Um jovem país de cabelos grisalhos

O rótulo de país de jovens não cabe mais ao Brasil, que vem se transformando num jovem país de cabelos grisalhos. Segundo as estatísticas, caminhamos rapidamente rumo a um perfil demográfico cada vez mais envelhecido.  A mudança se dá em razão da queda da mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e uma redução da taxa de fecundidade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) dão conta que em 2025 o Brasil será o sexto do mundo com o maior número de pessoas mais velhas. E falta menos de uma década para 2025. Diante dessa realidade, será que estamos preparados para lidar com as questões da longevidade?

Reeducação

Quando os problemas ambientais vieram à tona, toda a sociedade teve de passar por uma reeducação que a levou a rever seu comportamento. De lá para cá, o entendimento do ciclo de vida de um produto faz parte do cotidiano das mais diversas gerações, que entenderam a preservação do meio ambiente como algo essencial para o futuro do planeta. O desafio agora é modificar a compreensão sobre o ciclo da vida humana para ressignificar a longevidade, um fenômeno inédito para os brasileiros.

“Tudo é muito novo e demanda uma mudança cultural até do próprio idoso. É preciso não só entender, mas viver o envelhecimento com naturalidade”, diz Simone Jardim, embaixadora da Aging 2.0.

A Aging 2.0 é uma organização global, com sede em São Francisco, nos Estados Unidos, que promove o fortalecimento de startups focadas em produtos e serviços inovadores para o público 50+. No Brasil, há duas representações desse ecossistema de negócios, chamados capítulos: o de São Paulo e o do Rio de Janeiro.

Aceitação

Simone destaca que o Brasil é um país que ainda não aceita rugas e segue um padrão de beleza juvenil. Não à toa, chegou a liderar o ranking de cirurgias plásticas, à frente dos Estados Unidos, puxado pelas intervenções estéticas.  “O preconceito tem de acabar e a sociedade precisa entender quais questionamentos devem ser feitos diante da diversidade cultural da população para desenvolver políticas públicas eficientes”, avalia. “A velhice não é homogênea”.

Sinal disso vem do empreendedor Antônio Vilmar Stachuk. Dono de um café numa badalada academia de São Paulo, Tony, como é conhecido, tem 56 anos, é homossexual e mora sozinho. Gosta de ir ao teatro, de beber cerveja e tem muitos sonhos, entre os quais viajar pelo mundo.  Os planos, porém, são sempre adiados, pois o trabalho consome tempo integral, das 6h às 22h, inclusive aos sábados. Nem por isso pensa em se aposentar. “É graças a esse corre-corre que mantenho a alegria de viver”, conta.

Pensamento semelhante tem o engenheiro Mário Solari. Aos 60 anos e recém-aposentado, nem sonha em parar. E é justamente para atender pessoas como Tony que vem se dedicando ao projeto Idade Livre, uma startup voltada para o turismo na maturidade. A decisão conta com apoio de toda a família e a animação não passa despercebida quando ele conta os planos para os próximos 30 anos.

“O turismo é uma consequência da busca pelo bem estar”, explica o novo empreendedor, que cursa pós-graduação em Marketing Digital. “Quem se considera idoso aos 60 vive em outra época”.

Não é o que sentiu na pele a jornalista Denise Ribeiro. Embora não revele a idade, ela experimentou o preconceito no mercado de trabalho ao passar dos 50 e se ver descartada pelas empresas de comunicação, que costumam priorizar os jovens. “Eu tenho um excelente histórico profissional, mas ele não é levado em conta”, avalia. “Tenho a sensação de estar numa arca de Noé de humanos, cercada de clichês por todos os lados”, reclama.

Individualidade

Essas histórias de vida indicam que é preciso levar em conta que nem todos os idosos querem pular de paraquedas. E nem todos os idosos desejam se aposentar ou passar o restante de suas vidas tricotando ou jogando dominó numa praça. “Há de se chegar a alternativas para todos os anseios”, diz a gerontóloga Marília Berzins, doutora em Saúde Pública e presidente do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE).

Para ela, o Brasil ainda não dá a devida atenção à questão do envelhecimento. “Não há políticas públicas estabelecidas, o mercado não leva em conta as reais necessidades da maturidade e os idosos não protagonizam a própria causa, que é o envelhecimento, uma das maiores conquistas da história recente da humanidade”.

