Negar a sexualidade da pessoa idosa é privá-la de direitos

O Dia dos Namorados, 12 de junho no Brasil, é uma data comemorativa para celebrar a união amorosa entre casais. Junho também é o mês do Orgulho LGBTQIA+, uma sopa de letrinhas criada para ilustrar todas as nuances da diversidade. As iniciais, que se limitavam ao LGBT até pouco tempo atrás, ganharam novas siglas para dar mais visibilidade às diferenças. Contemplam assim novas identidades de gênero e orientação sexual.  Pode parecer pouco, mas é um passo importante para quem saiu do armário, como se diz, ou ainda sofre para se assumir. E, por isso, um possível retrocesso no  envelhecimento também precisa ser combatido.

A sexualidade faz parte da existência humana, em qualquer etapa da vida. Mas por que na velhice ela é tradicionalmente negligenciada pela medicina, assim como pouco conhecida e entendida pela sociedade?

A realização sexual e os encontros amorosos são frutos da história e das experiências de cada indivíduo e isso não depende da idade. O etarismo é uma pauta que precisa ser incluída na agenda da diversidade. Isso envolve criar estratégias de comunicação para derrubar barreiras culturais e promover educação para prevenção da saúde sexual dos maduros. E é disso que trata meu projeto de intervenção desenvolvido para conclusão do curso de Gerontologia.

Abordagem no atendimento primário é essencial

Proponho a criação de protocolo para formulação de boas práticas no diálogo entre profissionais de saúde e o paciente idoso sobre saúde sexual na Atenção Primária em Saúde. E o uso do marketing social para despertar a atenção da sociedade em geral sobre a necessidade de abordagem mais humanizada sobre todas as concepções de sexualidade junto a população idosa.

Tive contato com dois moradores de ILPIs (Instituição de Longa Permanência para Idosos) que me fizeram, inclusive, escolher a temática da sexualidade para meu projeto de conclusão de especialização em Gerontologia. Um deles, o João*, quase 70, passou a esconder que era gay desde que se mudou para o novo lar por constrangimento e receio de sofrer preconceito dos demais.

Em outra ILPI, a Maria*, na casa dos 90 anos, ainda com a libido tinindo, tinha machucados nas genitálias pela masturbação frequente com objetos como a própria bengala. Os cuidadores, além de demorar para identificar a ocorrência, estavam completamente despreparados para lidar com a situação.

É evidente que apesar de todo avanço sobre o tema do envelhecimento, ainda há um imenso tabu e despreparo entre os profissionais de saúde sobre as vivências sexuais em idosos, mesmo que não seja apenas pelo ato sexual em si. Torna-se, assim, cada vez mais urgente reconhecer a universalidade do sexo, da sexualidade, e compreender seus impactos na satisfação pessoal, bem-estar e, sobretudo, na qualidade de vida para promoção da saúde no envelhecimento.

Mudança de comportamento previne ISTs entre maduros

Doenças potencialmente preveníveis com mudança de comportamento, caso das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), se proliferam entre a população idosa no Brasil e no mundo. Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde indica um aumento de mais de 100% no número de idosos com vírus da imunodeficiência humana (HIV /Aids) na última década. Tradicionalmente, os idosos já estão mais expostos a infecções por causa da imunidade celular menor, mas chama atenção o crescimento superior a 600% na incidência de HIV/Aids entre mulheres.

É um cenário que tem se agravado por diversos fatores, que passam pelo advento de medicamentos para disfunção erétil e a popularização da reposição hormonal, até a maior participação em grupos de convivência. Tudo contribui com uma epidemia que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) pode acometer 70% da população mundial desta faixa etária se continuar nesse ritmo.

Desconstrução de estereótipos negativos

Acredito que somente tornando o tema popular, provocando discussões e formulando estratégias de longo prazo, conseguiremos descontruir os estereótipos negativos que impedem a sociedade de conhecer e entender que a questão do contato físico vai além da esfera da genitália, que não se trata de “pouca vergonha” nem de “safadeza”, mas de aspectos inerentes aos seres humanos. Entende-se, pois, que a falta de conhecimento perpetua tais tabus.

Negar a sexualidade das pessoas idosas é privá-las de direitos porque a velhice é uma idade tão frutífera como qualquer outra no que se refere à questão da prática do sexo e à vivência do amor. Ambos são elementos de valor fundamental na complexidade social.  Feliz Dia do Amor Livre!

*Os nomes foram trocados.

Cuidar é importante, mas que o cuidado não vire castigo

Tenho sido atropelada pelo trabalho e ainda tenho de me sentir agradecida por ter uma fonte de receita, por ter um teto e a geladeira cheia, enquanto um número cada vez maior de pessoas caminha ao relento sem ter o que comer. Tenho sido engolida pela dor de aceitar passivamente a morte de pessoas queridas porque “Deus quis assim” ou porquê seja lá onde for elas estarão melhores, “nos braços de Deus”. Essa impotência se transformou em raiva. Uma raiva que aperta o peito e não sei bem administrar. Acredito que seja semelhante ao que sente o idoso quando sua vida é restringida.

É uma avalanche de sentimentos que responderá pela próxima pandemia: as doenças mentais. E a gente sabe que o envelhecimento é a fase em que estes tipos de transtornos são mais recorrentes, principalmente as demências, distúrbios de humor e ansiedade. E os estados confusionais, diga-se de passagem, são os que mais estão ligados às taxas de mortalidade, segundo relatos científicos. Já há também diversas pesquisas indicando que a maioria dos terapeutas ainda não receba treinamento especializado em tratamentos geriátricos.

Diante de tanta dificuldade em lidar com a saúde mental, cada um tem um jeito diferente de encarar os problemas, mas confesso que quando me convidaram para participar de uma roda de conversa que trata do futuro da longevidade no pós pandemia eu só consegui pensar, mas que “catso” de futuro? Estaremos todos loucos de pedra em breve! O que posso dizer se não vejo nada positivo no horizonte?

É tanto absurdo das autoridades que deveriam nos proteger, tanto conteúdo sem sentido de gente inescrupulosa, tanta laive sem noção, tanto influencer sem ética. A gente perde o rumo! E acho que é natural. Não seria normal estar agora postando foto de viagens paradisíacas e fartos pratos de comida como se o mundo estivesse na mais perfeita ordem.

Mas a cutucada serviu para me tirar da zona de conforto e foi pesquisando para levar algo plausível nessa bate-papo que engravidei dessas ideias. Minha cabeça, como disse Nietzsche para Breuer em “Quando Nietszche chorou”, está grávida de pensamentos. As enxaquecas são as dores de parto desse processo. Ou mais roqueiramente falando, como cantou Titãs na canção “AaUu”, estou ficando louco de tanto pensar; estou ficando surdo de tanto escutar; estou ficando cego de tanto enxergar…

Mas ainda não estou rouca. E preciso gritar!

