novas

Já estava cursando uma pós na modalidade EaD, mas com avaliações presenciais. Com a pandemia, as provas passaram a ser online. E dezenas de outros cursos foram disponibilizados gratuitamente para quem tem habilidade com os ambientes virtuais de estudos.

Nem sempre é fácil se adaptar, principalmente para os mais velhos. Mas é possível aprender coisas novas. Veja o caso da italiana Lucy Pollock, de 97 anos, que criou um canal de receitas no YouTube, e tem feio o maior sucesso. Ou conheça o Mapa de Iniciativas 60+ em tempos de coronavírus.

De mais a mais, com pandemia ou sem ela, sempre é tempo de descobrir novos hobbies e até mudar de carreira. Mas tenho pra mim que a palavra de ordem do momento é prudência. Não adianta nada fazer três cursos ao mesmo tempo e ficar louca para dar conta de tudo e tentar se manter altamente produtiva.

Não é hora. O mundo não precisa de produtividade neste momento. Talvez precise de uma pausa. Por que não? O ócio pelo ócio também pode ser importante nas nossas vidas.

Que esse tempo sirva para que a gente perceba essas pequenas coisas que podem fazer diferença no cotidiano na pós pandemia. Não acho que a gente vá sair muito melhor dela, mas não custa tentar, não é mesmo?

Encontre cursos gratuitos para fazer durante a pandemia.

Pandemia expõe ruído grave na comunicação com idosos

Faltam campanhas que falem com essa parcela da população e ensinem, inclusive, ao profissional da saúde dialogar sobre temas como a disparada do HIV entre os 60+

Por aqui enfrentamos com todos os cuidados mais este “fim de mundo”. E espero sinceramente estar viva para acompanhar o próximo. Mas não é tão simples assim com a comunidade do entorno. Dentro da própria família, muitos insistem em zanzar por aí como se a Covid-19 não pudesse lhes atingir. Hoje cedo mesmo tive um entrevero com um tio 80+, que decidiu visitar os meus pais porque “isso daí é só coisa de outros países”, como ele esbraveja.  É o tipo de atitude que joga todo o esforço de prevenção por terra.

Tenho pai e mãe de 77 e 71 anos, respectivamente. Minha mãe, que serviu de inspiração para muitas pautas desse blog, tem exatamente tudo que esses serezinhos precisam para se proliferar: venceu o câncer, é cardiopata e enfrenta problemas dos sistemas respiratório e renal por conta do mau funcionamento do coração. Enfim, tem dores crônicas e incapacidades funcionais.

Custou um pouco, mas eles entenderam que um dos motivos das complicações serem mais comuns em pessoas acima dos 50 anos é a imunossenescência. Um processo natural do envelhecimento, que diminui a capacidade do sistema imunológico.

Assim, o risco de infecção e possíveis complicações serão sempre maiores, independentemente do novo coronavírus.  Nesse caso, porém, o problema é a velocidade da contaminação, que pode fazer todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, provocando uma sobrecarga no atendimento de emergência. 

Na contramão do projeto terapêutico

A mídia de massa, aquela mesma tão criticada, ajuda bastante nessa conscientização, pois é difícil fazê-los aderir a essa batalha global. E mais ainda afastá-los de sua rede de suporte social, sem desconstruir todo o projeto terapêutico desenvolvido justamente com base em atividades coletivas e contato com seus pares.

Circula na internet uma edição da coletiva do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, nos pedindo para cuidar nos nossos idosos e isso envolve fazer justamente o contrário do que vinha sendo feito para lhes proporcionar um pouco mais de autonomia e independência.  Não há que se questionar a medida, embora o próprio governo esteja fomentando a confusão. Mas não há nada de efetivo que fale diretamente com eles para nos apoiar nessa missão. E já faz tempo que observo esse quadro.

Cogitou-se investir R$ 4,8 milhões numa campanha contra medidas de isolamento, mas nem um centavo para criar um canal de diálogo com os quase 22 milhões de idosos, sendo 4 milhões deles vivendo sozinhos, segundo o IBGE.

Aliás, na sociedade que começa a perceber o tamanho do Brasil Sênior – e ainda vê apenas um problemão no envelhecimento da população – há muito marketing para os maduros descolados e quase nada para aqueles que enfrentam a senescência fora dos estereótipos.  

Mas em tempos de pandemia, quando especialistas de toda ordem se proliferam num ritmo quase tão contagioso como do novo coronavírus, é preciso lembrar que a velhice é heterogênea, o que a torna uma experiência muito peculiar.  

Então, como melhorar a comunicação com esse público tão diverso?

É evidente que se a tecnologia está a nosso favor, também impõe inúmeros desafios…

Em meio à infestação de lives nas redes sociais, identificar poucos e bons conteúdo, de credibilidade, e garantir o amplo acesso disseminando informações em pontos estratégicos como elevadores, transporte públicos, mercados, farmácias e nas próprias Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, poderia contribuir para criar um diálogo eficiente para além da pandemia.

Pois é pensando no que podemos aprender com ela, que me vem à mente outro vírus que tem acometido a mesma parcela da população. Dados do último boletim epidemiológico HIV / Aids divulgado pelo Ministério da Saúde mostram que no Brasil, nos últimos dez anos, o número de pessoas 60+ com HIV cresceu 103%.

Os fatores são diversos, mas estão relacionados ao comportamento, à vida sexual da população dessa faixa etária. E passam pelo aumento da maior expectativa de vida em geral até a proliferação, nos últimos anos, do uso de medicamentos para disfunção erétil.

Como se trata de uma geração que, muitas vezes, não aderiu à cultura do uso do preservativo, a incidência do HIV tem aumentado muito. E as doenças sexualmente transmissíveis também. Muitas inclusive, preveníveis com exames de rotina, caso do papanicolau. Mas os médicos simplesmente não pedem porque ainda é tabu falar sobre sexo com os mais velhos até para os profissionais da saúde.

“A formação de profissionais de saúde não contempla conteúdos informativos referentes à abordagem da sexualidade na velhice e, de modo geral, temos dificuldade de reconhecer a sexualidade como uma necessidade da vida humana. Daí a dificuldade também em reconhecer esse campo de atuação em nossa prática profissional”, escreve a doutora em Gerontologia Laís Lopes Delfino, em “Revolução da Longevidade e Pluralidade do Envelhecer” (Senac). 

O fato é que, com tanta informação disponível, será que seremos capazes de mudar nosso comportamento?  O que poderíamos aprender com o tsunami de dados que nos arrasta diuturnamente?

Yuval Noah Harari, no capítulo Paradoxo do Conhecimento, de “Homo Deus” (Companhia das Letras), coloca a seguinte questão: “De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar mudanças ?”

Espero que, ao colocar nosso frágil teto de vidro à prova, a pandemia sirva para abrir nossos olhos e mentes para a necessidade de profundas discussões que desenvolvam políticas públicas para enfrentar o envelhecimento com mais sabedoria em todas as frentes necessárias. Cuidem-se!

E fiquem em casa.