Mercado em expansão

Trata-se, destaca Marília, de um segmento expressivo, representando hoje  algo em torno de 13% do total da população brasileira e 17,9% do eleitorado. Entretanto, as questões que envolvem o envelhecimento e suas implicações não estão pautadas nas agendais eleitorais de nenhuma esfera.  “Temos um marco legal bastante avançado, mas na prática temos a escassez e ausência dos serviços garantidos por esses instrumentos. É um Brasil legal distante do Brasil real”.

Essa ausência do compromisso político com as questões da maturidade reflete o pensamento social em relação ao envelhecimento, ainda fundamentado em mitos e preconceitos.  “O jovem sempre é prioridade e enquanto não se romper esses padrões dominantes não haverá avanços na construção de uma sociedade para todas as idades”.

Apesar de algumas conquistas como o Estatuto do Idoso, a complexidade de lidar com a maturidade ainda padece de males crônicos como abandono, violência e preconceito. Não é preciso procurar muito para encontrar idosos em situação vulnerável, como seu Aurélio Mei, de 81 anos, hoje morador do Lar dos Velhinhos de Campinas (SP).

Ele morou com a irmã até sua morte, quando a sobrinha o convidou para continuar com a família. Ao completar 80 anos, sendo 60 deles trabalhando, decidiu vender sua banca de frutas no centro da cidade e buscar outra ocupação. Foi quando teve todo seu dinheiro roubado pela sobrinha, com quem mantinha uma conta conjunta. “Estou há um ano aqui no Lar, cuido da horta e estou muito feliz”, conta. “O importante é ocupar a cabeça com algum tipo de atividade”.

Etarismo

Algo nem sempre permitido por pura discriminação. E discriminar pessoas como seu Aurélio ou qualquer grupo etário tem um nome: etarismo. Um problema muito frequente no mercado de trabalho.

Experiência da seguradora Mondial Assistance mostra que há preconceito evidente até mesmo entre os idosos.  A empresa contratou 40 pessoas mais velhas e passou por uma saia justa para resolver conflitos entre mulheres que nunca tinham trabalhado dentro do próprio grupo.

Para amenizar questões desse naipe o empresário Nilton Molina idealizou o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon. O objetivo é contribuir com ações concretas, especialmente na área do trabalho, de cidades e mobilização social, para colocar a questão da longevidade na agenda de desenvolvimento da sociedade brasileira e propor soluções em torno dos seus impactos sociais e econômicos.

Muito além da Previdência

“Trata-se de uma parcela da população vista ainda como um fardo para a economia. Foi o déficit na Previdência Social que despertou o Brasil para questões relacionadas ao envelhecimento”, diz Molina.

Foi a partir do instituto que surgiu o Movimento Real Idade, que reúne apoiadores de todos os segmentos da sociedade e do governo, em torno do tema, a fim de discutir a rápida mudança demográfica no Brasil e aprofundar a percepção das oportunidades e desafios provocados por esse processo.

São duas as propostas encabeçadas pelo movimento. A primeira é a requalificação e reinserção dos profissionais com mais de 50 anos no mercado de trabalho, por meio da implantação do Regime Especial de Trabalho do Aposentado (RETA), que prevê incentivos fiscais e tributários a empresas que contratarem pessoas nessa faixa etária.

O RETA é comparado à Lei de Estágio, prevendo relações trabalhistas mais flexíveis e incentivos para empresas que contratarem profissionais aposentados e com mais de 60 anos, projeto que está em linha com o Estatuto do Idoso. A redação do projeto de lei é dos professores Hélio Zylberstajn, da FEA, e Nelson Mannrich, da Faculdade de Direito da USP.

Outra medida é a criação do Índice Real Idade de Longevidade, projeto que destacará anualmente as cidades brasileiras mais bem preparadas para atender as necessidades de suas comunidades, cada vez mais longevas. A iniciativa tem assinatura do pesquisador Wesley Mendes da Silva, do Instituto de Finanças da FGV/SP.  “Reunimos mais de 80 indicadores de 500 cidades brasileiras”, conta Molina.

Ele destaca que o grande vetor para a largada do instituto foi uma pesquisa do Data Popular sobre a renda média dos brasileiros com 50 anos ou mais, que está 40% acima da renda média nacional. É um público que movimenta em torno de R$ 1,58 trilhão, equivalente ao consumo de duas Holandas.  “Mesmo assim, além da indústria da doença, não se vê nenhuma outra investindo em produtos específicos”, diz.