Eu percebi que o cativeiro que agora experimentamos diante de uma crise da Saúde intensificada por um governo que não poupa esforços para destruir o povo, é velho conhecido de boa parte da população idosa. É uma parcela que enfrenta tais agruras independentemente do isolamento imposto pela Covid. E vai piorar quando se pensa em saúde mental. Há muito ser humano preso no próprio corpo, incapaz de exercer atividades diárias, e que precisa abrir mão de toda uma história de vida para manter-se vivo por mais algum tempo.

O quanto você estaria disposto a abrir mão de pequenas coisas que te dão prazer para viver um pouco mais? Qual seria sua escolha? No fim da sua existência, abriria mão do seu colchão, das suas lembranças, do refrigerante, de um baseado ou de um torresminho, só para prolongar um pouco mais a estada nesse planeta sem futuro?

Do ponto de vista do cuidador, proibir ou ceder?

Até onde podemos ir para proporcionar um pouco de conforto e felicidade a quem não tem muito mais pela frente? Não existe uma resposta e são muitas as perguntas quando estamos aprendendo a lidar com o envelhecimento. E a enxaqueca só faz aumentar…

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Eu sempre fui rígida, principalmente com os meus pais, dessas que segue à risca a recomendação de cortar o sal, o açúcar e outras guloseimas. Mas com a pandemia os limites mudaram e a vida já ficou sonsa demais para não desfrutar de certos prazeres, como uma taça de um bom vinho, um livro, uma corrida, um raio de sol no rosto sem máscara. Percebi, então, que talvez o viver mais dependa dessas lufadas de vento na cara. E que nada muda no meu sentir com o passar dos anos.

Agora quando me perguntam qual o futuro da longevidade eu só sei dizer que não há regras. Ganhamos tempo de vida, mas não qualidade necessariamente. Talvez a coisa mais importante para o envelhecer bem seja a liberdade de decidir a própria vida.

Cuidar é importante, mas que o cuidado não se transforme num castigo.

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Efeitos colaterais, do modo off, em 2021

A avalanche de dados e informações que nos soterram todos os dias tem tornado mais frequente a necessidade de pausas. A tecnologia nos deu mais tempo, inclusive de existência, mas será que esse tempo a mais tem sido aproveitado para melhorar nossa qualidade de vida? É notável ao redor, que as pessoas estão sendo cada vez mais vítimas de crises de ansiedade e de uma busca infinita por produtividade. Óbvio que não existe qualidade de vida sem dinheiro, mas será que não dá mesmo para viver com menos?

Neste 2021 que começa todo torto me obriguei – pelos limites do próprio corpo – a me desconectar e entendi que nada foi aprendido ou compreendido com a pausa imposta pela tal da pandemia. O mesmo pode ocorrer com o envelhecimento.

Tem gente que não aprende nada. E não adianta querer ser reflexo do que se vê desse movimento todo que aflora na internet. Garotos-propaganda existem desde que o mundo é mundo. Só ganharam um nome pomposo agora: influencers. Isso não muda nada. Mais do que ser reflexo é preciso reflexão. E isso requer pausa.

Por isso, minha promessa de ano novo é gastar meu tempo mais devagar. Menos rede social e mais social na rede. De balanço. De preferência com um bom livro desses que não seja de autoajuda, mas que tanto me ajudaram nos meus dias off, como as batalhas quixotescas; a distopia da República de Gilead, o realismo fantástico de Macondo.

Foi nessa cadência de pensamento que veio à mente dois casos reais, de conhecidos, que devem se tornar objetos de estudos, e que me inspiraram a trazer à tona algo que pouco vejo. Não que não admire a revolução prateada e todo o ativismo que a longevidade e os maduros promovem principalmente online por conta da pandemia.

Mas é preciso banir estereótipos e ter em mente que nem todo velhinho é legal. Nem sempre a velhice será uma coisa bacana, bela e produtiva. Trata-se aqui de entender que é um processo construtivo.

Que em 2021 todo ativista do envelhecimento se lembre também das famílias que se desestruturam e precisam de apoio diante de idosos que perpetuam o mal que carregam dentro de si. Não é porque a idade chega que a pessoa de repente fica boa.

Não acredito em redenção só pelo correr dos anos.

E quando é a família a agredida? Apesar de ser muito gratificante oferecer cuidados, essa entrega também tem efeitos negativos. Que ações podem amenizar o estresse e consequente problemas de saúde, isolamento, cansaço e frustração que levam a uma sensação de desesperança e exaustação, impelindo ao desgaste de quem cuida e chegando até aos maus tratos da pessoa idosa?

Então, a longevidade é um processo que requer cuidado desde sempre?  Exato. E a gente que se cuide para não se tornar um daqueles velhos gagás e ranzinzas, e não transformar a vida da família num inferno. Basta parar de olhar um pouco para fora e para os outros e olhar para dentro de si para perceber que nem cem anos podem mudar certas coisas.

Eu andei meio perdida, confesso, com tanta tarefa, sem saber quais eram minhas prioridades, mas de uma coisa eu tive certeza durante meu modo off. Eu não quero ser uma velha desqualificada em prol do domínio da velocidade e das redes sociais. Nem tampouco apegada a quinquilharias sem valor. O desapego começa agora.

Outra coisa. Gente ruim existe. Jovem ou velha. E gente imbecil e fútil também. A internet está aí de prova, escancarou essa ferida, e não me deixa mentir.

 

 

 

 

O valor econômico do inestimável

É fundamental reconhecer o trabalho de quem cuida do idoso e encontrar novas maneiras de apoiá-lo.  É o que faz a Techstar Future of Longevity Accelerator, aceleradora de negócios da longevidade, financiada por Melinda Gates

Antes de a pandemia colocar em xeque o cuidado com os idosos milhões de pessoas cuidavam de seus parentes, a maioria sem apoio adequado. Ciente disso, Melinda Gates firmou parceria – por meio da Pivotal Ventures, empresa de investimentos criada em 2015 para incentivar negócios de impacto social voltados para mulheres e famílias nos Estados Unidos -, com a Techstars, rede mundial de fomento ao empreendedorismo, para criar uma aceleradora de projetos da longevidade.

Batizada Techstar Future of Longevity Accelerator, a iniciativa nasceu com o propósito de ajudar a encontrar soluções inovadoras para os americanos mais velhos e as pessoas que os amam e cuidam deles.  Um cenário que envolve 40 milhões de cuidadores familiares. Por lá, uma em cada três mulheres baby boomers cuida de um pai ou mãe idoso.

No Brasil, os desafios não são diferentes e se tornam cada vez mais urgentes.  Aqui como lá não é novidade que cuidar ainda é uma tarefa feminina. E são majoritamente mulheres aquelas que param a vida para viver a de um outro, simplesmente por questões culturais. De modo geral, o familismo impõe a uma única mulher a responsabilidade e o peso de retribuir os cuidados recebidos na infância. Como bem descreve Júlia Rocha, médica de família, trata-se de um processo violento e doloroso.