O Movimento Real Idade se assemelha à plataforma da Associação Americana dos Aposentados (AARP), uma organização sem fins lucrativos, apartidária, composta por sócios, que ajuda pessoas acima de 50 anos ou mais a melhorar sua qualidade de vida.

A AARP atua com serviços comunitários via Fundação e por meio de doações. Atua ainda em publicações, pesquisas, eventos, produtos e serviços, em que se arrecadam os recursos para sua sustentabilidade, além de anúncios em seu portal. Cada sócio paga cerca de US$ 20 ao ano e tem direito aos benefícios que a associação oferece, como cartões de crédito.

Empreendedor na maturidade

Mas o Movimento Real Idade não é o único que surge nesse caminho. A Rede Lab 60+ é outra que propõe respostas positivas e inovadoras para a longevidade.

Trata-se de um ecossistema de negócios inovadores com foco em produtos e serviços pensados especialmente para atender às expectativas dos consumidores de idade mais avançada. A proposta é transformar as visões estereotipadas que a sociedade brasileira ainda tem sobre as pessoas mais maduras, como considerá-las “velhas” demais para atuar no mercado de trabalho ou iniciar um negócio próprio, praticar esportes radicais ou voltar á sala de aula.

“É um espaço que fomenta a conexão da diversidade, seja intergeracional ou setorial, na busca de soluções coletivas para as questões trazidas pelo envelhecimento”, define o empreendedor Sérgio Serapião, idealizador do coletivo. “Dessa forma também cidadãos vivenciam e ressignificam essa etapa da vida”.

Pensamento disruptivo

Com a mesma pegada nasceu o Maturity Now. Um movimento em rede aberta para conectar agentes transformadores da maturidade, empoderada, empreendedora e com propósito de gerar mudanças na sociedade, conforme descreve Max Nolan Shen, idealizador do Maturity Now. “A ideia é criar novas soluções de produtos e serviços por meio do empreendedorismo na maturidade”.

Além do foco na maturidade, iniciativas como o Maturity Now, o Lab 60+ e o Aging 2.0 têm em comum a aposta no pensamento disruptivo e na atuação por meio de parcerias estratégicas. Seus protagonistas perceberam que fazer mais com mais idade, permite não só rever conceitos, mas colocar em prática alternativas mais eficazes para lidar com o crescimento exponencial e as necessidades complexas da população idosa que hoje alcança países ricos e emergentes.

Sinal de que iniciativas como essas são bem vindas, bem vistas e têm contribuído para a sociedade vêm da Virada da Maturidade, que chega a sua quarta edição depois de público 10 mil pessoas em 2015.  O evento contará com uma agenda de atividades que acontecem simultaneamente em vários pontos de São Paulo, e que trazem discussões especialmente planejadas para destacar os desafios e as oportunidades da longevidade.

Idealizada pelos psicólogos Fernanda Gouveia e Fernando Seacero, a expectativa agora é dobrar o número de participantes para 20 mil pessoas. “O objetivo é que a Virada se torne um movimento de valorização da pessoa idosa e que mobilize, a cada ano, mais pessoas e instituições para refletirem sobre a preparação da nossa sociedade para o envelhecimento”, diz Fernanda, que busca parceiros que compartilhem dos mesmos pressupostos e que queiram integrar o movimento.

Segundo Fernanda, em 2015, inicialmente, foi um desafio promover ações em que as pessoas ‘50+’ aparecessem de forma ativa, porém, em seguida, o  desenvolvimento do projeto foi inspirador. “Mostramos que o idoso pode ser protagonista de sua vida e divulgamos alternativas que oferecem oportunidades variadas”.

Ao ouvir um depoimento de um idoso ou uma história de vida, por exemplo, o público – seja lá de qual geração for – é tocado de maneira direta.  Apresentar as atividades nesse modelo traz um efeito muito mais significativo do que apenas falar sobre o potencial e a sabedoria dos idosos. A Virada da Maturidade quer mobilizar e gerar reflexão, causar impacto e surpreender. “Está funcionando”, afirma Fernanda.

Texto originalmente publicado na Revista Problemas Brasileiros.