Pesquisa da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA mostra que 63% dos cuidadores morrem até quatro anos antes do que as pessoas que eles estão cuidando. Isso porque o esforço e tempo demandado são tão intensos que os cuidadores costumam descuidar de si próprios, abandonam emprego e o lazer e acabam desenvolvendo insônia, depressão e ansiedade, entre outras doenças.  “É preciso enxergar o caráter sistêmico destas condições e agir em busca de soluções sistêmicas”, escreve em seu blog Por Um Mundo Melhor.

Nesse sentido, o primeiro passo é reconhecer o trabalho de quem cuida do idoso e apoiá-lo. E foi isso que Melinda Gates fez ao lançar seu programa para acelerar projetos inovadores de ferramentas e serviços, que ajudem a melhorar esse ecossistema criado pelo envelhecimento da população. A  iniciativa está sob a tutela de Jason Towns, diretor da Techstar Future of Longevity Accelerator, que concedeu a seguinte entrevista para o Evoke:

Para quem não está familiarizado, pode definir o que o ecossistema de atendimento ao idoso envolve?

É difícil porque abrange uma ampla gama de serviços e soluções, mas de modo geral, o termo envolve todo tipo de cuidado para idosos que não podem mais viver com segurança de forma independente, muitas vezes devido a problemas de saúde ou mobilidade.  Esses cuidados podem ser em casa ou administrados por cuidadores empregados ou por comunidades de idosos. Cuidadores formais são funcionários pagos, enquanto cuidadores informais (muitas vezes esquecidos nessas conversas) costumam ser da família.

Existe alguma conexão pessoal com esse ecossistema?

Sim, quase sempre existe quando nos damos conta do processo de senescência. No meu caso, participar dos cuidados de meu avô durante seus últimos anos foi um dos componentes mais impactantes da minha infância. Vovô foi um dos meus heróis, e agora ter a oportunidade de acelerar a inovação que tem o potencial de melhorar a vida de adultos mais velhos e cuidadores é emocionante para mim. Passei a maior para da minha carreira identificando oportunidades negligenciadas em mercados carentes e este trabalho se encaixa perfeitamente nessa intersecção.

Como a pandemia mudou as necessidades não atendidas dos indivíduos que prestam e recebem cuidados de idosos?

A crise sanitária só exacerbou muito os desafios que já afetam os idosos, mas a maioria das empresas selecionada para receber apoio nesta primeira rodada está abordando o problema de frente.  Para se ter uma ideia, antes da pandemia, quase 45% dos adultos mais velhos relataram se sentir solitários.  Os impactos na saúde do isolamento social rivalizam com o fumo, a obesidade e a inatividade física. A startup Naborforce, uma das 10 selecionadas, tem combatido esse problema de isolamento social e solidão, fornecendo uma plataforma para conectar adultos mais velhos a seus “filhos” na comunidade, que são pessoas cadastradas que ganham para dar suporte sob demanda para recados, transporte e ajuda em casa.

Há alguma semelhança entre os fundadores das empresas que escolheu financiar?

A condução do processo de seleção até o início da pandemia forneceu uma visão sobre a determinação de cada equipe, o nível de comprometimento e a capacidade de responder às mudanças do mercado em tempo real. Esses foram dados comuns, inesperados, mas valiosos. Cada fundador tem uma visão única de como eles precisam acomodar o impacto da crise sanitária e como sua solução se encaixa no “novo normal”.

Conheça algumas das startups selecionadas:

#Braze Mobility

Desenvolveu o primeiro sistema de sensor de ponto cego do mundo que pode ser conectado a qualquer cadeira de rodas motorizada, transformando-a em uma cadeira de rodas “inteligente”. Com a Braze Mobility, os usuários podem identificar obstáculos com mais facilidade, ajudando a reduzir os riscos de lesões e danos à cadeira de rodas e ajudando os usuários a manter sua dignidade e independência.

# MemoryWell 

É uma plataforma digital que usa a narração de histórias para melhorar o atendimento aos idosos. Por meio de uma rede de escritores profissionais, a startup trabalha com famílias, comunidades de idosos e provedores baseados em casa e na comunidade, para substituir formulários e questionários de atendimento por meio de memórias do paciente.

#Rezilient Health 

Uma plataforma de telessaúde robótica que permite que os médicos não apenas forneçam visitas de vídeo padrão, mas também controlem remotamente o posicionamento de dispositivos médicos que estão localizados com o paciente em outro consultório médico, farmácia ou lar de idosos, entre outros locais.

#Rubitection 

Desenvolve um sistema de saúde e bem-estar da pele para melhorar a detecção, avaliação e gerenciamento de cuidados de condições vasculares e dermatológicas, como feridas e úlceras nos pés para idosos em casa, em lares de idosos ou em hospitais.

#Authored 

Cria roupas cuidadosamente projetadas com aberturas discretas que se adaptam às necessidades e limitações do corpo.  As peças promovem e prolongam a independência, permitem roupas mais seguras e reduzem o estigma e as lesões.

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Sociedade se acostumou a condenar quem “larga” seu idoso em um asilo

Mas só quem passa por esta experiência sabe quanto delicada é a situação e difícil este caminho. É o que nos conta Eliane Sobral *, na história a seguir. O relato abre uma série de casos da vida real, que vão ilustrar as dores e as delícias do envelhecer.  Acompanhem!

Hoje ela faz 85 anos. E há 56 anos e nove meses estamos juntas. Do passado distante, lembro das unhas sempre compridas e pintadas de vermelho. Ela sempre adorou vermelho. Lembro do batom – aquele de estojinho verde da Avon e do perfume Toque de Amor (que eu usava escondido para ir para a escola). Lembro que sempre foi uma mulher bonita, vaidosa. E, apesar dos poucos recursos dos quais dispúnhamos, estava sempre muito bem arrumada. 

Veio de Pernambuco com 14 anos. A viagem no pau-de-arara durou três dias e três noites, como ela sempre gosta de contar. Chegou em São Paulo sem eira e nem beira. Foi trabalhar de doméstica, chorou de fome e, quando ascendeu profissionalmente, virou metalúrgica. 

Sempre teve em mente que teria sua própria casa para morar e não mais que dois filhos. Acabou adotando a terceira. Lembro de um conjunto de lã verde musgo. Saia e casaquinho com botões grandes nas costas. Lembro também de um vestido florido, também verde, e de um blazer com grandes flores vermelhas que ganhou do meu pai – não sei se no dia das mães ou em um 14 de setembro. O vestido de noiva – lindíssimo – não sobrou nada. Retalhei para fazer roupinhas para as minhas bonecas… 

Sempre foi uma mulher forte e de opinião. Puxou a peixeira para uma vizinha que insistia em chamar sua mais velha, em tom jocoso, de baianinha. Todos na casa rezavam pela sua cartilha e quem quisesse contrariar ou pedir algo, sempre esperava ela acender o cigarro porque aparentava ficar mais calma. 

Não foi mulher de muitos amantes. Mas os que passaram por sua vida, estavam sempre a seus pés. Por medo, respeito e amor. Aqui também era ela quem dava as cartas. 

Quando perdeu o primeiro marido, acusou o golpe, mas não caiu. Com o segundo foi diferente. Não que gostasse mais deste do que daquele. Com o primeiro viveu mais de 30 anos. Com o segundo, não passou dos sete. O primeiro, porém, foi companheiro de batalha, de vida dura, de educar as filhas, dar conta da casa, de pagar as contas. O segundo veio quando ela achava que já tinha cumprido a missão. Daí, só bailes da terceira idade, escapadas para a praia, pizzas às sextas e até um estoque de filmes pornô. 

Quando o segundo se foi, parece ter levado também essa alegria de viver. Não sei se ela se achou velha para começar de novo, se não teve forças para recomeçar – mais uma vez. Fato é que se deixou cair. E nunca mais se levantou. Como os anos não diminuíram seu ímpeto, nem sua personalidade difícil, logo ela se transformou em uma questão a ser administrada pelas filhas. 

Dizem que quando envelhecemos, voltamos a ser criança. Não creio. Porque criança, normalmente, obedece aos mais velhos. Já os mais velhos… Ah, estes! 

Disposta a fazer nada e passar o dia inteiro diante da televisão, logo ela começou a ter dificuldades de locomoção. Inexplicavelmente começou a cair – mas os tombos só aconteciam quando havia alguém por perto para acudir. 

Foi viver com a filha do meio, pelo tempo necessário para se recuperar e voltar para a própria casa. Ficou duas semanas. Não queria fazer fisioterapia, muito menos seguir as recomendações de uma nutricionista. Não se dava também com a empregada que as filhas contrataram para cuidar dela. Enfim, quanto mais o tempo passava, mais caótica ficava a situação. Até que ela própria pediu que procurassem uma casa de saúde, onde ela pudesse se recuperar. 

Depois de inúmeras tentativas, ela parece estar bem na casa atual. Mas em todas, e é bom que se ressalve, em absolutamente todas, é ela que manda prender e manda soltar. As cuidadoras parecem ter um carinho verdadeiro por ela. E os demais internos, claramente, têm medo. Só ela tem uma poltrona exclusiva na sala de TV. E ninguém, em sã ou insana consciência, se atreve a sentar lá, quando ela dá uma saidinha. Fisioterapia, faz quando tem vontade – e quase nunca tem. 

O combinado era ela se empenhar na fisio, na dieta, ficar bem e voltar para a casa dela. Nunca cumpriu. 

Por muito tempo, muito mesmo, convivi com a culpa de ter colocado minha mãe num asilo. E várias vezes ela própria disse que nunca imaginou que, tendo três filhas mulheres, iria parar num asilo. 

Durante muito tempo a culpa foi minha companheira constante. E eu não conseguia assimilar como uma mulher como ela, a chefe da família, a geniosa, a manda chuva, tinha se deixado levar àquele ponto. Demorou muitos anos para que eu entendesse que ela fez as escolhas erradas e pagou por isso. E que, por mais que eu quisesse e tentasse, não a teria feito enxergar de outra forma.

Hoje, percebo que cada um escolhe seu caminho. Que o outro pode alertar, ajudar, indicar atalhos, mas escolha é e será sempre de cada um. Nestes dez anos que ela está num asilo, ou numa casa de repouso, ou numa clínica, como eu e minhas irmãs preferimos chamar, ela nunca ficou sem receber nossa visita.

Minha irmã mais velha vai aos sábados, eu aos domingos. A mais nova vai quando dá. Antes da pandemia, ela vinha sempre passar uns dias na minha casa, especialmente em feriados prolongados. Os passeios também sempre foram constantes. Praia, feijoada na quadra da escola de samba, que ela adora. Enfim, o que está ao nosso alcance e sempre um pouco mais. 

Nos últimos tempos, tenho dito e repetido que se cheguei aonde cheguei, se sou quem eu sou, devo a ela. E agradeço. Percebo que ela fica orgulhosa e com aquele olhar de “missão cumprida”. 

Hoje ela faz 85 anos. Está bem cuidada, saudável, tocando o terror no asilo e sendo paparicada pelas cuidadoras. Custou-me muito ficar com o coração em paz – embora eu ainda me pergunte se fizemos o certo ou não. 

Minha irmã mais velha se incomodava um pouco com o que os outros iam pensar sobre a decisão de colocar nossa mãe num asilo. Não sei se ainda se incomoda. A mim, nunca incomodou. E não incomodará. Porque só ela, eu e as minhas irmãs sabemos da nossa história. 

A mim o que importa é que ela esteja bem. Que tenha sempre a certeza de que ela é o grande amor da minha vida. E que, quando a pandemia passar, eu vou tocar Spyrogiro do Jorge Benjor, que ela ama, sempre que ela entrar no meu carro para gente ir passear.  

*Eliane Sobral, filha do meio da dona Maria do Carmo Barbosa Sobral, que em 14 de setembro de 2020 faz 85 anos, é jornalista e colaboradora do Casa de Mãe.  

Leia também: Como habitarei quando envelhecer?

Como habitarei quando envelhecer?

Diante do isolamento imposto pela pandemia e da releitura comentada entre amigas da saga solitária da estirpe dos Buendía, em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, me volta à mente como nosso jeito de levar a vida e nossa rede de relações são vitais para envelhecer bem. É pelo lado financeiro, mas é também pelo suporte do convívio social que o envelhecimento nos leva a procurar por novas formas de viver.

Já tratei desta tendência em “Moradia compartilhada melhora qualidade de vida”, mas volto ao tema porque o déficit habitacional é assunto recorrente e ao optar por estudar a ciência do envelhecimento tenho notado grande desconhecimento e até preconceito sobre as opções habitacionais, principalmente quando cabe à família dar o voto de minerva. Ou até decidir sobre as práticas paliativistas, quando há necessidade de cuidados a um paciente incurável.

Há certo mal estar porque é difícil entender que é, de fato, melhor para todo mundo estar no lugar adequado.  Então é preciso destacar, reforçar, divulgar e até nos educar para a pluralidade do envelhecimento.

Não é porque o sujeito faz 60 anos – quando se convencionou estabelecer “idosa” a população – que vai começar a se identificar com as mesmas coisas. E, por isso, nem todo mundo vai querer morar do mesmo jeito.  E isso não depende de ter ou não filhos.

Já pensou quem vai cuidar de você se for necessário?

Essa mudança de costumes avança muito no discurso e até na construção das leis, mas demora à beça pra se incorporar na nossa vida. Ainda hoje falar em cuidados paliativos ou em asilo soa como algo cruel, como despejar a pessoa num depósito de velho.

A própria palavra asilo – inicialmente dirigidos à população carente que necessitava de abrigo, frutos da caridade cristã diante da ausência de políticas públicas – traz em sua gênese a ideia de isolamento e solidão e, por esse e outros motivos, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia indicou a substituição para ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos.

Apenas 6,6% das ILPIs são públicas

Hoje, o País já conta com 3.500 ILPIs, sendo a maioria privada. Apenas 6,6% são públicas, com predominância das municipais, o que corresponde a 218 instituições, número bem menor do que o de instituições religiosas vicentinas, aproximadamente 700. Os números são de artigo publicado na Revista de Estudos Populacionais.

A institucionalização do idoso é uma opção de moradia já bem conhecida por todos. E claro que há casos e casos.  “Tudo está relacionado ao grau de dependência do idoso. Seja física, cognitiva ou financeira”, diz Luisa Regina Pessôa, arquiteta aposentada da Fiocruz e à frente de um projeto num condomínio para sêniores em Búzios, no Rio de Janeiro.

Lá, oito amigos estão reunidos pela proximidade das casas e pela segurança de poderem contar um com o outro, mesmo antes do isolamento imposto pela pandemia. “Acho que essa modalidade pode ir se ajustando ao nosso envelhecimento e a cada grau de necessidade e independência”, avalia Luisa.

Um lar monitorado

Foi justamente pensando nas diferentes necessidades desse público que o empresário Leonardo Pisani idealizou ACASA, um serviço de hospedagem assistida que se propõe a melhorar a qualidade de vida dos idosos. Trata-se de um formato aos moldes de negócio do “assisted living”, adotada pelas grandes redes de lares de idosos dos Estados Unidos.

“Buscamos trazer para o Brasil o modelo de vida em uma comunidade de idosos, onde o hóspede pode trocar experiências, praticar diversas atividades e ter todo o suporte de uma equipe multidisciplinar especializada”, conta. Tudo sem perder a liberdade de tornar aquele cantinho no seu lar.

Embora só agora esses conceitos ganhem destaque, nem são assim tão novos. Em 1975, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, nascia um projeto pioneiro de um grupo de amigos liderado por Antonio Correa Leite, que idealizou um local onde as pessoas pudessem envelhecer com dignidade, tranquilidade e saúde, além de ter todos os benefícios de um condomínio fechado.

Já naquela época previu a necessidade de profissionais para atuar na área da saúde para atendimento aos moradores. Com o passar dos anos, o que era algo entre amigos se transformou em negócio, com a adesão de novos investidores, originando a Associação Residencial – A Agerip.

E quem não tem acesso?

É importante abrir um debate para que essas novas formas de morar se multipliquem para além daqueles que podem pagar, já que alternativas para diferentes condições de saúde e de capacidade funcional não faltam, mas poucos têm ou terão acesso a elas pelos altos custos.

São mínimas as políticas públicas habitacionais que asseguram moradia digna. O déficit habitacional brasileiro é de mais de oito milhões de moradias, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). E a situação piora diante das necessidades dos idosos.

Por isso, é urgente entender a transição demográfica pela qual o País atravessa debater soluções e cobrar dos futuros candidatos propostas voltadas aos problemas deste Brasil Sênior.

O primeiro passo é conhecer um pouco mais do que já existe disponível, abrir a nossa mente e nos despir de preconceitos para as novidades que possam surgir.

Vamos juntos?

#ILPIs

Residências coletivas, que atendem idosos com necessidade de cuidados prolongados. Podem ser governamentais ou não, mas o tratamento médico não é o elemento central do atendimento.

#Asilos

Lar destinado acolher idosos sem recursos financeiros, essencialmente de responsabilidade pública.  Atendimento inclui alimentação, higiene e saúde.

#Casas de Repouso

Destinada à prestação de serviços médicos, de enfermagem e demais serviços de apoio terapêutico. Instituições governamentais ou não governamentais. Regime de internato. Só podem ter médico como responsável técnico.

#Moradia assistida

É uma residência inclusiva, mas não é uma clínica, nem um local de tratamento, mas uma variação da tradicional casa de repouso. No local, as pessoas têm liberdade para fazer dele um lar. São residências adaptadas às necessidades especiais, individuais e coletivas dos atendidos por elas.

#Centro-Dia

O Centro-dia é um serviço social previsto na Política Nacional do Idoso que atende pessoas com 60 anos que necessitam de cuidados durante o dia e que à noite voltam para suas casas, mantendo assim os vínculos sociais e familiares. Podem ser públicas ou privadas.

#Coliving

É um nome chique para a tradicional República. Quem lembra? Isso porque nesse modelo as pessoas têm o seu próprio quarto, mas compartilham os outros ambientes da casa, como cozinha, sala e varanda. E todo mundo colabora.

A vida em comunidade e o compartilhamento de espaços comuns que caracterizam o coliving atraem cada vez mais idosos, que querem viver sob o lema da partilha de experiências. Pensando nisso, foi lançado a Coliiv, startup que funciona como uma espécie de Tinder da moradia para os maduros.

#Cohousing

São casas particulares agrupadas em torno de espaço compartilhado. Cada casa anexa ou unifamiliar possui acomodações tradicionais. As famílias têm renda independente e vida privada, mas os vizinhos planejam e gerenciam colaborativamente as atividades da comunidade e os espaços compartilhados.

A estrutura legal é tipicamente uma associação de proprietários ou uma cooperativa habitacional.

#Hospice

O hospice é um lugar destinado a pessoas portadoras de doenças letais, sobretudo no período em que a terapia de cura torna-se ineficaz e a terapia paliativa torna-se imprescindível. Pacientes que possuem doenças avançadas e incuráveis, em fase terminal ou não, bem como pacientes que necessitam de cuidados especializados no controle de sintomas ou de pequenas intervenções clínicas.

Traz o conceito e a filosofia de cuidados paliativos e envolve atendimento, inclusive para a família no pós-luto.

E então? Já pensou que estilo combina mais com você? Nada impede a gente de seguir o seu Antonio, da Agerip, e criar algo, não é mesmo?!

O futuro depende da diversidade no trabalho

Demorei um bocado a assistir Um Senhor Estagiário, filme com Anne Hathaway e Robert De Niro, apesar de tantas indicações. Realmente é uma delícia de comédia com toques de drama que pode ser inspiradora tanto para aposentados quanto para mulheres que assumem liderança. Para mim a inspiração veio na hora certa por vários motivos e me ajudou a encarar o trabalho de uma nova forma. Olhar esse essencial para o envelhecimento.

Foi daí que veio a pergunta que originou este texto: o que estamos fazendo para combater a velhofobia no mercado e dentro de nós mesmos?

Essas e outras questões foram respondidas durante o Maturi Fest 2020 – Festival Online de Trabalho e Empreendedorismo 50+, realizado entre 6 e 9 de julho, sob a batuta de Mórris Litvak, fundador da Maturi, negócio social que nasceu em 2015 como MaturiJobs, com o intuito de ajudar as pessoas maduras a terem a oportunidade de continuarem ativas e compartilhando suas experiências pelo tempo que quiserem.

O evento reuniu 60 palestrantes engajados na causa do envelhecimento ativo, contou com cerca de 7 mil inscritos e a cobertura completa pode ser conferida no site da Maturi. Vale a pena!

Trabalho ou emprego?

Recomendo independentemente da idade. Até porque, como se diz, a carapuça me serviu, embora ainda esteja aqui no limbo dos 40+. É que durante o distanciamento social muitos, como eu, assumiram novas tarefas da gestão não só da própria casa como a de algum familiar do grupo de risco. Confesso que inicialmente o sofrimento era desproporcional simplesmente porque não conseguia enxergar valor em determinado tipo de trabalho.

Isso porque fomos criados para ter emprego, carreira, num cenário onde quase sempre as relações de trabalho são balizadas pela troca do dinheiro. Não é que o dinheiro não importe!

Importa e muito. Principalmente quando você percebe aos 50 que vai viver por mais 50. Mas diante de uma crise socioeconômica como a que o mundo enfrenta para além da pandemia, é vital compreender o trabalho como ação que provoca transformação e não apenas obediência ao horário de expediente e ao líder.

O ato de se dispor a fazer algo pela sociedade ou por você mesmo tem valor mesmo não sendo remunerado. E isso precisa ficar claro, como no filme com De Niro, para quem já se aposentou ou não.

Estigma social

“A pergunta que deve ser feita é o que a vida espera de mim e não o contrário”, destaca a antropóloga Mirian Godenberg, autora dos livros A Bela Velhice e Coroa, corpo, envelhecimento e felicidade, para quem o prazer de aprender deve reger toda a sinfonia a vida inteira. “A pandemia nos revelou um lado perverso da sociedade ao trazer à tona o estigma social da velhice e isso precisa ser combatido nas mais amplas frentes com educação”, completa.

Nesse caminho, a tecnologia desempenha um papel fundamental  ao ampliar o acesso a conhecimento e facilitar os relacionamentos corporativos quando se passa enxergar as redes sociais como ferramentas de trabalho. Uma mudança que pode ser mais difícil se for feita atropeladamente.

No ritmo de cada um

“É importante não se comparar ao outro e encontrar o próprio ritmo”, diz o epidemiologista Alexandre Kalache, uma referência internacional quando o assunto é envelhecimento e longevidade. “Movam-se mais devagar e parem de reclamar que o mundo está envelhecendo. Envelhecer é bom desde que o processo seja sustentado pelos quatro pilares do envelhecimento ativo: saúde, conhecimento, participação e segurança”, diz o especialista para quem a vida precisa deixar de ser uma prova de cem metros para se transformar numa maratona.

E como em toda prova de resistência, o planejamento faz a diferença. Mas se organizar para envelhecer ativamente requer coragem para seguir os sentimentos, como destaca o consultor Alexandre Pellaes, palestrante, pesquisador e mestre em Psicologia do Trabalho.

“Embora esteja na moda, nem tudo é só sobre a mente, por isso não gosto do termo mindset. Prefiro feelset”, afirma.  Nesse sentido, diz ele, mais vale um ano de terapia que um ano de MBA porque o autoconhecimento é extremamente importante na hora de ouvir o coração e decidir o caminho a seguir. E não se trata aqui do besteirol literário de autoajuda que pulula por aí.

Diversidade que se completa

A pandemia  reforçou a necessidade de reflexão sobre o idadismo e o preconceito. Mas quando se trata do futuro, outras doenças que não têm sido devidamente tratadas, caso dos vários tipos de demência e até da diabetes, entre outras, além da velhofobia arraigada na sociedade, devem ser levadas em conta, assim como a velocidade do envelhecimento da população e sua pluralidade.

Em um contexto em que  mais da metade das empresas brasileiras têm dificuldades para preencher vagas em áreas como tecnologia da informação, matemática e negócios, este é um grande momento para refletirmos sobre a responsabilidade social do futuro do trabalho.

Atualmente, o país conta com mais de 13 milhões de desempregados, conforme os últimos dados divulgados pelo IBGE. Desse total, quantos estão sem empregos e foram para informalidade por falta de oportunidades e desenvolvimento? Quantos possuem talento nas áreas que mais sofrem pela ausência de profissionais, porém não têm capacitação ou uma chance simplesmente por serem considerados “velhos” ?

A resposta não é simples, mas Kalache joga um facho de luz na escuridão ao apostar que a saída diante de um mundo fortemente conectado é a confiança e o apoio intergeracional.  “Dependemos dos mais velhos para nos guiar e dos mais jovens para nos fortalecer, embora exista o medo e a discriminação. Só podemos vencer essa crise e outras crises que virão, com decência e confiança uns nos outros, senão todos afundaremos”.

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Pesquisa aponta necessidade de mudar relação com a morte

O movimento de transformação provocado pelo envelhecimento ativo tem alterado a percepção e a relação que temos com o fim da vida. Ainda mais agora, diante da pandemia da Covid-19, quando a morte nos ronda diariamente. É o que revela uma pesquisa recém-lançada, que nos convida a refletir de um novo jeito sobre a finitude, que pode sim ser mais real, afetiva e prática.

Porque planejar e organizar o fim da vida é essencial para auxiliar a família a lidar, com o mínimo de estresse, com questões como heranças, dívidas e outras pendências. O estudo Plano de Vida & Legado foi realizado pela Janno em parceria com a MindMiners e ouviu ouviu 1.053 pessoas com mais de 45 anos.

“Inovamos ao realizar análises do comportamento do cidadão maduro com o novo formato e perspectiva de vida, que agora esticou”, diz Layla Vallias, cofundadora da Janno, startup de gestão financeira focada no público sênior.

Ela destaca que, maior que a população da Espanha, os maduros com mais de 50 anos já somam quase 60 milhões no Brasil. E que esse público desenha um novo modo de envelhecer. “Nele, os sonhos são restaurados, os desejos se avivam, a liberdade é o maior valor – e um novo plano de vida começa a ser escrito”.

Mas colocar o assunto embaixo do tapete não ajuda. No ranking Qualidade da Morte, conduzido pela Economist Intelligence Unit, o país ocupa a 42ª posição entre 80 países. No cotidiano, 74% dos brasileiros não falam sobre a morte. Quando a ameaça à vida ganha proporções globais e palpáveis – como temos visto nesta pandemia – o assunto é ainda mais necessário.

“É importante lembrar que falar sobre finitude não se trata de abordar somente o luto, a perda, a saudade. Planejar a finitude é, acima de tudo, assegurar a liberdade de tomar as próprias decisões e honrar o legado”, afirma.

De acordo com estudo do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios (SINCEP), 87% dos brasileiros não se sentem preparados para lidar com a morte. Não se trata de naturalizar o que pode ser evitado. Aliás, os avanços da medicina aliados à tecnologia são os principais responsáveis pela longevidade ativa. Mas já passou da hora de aprender a lidar melhor com algo que faz parte da nossa existência, conforme já discutimos aqui em Se a morte é algo natural, por que é tão difícil falar sobre ela?

Sinal de que, aos poucos, começamos a olhar com outros olhos para o fim da vida são as diversas iniciativas que se propõe a nos transformar nesse sentido. Caso do Movimento InFINITO, que nos inspira a refletir sobre a nossa própria morte e a de entes queridos.

No curso de Gerontologia também há uma disciplina inteirinha dedicada aos cuidados paliativos e à finitude, abordando como se comunicar com o paciente e a família, inclusive no pós-luto.

Então, que tal deixar o tabu de lado, ceder lugar ao diálogo e atenuar o sofrimento com planejamento?

Confira os principais destaques da pesquisa:

# Sete em cada 10 entrevistados com mais de 60 anos afirmam que estão refletindo mais sobre a finitude durante a pandemia; quatro em cada 10 estão com medo de morrer; dois em cada 10 começaram o planejamento de fim de vida durante o distanciamento social.

# Sete em cada 10 brasileiros considera a morte um tabu. Embora seja um tema frequentemente abordado pelas religiões e artes, o tema não chega facilmente à mesa do jantar. Ao ser administrada com um distanciamento emocional e de forma prática, a morte passou a ser tratada apenas no ambiente hospitalar.

# Seis em cada 10 brasileiros com mais de 45 anos já refletiram sobre a própria morte e não acham difícil falar sobre o tema. Conforme a idade passa, fica cada vez mais fácil falar sobre a morte: 47% entre 45 e 54 anos; 38% entre 55 e 64 anos; e 31% entre os 65+. Cinquenta e quatro por cento dos brasileiros com mais de 45 anos se identificam com a afirmativa: eu me preocupo com o que vou deixar (patrimônio ou dívidas) para meus filhos e familiares quando não estiver mais aqui. 

# Seis em cada 10 brasileiros com mais de 45 anos, afirmam que querem morrer em casa; 13% em hospice (com cuidados especiais de tratamento de fim da vida); 13% em hospital, mas não UTI; 4% em casa de repouso (ILPI); e 2% na UTI.

# Seis em cada 10 brasileiros com 45+, que já refletiram sobre a morte, sabem quais são os desejos de final de vida: sete em cada 10 já conversaram sobre os ritos funerários com familiares e amigos próximos; cinco em cada 10 já conversaram sobre como querem ser cuidados em caso de doença terminal. Entretanto, nesse assunto falta a reflexão sobre o planejamento (pessoal e financeiro) para essa etapa da vida. Oito em cada 10 brasileiros 45+ não registraram os seus desejos, por exemplo.

Acesse a pesquisa completa Plano de Vida & Legado AQUI.

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Sem vacina, é preciso seguir com pequenas doses de liberdade

Hoje dei o primeiro passo rumo a minha desquarentenização. Só por hoje não acordei pensando no noticiário dessa gaiola chamada Brasil. Venci o desânimo, o medo, não pensei nas críticas e sai para correr. Tênis no pé e na fuça minha super máscara que vem com sete filtros. Comigo só a minha cãopanheira Frida. Foi importante para organizar as ideias.

Neste momento, tomar as rédeas das emoções e aprender a (se) flexibilizar é fundamental. A vida continua e é preciso retomar os projetos, os sonhos e mais do que nunca usar a tal capacidade de nos reinventar.

Só percebi que havia me perdido no caos do isolamento quando mesmo com todo o suposto tempo da quarentena em casa vi que minha última atualização do blog era do final de abril. Dias iguais, confinamento, mercado, farmácia, e uma vida de avatar na internet…

Menos afazeres, mais cansaço.

Com o tempo correndo nessa toada lenta, imperceptível, talvez tenha me quarentenizado um pouco além da conta.

Não que tratar da longevidade no Casa de Mãe não fosse importante. Mas já havia muita coisa bacana dentro da temática sendo produzida. Então eu (tentei) focar em mim mesma e nos estudos da Gerontologia para apresentar uma boa proposta de projeto de intervenção na conclusão do curso, que acaba já neste semestre. E só isso já foi muito difícil.

Sem grandes inspirações para trazer algo realmente útil para cá, feito com cuidado, acabei por me abster. Também tem certo desassossego que me impede, como antes, de realizar várias atividades ao mesmo tempo.

É no meio desse turbilhão de sentimentos que certas precauções em excesso começam a virar fobias e a impedir a nossa volta à vida de fato. Sim, à vida. Ponto. Porque normal acho que essa vida nunca foi.

Dá para considerar normal uma vida em que uma parte dos brasileiros faz fila para entrar num shopping enquanto outra parte do povo morre numa velocidade descomunal?

Tem certas coisas que só a psicologia explica. Por isso fui buscar ajuda e bater um papo com profissionais para tentar entender esse momento tão ambíguo e tão delicado. Porque não é apenas o vírus que causa desalento.

A exemplo do que acontece no resto do mundo, aqui a crise socioeconômica dá sinais de que vai durar um bom tempo. E tudo isso colabora para um fenômeno psicológico que pode acometer uma parcela da população: o medo de sair de casa.

“É um sentimento de angústia e receio que pode tomar conta mediante a ideia de sair às ruas e retomar o contato social e está relacionado à síndrome da cabana”, conforme explica a psicóloga e hipnoterapeuta Sabrina Amaral. É um efeito observado em outras situações de isolamento de longa duração: expedições no Alasca, períodos longos de hospitalização e encarceramento prolongado, entre outros.

A psicóloga Maria Aparecida (Tina) Junqueira Zampieri, doutora em Ciências da Saúde, explica que síndrome não é bem um nome adequado por não se tratar de uma patologia, mas de uma reação a um confinamento. “É esperado enfrentar alguns sentimentos diferentes, depois de um longo período sem sair de casa. É natural certa dificuldade, certo medo, um estranhamento”, diz.

Divulgação/AI

Tina destaca que isso pode ocorrer em qualquer idade e variar de pessoa para pessoa.

Nos idosos, porém, o quadro pode ser mais acentuado pela questão da fragilidade, por estarem em uma fase de vida em que outras mudanças estão acontecendo simultaneamente e isso colabora para esse sentimento de estranheza. Mas, muitas pessoas jovens também podem experimentar a mesma sensação.

Por que isso acontece?

É como se o nosso cérebro ficasse acostumado a uma nova rotina e aprendesse que estar em casa é a única possibilidade de segurança e proteção. Além disso, tivemos reforçadores positivos de comportamento durante a quarentena: mais tempo para a família, hobbies, estudo e tempo para nós mesmos.

Para as pessoas que têm uma personalidade naturalmente introvertida, isso é ainda mais evidente. Por isso, é importante reforçar a esperança e falar de coisas boas que estão por vir. Das janelas de oportunidades que se abriram e de como as mudanças podem ocorrer a partir das crises, reforça a psicóloga Tina Zampieri.  

Quais são os sintomas?

O sintoma principal é a angústia de sair de casa, acompanhada de medo e ansiedade. Percebe-se ainda certa letargia, falta de motivação, sono excessivo e comportamentos de esquiva para fugir do problema, como compulsão alimentar ou adicções. Notam-se também sintomas cognitivos como falha na memória e dificuldade de concentração.

Tina conta que ela mesma passou por uma situação semelhante e sugere que para se desquarentenizar, o melhor é respeitar o próprio tempo. “Não se obrigar a nada é a melhor saída para voltar a sair”.

5 passos para se desquarentenizar

#Foque no que está ao seu alcance. Crie uma rotina com movimento e que envolva alimentação saudável, exercícios e momentos para sair de casa aos poucos.

#Sem grandes pretensões, coloque metas para administrar a angústia. Um dia após o outro. Primeiro até a padaria, depois uma volta no quarteirão, e assim, sucessivamente.

#Avalie racionalmente seu medo, afinal, não é uma escalada até o Pico da Neblina, é apenas uma volta pela vizinhança.

#Facilite ainda mecanismos para mitigar o medo, como usar roupas e calçados fáceis de tirar, facilitando a higienização na hora de chegar em casa. Tenha um local externo para deixar os calçados e máscaras até serem higienizados.

#É importante não se comparar com os outros, mas sim, consigo mesmo. Se você observar que os comportamentos de esquiva não regridem ou aumentam conforme os dias passam, é importante buscar ajuda.

No mais, não se cobre tanto. Que tal encarar isso como uma fisioterapia psicológica que vai ajudar você a voltar a caminhar depois de um longo período de imobilização?

Com informações do Ciclo de Mutação e do CidadeVerde.com

5 ações para combater o efeito psicossomático da pandemia

Nem precisa ser idoso para sentir os efeitos psicossomáticos do distanciamento social. Todo mundo, em algum grau, tem algum tipo de dificuldade em lidar com a pandemia.  Mas ao menos um fator parece ser unânime para piorar a quarentena imposta: a quantidade de conteúdo inútil que invade feito praga o isolamento.

Se não é o bombardeio macabro do noticiário, é a tsunami de láives, que já pode até ser aportuguesada porque venhamos e convenhamos ganharam aquele toque over-verde-amarelo que só a gente sabe dar. Outro dia mesmo vi o anúncio de uma láive “ao vivo”.  Oiiiii?

Um amigo postou que tinha a impressão que a láive era a nova paleta mexicana. Para quem não lembra o tal sorvete gourmet virou febre e houve uma onda de investimentos em paleterias, que depois, claro, não vingaram.

Não se trata aqui de virar mais uma fiscal de rede social alheia, menos ainda de criticar o mundo, porque tudo que a gente não precisa neste momento são de mais reclamações vãs. Então, que tal promover algo que valha no meio desse enorme entulho digital?

Sem grandes pretensões, destaco 5 ações positivas que têm feito meus dias dentro da caixa melhores.

#Para reorganizar o trabalho

O FalaMaturi é um papo via Zoom realizado semanalmente com o pessoal da MaturiJobs, que reúne um grupo de maduros em busca de novas formas de trabalho, mas que encontraram online apoio para trocar ideias e sentimentos durante a pandemia.  Eu participo de alguns encontros, realizados todas as sextas, e tem sido incrível.

#Para ajudar quem precisa

O Ribon é um aplicativo de doações pelo qual você não precisa necessariamente colocar a mão no bolso. Ao baixar o app e se cadastrar, o usuário recebe uma boa notícia por dia e, a cada notícia lida, ganha 100 ribons, moedas virtuais que podem ser doadas para projetos sociais, graças a fundações parceiras. Por lá, é possível acompanhar e entender o impacto social do gesto no mundo.

Twitter solidário_Ah! Me chamou atenção ainda a solidariedade encontrada em redes como Twitter, geralmente cheia de esculhambação, bate-boca e politicagem.  Tive a oportunidade de acompanhar o caso de uma senhora que comentou a dificuldade em receber o auxílio emergencial, necessário para o leite da neta naquele momento.  

No mesmo instante, dezenas de anônimos se articularam para contribuir. Várias pessoas pediram sua conta e os comprovantes de depósitos começaram a ser compartilhados. Valores simbólicos, mas que encheram meu coração de esperança.  Incrédulos dirão que é golpe. Pode ser. Minha consciência está tranquila.

# Para manter a sanidade mental

Existem diversos grupos de apoio psicológico no Whatsapp que muito tem ajudado. Eu, por exemplo, participo de três: Saúde Mental Cercanias, Cuidando de Idosos, e um sobre Budismo. É muito grupo, né minha filha? Já dizia o meme de Dráuzio Varella, mas tem gente que realmente precisa. Eu dou uma espiada e percebo como as conversas fazem diferença para algumas pessoas. Então, não é inútil.

O que me fez perder um pouco a motivação no caso dos grupos foi que o coordenador pedia para descrever tal sentimento em uma palavra e adivinhem? Isso mesmo! Todo um rosário desfiado.  Preciso de um divã só pra mim! O que acabei encontrando nas publicações de amigas como as da psicóloga Mara Lúcia Madureira. Ela escreve alguns artigos que ajudam a manter a sanidade mental.

#Para reforçar o sistema imunológico

Sempre gostei de praticar atividades esportivas.  E tenho certeza de que o estilo de vida faz toda diferença para o envelhecimento ativo, mas tive de me readaptar durante a quarentena.  Com a redução dos treinos, eu investi no que passei a chamar de imunização natural. Um reforço ao sistema imunológico baseado em plantas, frutas e legumes.

Criei sucos ótimos e reduzi o vinho porque não é o primeiro e nem será o último fim do mundo. Não adianta achar que quarentena é uma eterna “láiiive” de sertanejo e encher a cara. Um dia acaba e o preço a pagar na retomada é alto.

#Para aprender coisas novas

Já estava cursando uma pós na modalidade EaD, mas com avaliações presenciais. Com a pandemia, as provas passaram a ser online. E dezenas de outros cursos foram disponibilizados gratuitamente para quem tem habilidade com os ambientes virtuais de estudos.

Nem sempre é fácil se adaptar, principalmente para os mais velhos. Mas é possível aprender coisas novas. Veja o caso da italiana Lucy Pollock, de 97 anos, que criou um canal de receitas no YouTube, e tem feio o maior sucesso. Ou conheça o Mapa de Iniciativas 60+ em tempos de coronavírus.

De mais a mais, com pandemia ou sem ela, sempre é tempo de descobrir novos hobbies e até mudar de carreira. Mas tenho pra mim que a palavra de ordem do momento é prudência. Não adianta nada fazer três cursos ao mesmo tempo e ficar louca para dar conta de tudo e tentar se manter altamente produtiva.

Não é hora. O mundo não precisa de produtividade neste momento. Talvez precise de uma pausa. Por que não? O ócio pelo ócio também pode ser importante nas nossas vidas.

Que esse tempo sirva para que a gente perceba essas pequenas coisas que podem fazer diferença no cotidiano na pós pandemia. Não acho que a gente vá sair muito melhor dela, mas não custa tentar, não é mesmo?

Encontre cursos gratuitos para fazer durante a pandemia.